quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Nos Passos de Santo António, de Gonçalo Cadilhe


"Nos Passos de Santo António. Uma Viagem Medieval" de Gonçalo Cadilhe
Clube do Autor, 2016
188 Páginas 




É o segundo livro que leio escrito por Gonçalo Cadilhe (o primeiro foi "No Principio estava o Mar") e voltei a gostar do estilo do autor. Cadilhe tem feito da arte de viajar e da escrita de viagens a sua vida, sendo que, em "Nos Passos de Santo António", o centro da história é a vida de Santo António, um santo da idade média, desde o seu nascimento em Lisboa, passando por Coimbra, onde estudou, abordando a sua viagem pelo norte de África e a sua chegada a Pádua, onde morreria entre os trinta e muitos e os quarenta anos. 

Cadilhe percorre o caminho de Santo António, omitindo algumas cidades por questões de economia temporal, até à sua chegada a Pádua, uma cidade rica. E durante o trajecto vamos aprendendo aspectos muito interessantes acerca deste santo, de Portugal Medieval, das gentes e dos costumes locais, investigados previamente por Cadilhe e, em alguns casos, conhecidos no contacto deste com as gentes locais no decorrer da viagem.  

No meu caso em particular aquilo que fez querer este livro não foi propriamente uma motivação de origem religiosa, mas sim uma razão de origem cultural. O dia 13 de Junho, feriado em Lisboa, uma festa popular dedicada a Santo António, enche as ruas dos bairros históricos da cidade de gente que come sardinhas e dança nas ruas numa imensa alegria. Come e bebe, note-se. Há música (popular) até às tantas. E ele até tem aqui a fama de santo casamenteiro, aspecto que, por exemplo, não encontrei sequer referido no livro, mas cuja razão/origem gostava de conhecer... Adoro a véspera desse dia, apesar de toda a confusão (que quando excessiva, como tem sido nos últimos anos, lhe retira muito da magia). Lisboa pára para essa festa, Lisboa sai à rua e dança e pula... E isso é muito bonito de se ver. 

Regressando uma vez mais ao livro, gostei do que li. Demorei a ler porque tenho andado mais cansada do que o costume e, talvez, porque esteja a precisar de leituras que me entusiasmem mais. Isto não é uma crítica desfavorável a este livro. Há livros cuja leitura se faz melhor numa altura do que noutra, sendo que tal não lhes tira o valor. Muito provavelmente estou a precisar, neste momento, de algo diferente. No entanto, isto foi só um à parte! 

De assinalar de forma muito positiva é o facto do livro dispôr de mapas, antes dos capítulos, o que facilita a leitura, ainda para mais, tratando-se de um livro de viagens a lugares onde muitos de nós ainda nem sequer estiveram. E têm dois conjuntos de páginas cheias de fotografias dos locais por onde o autor passou, seguindo os passos de Santo António, bem como uma cronologia que coloca, lado a lado, em comparação a evolução da história da vida de Santo António com a história da Europa. O livro é interessante, especialmente para os curiosos/admiradores deste Santo de Lisboa (e não de Pádua, como se diz, por ele aí ter morrido). 

https://www.goodreads.com/review/show/2089702410

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sissi, a atormentada vida da Imperatriz Isabel, de Catalina de Habsburgo-Lorena


"Sissi, a atormentada vida da Imperatriz Isabel" de Catalina de Habsburgo
Esfera dos Livros, 2010
302 Páginas

Comecei a ler este livro em 2010/2011, mas a minha vida entrou num turbilhão e eu fui obrigada a arrumá-lo na estante sem o terminar... 
Agora, decidi pegar nele a sério e lê-lo do inicio ao fim. E posso dizer que gostei. Ainda que me tenha sentido muitas vezes perdida. Muitas mesmo. 

Tive com frequência dificuldade em compreender quando é Sissi, a Imperatriz Isabel, que escreve, sendo que não percebi e continuo a não perceber bem o porquê da autora ir buscar as vidas de outros elementos da sua familia. Ou, por outra, a autora podia fazê-lo, desde que articulasse isso com a perspectiva de Sissi e eu quase não senti isso. Dá quase para pensar, sem querer ferir susceptibilidades, que se pretende fazer uma sopa, atirando os legumes todos lá para dentro, sem serem lavados, cortados, ... E isso não funciona. 

Assim sendo, acho que a história de Sissi se perde muito nisso. Às vezes, senti que me tinham apagado as luzes e andava às apalpadelas num túnel escuro, sem perceber bem no que estava a tentar a agarrar ou com o quê me tinha cruzado. Isso quebra o ritmo da leitura, desinteressando, com frequência o leitor. É preciso disciplina para persistir numa leitura que nos impede de sentir um definido fio condutor...!

Gostei, mas está longe de ser um livro que adorei ou que gostei muito. É um livro confuso. E se eu fosse uma leitora de ocasião, acho que tinha deixado o livro a meio e dito: não sou lá grande fã de romances históricos e, muito menos, gosto de ler... Não sinto nada. [E eu não sou assim, repito!!]

Por último, gostava de acrescentar que, ainda que meio fora de contexto, achei o capítulo sobre o rei Luís da Baviera, que mandou construir o Castelo de Neuschwanstein e era amigo de Richard Wagner, extremamente interessante.

*
https://www.goodreads.com/review/show/2073805637

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os Filhos da Droga, de Christiane F.

"Os Filhos da Droga" de Christiane F. 
Bizâncio, 2016
299 Páginas

Quis muito ler este livro enquanto adolescente (na altura, o livro tinha uma capa preta e vermelha e não tinha a imagem de uma jovem), mas não consegui. Durante muito tempo encontrei-o esgotado e pensei: não tem de ser. Não tinha, não. Naquela altura não tinha de ser e li-o agora, porventura, num momento mais oportuno... Quando estava a terminar o livro, vi na televisão, no programa Alta Definição, o testemunho do cantor Nuno Norte e constatei que muito do que estava a ler se encaixava na experiência que ele relatou. Arrepiante! Arrepiante! 

A droga aqui referida é não só a heroina e o haxixe, só para dar alguns exemplos, como também o medicamento Valium e outros do género. Nuns momentos pretende-se excitação, noutros tranquilidade. E esses estados são conseguidos recorrendo à droga, da qual se ganha dependência porque o prazer inicial se esvai e dá origem à necessidade destas substâncias para superar a crise de abstinência, bem como a dor e o sofrimento por esta gerados. 

Infelizmente, este foi o padrão dos anos setenta. Muitos foram os jovens que se perderam por causa da droga, pois a sociedade não estava preparada para lidar com esta situação. A droga leva(va) à prostituição e ao roubo, à venda de bens da familia e próprios sem qualquer controlo... Porque se precisa(va) de dinheiro. (E escrevo no presente e no imperfeito porque o drama que é a droga não desapareceu... Vai-se reinventando. Vai-se recriando. Muita gente ainda vai perecer por causa dela...)

E a história de Christiane F., uma jovem alemã nascida nos anos sessenta, constitui-se como um testemunho verídico fundamental para compreender este "outro mundo", sendo que a obra dispõe igualmente do contributo da sua mãe, assim como de alguns especialistas nesta área. O livro continua actual e a sua leitura é, sem dúvida, muito enriquecedora. 


https://www.goodreads.com/review/show/2051173788

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Homem em Busca de um Sentido, de Viktor E. Frankl



"O Homem em Busca de um Sentido" de Viktor E. Frankl
Lua de Papel, 2017
159 Páginas 

Este livro serve para fazermos uma auto-análise psicológica e, por essa mesma razão, não se trata de uma leitura simples ou fácil. Pelo menos, para mim. 

Por outro lado, pode também não ser uma leitura fácil porque uma boa parte do livro trata da experiência do próprio autor, Viktor E. Frankl, um médico psiquiatra, no campo de concentração de Auschwitz, onde este viria a perder a mulher - que estava grávida e ele não sabia - e os pais. 

Escrever sobre Auschwitz também não é fácil, embora eu acredite que seja uma forma de "exorcizar" uma parte do sofrimento sentido, de "lavrar" a memória. Desenganem-se, todavia, se estiverem a achar que este é mais um livro sobre Auschwitz... Não é. E todos os livros que já li sobre este campo de concentração são diferentes. As pessoas também são todas diferentes e, por inevitabilidade, as experiências também o são.

Frankl foi o fundador da Logoterapia, uma psicoterapia que consiste na procura de sentido para a vida. E foi esse sentido encontrado por muitos dos prisioneiros deste campos, mas também fora destes campos, que garantiu a sobrevivência de muitos. 

Feliz ou infelizmente, em algumas fases da minha vida já adoptei (e adopto) "esta visão", sem saber e desconhecendo a existência da Logoterapia. E é muito eficaz. É muito eficaz para todos os tipos de prisioneiros (e não me refiro necessariamente a alguém que esteja preso numa cela a cumprir uma pena por ter cometido um crime), mas sobretudo para aqueles que se encontram cativos do sofrimento, do isolamento e da solidão como resultado da passagem por algumas fases da vida (umas vezes evitáveis, outras nem por isso; umas necessárias, outras nem por isso; e todas elas inaceitáveis, dificeis de engolir, em algum momento, para nós)...!

https://www.goodreads.com/review/show/2041185253


sexta-feira, 30 de junho de 2017

A Morte em Veneza, de Thomas Mann


"A Morte em Veneza" de Thomas Mann
Relógio D'Água, 2004
114 Páginas




Terceiro livro que leio de Thomas Mann, o segundo de ficção. Que dizer?
Acho que posso colocá-lo na lista dos meus escritores preferidos e não é por ter sido Nobel em 1929. É mesmo porque admiro a sua escrita. Não é um escritor fácil de compreender nem de leituras rápidas e superficiais. É profundo, superior, pensado, estruturado. E eu gosto disso.

Aqui é o fascinio pela beleza que dá o tema à história, ou seu centro se preferirem. Aschenbach, o escritor, está deslumbrado pela beleza do adolescente Tadzio, sendo que esse deslumbramento é tal que se reflecte na própria escrita de Thomas Mann. Forte, arrebatadora, de cortar a respiração (no bom sentido, no muito bom sentido, entenda-se). É dificil não se ficar apaixonado pela paixão de Aschenbach por Tadzio...! E eu só os conheço pelas palavras de Mann. 

"A Morte em Veneza" não é a história de um crime (como eu, erradamente, pensava; apesar do título poder sugeri-lo), mas sim um livro cuja escrita nos transporta muito para o plano espiritual e superior. Num certo sentido é filosófico. Aliás, nesta sua novela, Thomas Mann oferece-nos muito de Platão, sobretudo na sua relação com a beleza e com as emoções. E eu adoro Platão! É preciso dizer mais alguma coisa?! 

Posto isto, estou a pensar seriamente se não começo a ler "A Montanha Mágica" muito em breve... Será loucura?! Não sei, o que sei é que Thomas Mann está a "infiltrar-se em mim", definitivamente.

https://www.goodreads.com/review/show/2035729708

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Descascando a Cebola, de Günter Grass


"Descascando a cebola" de Günter Grass
Casadas Letras, 2007
378 Páginas


Não dou cinco estrelas, mas são quatro estrelas e qualquer coisa. E não dou* apesar de considerar que, de todos os livros lidos de Günter Grass até à data (contei seis com este incluido), este é, sem sombra para dúvidas, o melhor. É declaradamente auto-biográfico. 

Neste livro Grass confessa-se. Confessa aquilo que muitos alemães, que viveram a Guerra, procuraram ocultar dos outros e de si próprios no pós Segunda Guerra Mundial por vergonha: pertenceu às SS. O seu papel não foi relevante nas SS, mas ainda assim integrou-as e isso foi o bastante para se sentir culpado, envergonhado com isso, sentimentos que o acompanharam toda a vida. Até ao último dia. 

Neste "Descascando a Cebola" ficamos também a compreender a relação existente entre as obras de Grass e a sua vida. Cada uma delas quase que tem, ou tem mesmo, algo de auto-biográfico. É uma leitura interessante, sobretudo para aqueles que pretendam conhecer um pouco da "psique" alemã mais recente. 

* - Porque tive momentos em que achei que o autor se esgotou em alguns temas, como a imperiosa necessidade de satisfação de desejo sexual do autor, uma vez terminada a Guerra. O tema podia ser abordado, sim -somos humanos de carne e osso - , mas creio que o foi de forma excessiva e isso tornou-se, para mim, aborrecido... E essa foi uma das críticas feitas aquando da publicação na Alemanha e é, no meu entender, justificada. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

A Passo de Caranguejo, de Günter Grass


"A Passo de Caranguejo" de Günter Grass
Casa das Letras, 2003
221 Páginas

Já li alguns livros de Günter Grass (talvez quase, senão mesmo, metade daqueles que publicou) e confesso que nunca fui muito sua fã. Parece-me que tem muito ódio, raiva e outros sentimentos mal resolvidos. E sempre fiquei com a sensação de que a sua relação com a Alemanha está envolta em grande ressentimento. Mas que a Alemanha? Pois, a actual. 

Então e que problema tem isso? O problema é que Grass tem um passado nas SS, ou seja, participou na Alemanha de Hitler, essa Alemanha do passado, de que ainda há culpa e medo. Daí que eu sinta uma certa contrariedade em Günter Grass. Aliás, isso encontra-se igualmente presente em "A Passo de Caranguejo", obra que ultrapassou as minhas expectativas de forma positiva.

A história concentra-se no afundamento do navio, "Wilhelm Gustloff", por um submarino russo em 1945, ainda na Segunda Guerra Mundial, e na vida de Paul (um jornalista e o narrador da história que nasce no mesmo dia em que Adolf Hitler subiu ao poder, em 1933, sentindo-se muito mal com isso), cuja mãe viajava neste navio e que, segundo percebi, nasceu aquando deste naufrágio, que terá levado à morte cerca de 10.000 passageiros. Melhor dizendo: concentra-se em Paul, na sua mãe e no filho de Paul. 
A obra leva-nos a pensar também na questão judaica, na culpa por inevitabilidade, na situação da Polónia "ensanduichada" entre a Alemanha e a Rússia, entre o Nacional-Socialismo e o Comunismo, ... 

É uma leitura interessante. Deixa-nos a pensar no passado recente da História europeia. E ajudou-me, de algum modo, a reconciliar-me, por um lado, com Günter Grass (estou a ler a sua auto-biografia, "Descascando a cebola" e ainda estou a gostar mais) e a sua obra e, pelo outro, com o próprio acto de ler como um acto de gostar, que com o cansaço, saturação e alguma desmotivação, me visitou umas quantas vezes no passado mês de Maio...! Por isso, valeu a pena a sua espera prolongada, desde 2013, na minha estante. Chegou a altura certa. Chegou a altura dele (para mim).

https://www.goodreads.com/review/show/2009782977

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Livro do Hygge. O Segredo Dinamarquês para Ser Feliz, de Meik Wiking

"O Livro do Hygge. O Segredo Dinamarquês para Ser Feliz" de Meik Wiking 
Edições Zero a Oito, 2017
285 Páginas

Dos países estrangeiros que já tive oportunidade de visitar, a Dinamarca é um daqueles com que mais me identifico no que respeita à sua cultura e ao modo como encaram a vida. Foi uma espécie de amor à primeira vista quando visitei Copenhaga. Chorei (e eu não sou lá muito chorona) no último dia e pensei: tenho de cá voltar. E voltarei. Não sei quando, mas voltarei. Para ver o que não vi, o que ficou por ver. 

Daí que quando há alguns meses atrás começaram a ser publicados vários livros sobre o "Hygge" em Portugal, correspondendo este ao "segredo dinamarquês para ser feliz", fiquei curiosa e depois de ler um comentário feito ao presente livro decidi-me por este. 

Porquê? Não é um livro teórico, nem demasiado abstracto sobre esta "filosofia de vida". Está cheio de imagens do "Hyyge", bem como receitas e muitas, muitas ideias para o colocar em prática no dia-a-dia. Porque o "Hygge" consiste em tirar partido das pequenas coisas do e no dia-a-dia, e não ocasionalmente (nas férias ou nas alturas festivas, por exemplo); é algo de sempre e que se supõe ser mantido sempre. E, segundo o autor, Meik Wiking, é isso que explica o facto da Dinamarca ser um dos países mais felizes do mundo. Isso e um Estado-providência digno desse nome, como Wiking, que é Presidente do Happiness Research Institute, reconhece. Porque quer se queira, quer não, a instabilidade financeira compromete em muito a felicidade. Sem estabilidade e sem forma de sobreviver/subsistir não é fácil ser-se "hygge" também e, por inevitabilidade, começam a surgir as doenças físicas... Mentais... Mentais e físicas!

No essencial, este livro parece-me um bom ponto de partida não só para se ser mais feliz, como também para compreender melhor a cultura dinamarquesa. E pronto, admito, fiquei de "alma lavada"!

*
https://www.goodreads.com/review/show/2005146732

terça-feira, 23 de maio de 2017

Equador, de Miguel Sousa Tavares

"Equador" de Miguel Sousa Tavares
Clube do Autor, 2016
510 Páginas



Gosto de Miguel Sousa Tavares, o escritor. Gosto mesmo. E gosto ainda mais quando escreve livros de crónicas (o que não é o caso)...!

Li um quase romance,"No teu Deserto", e este "Equador", romance, ficar-me-á na memória sobretudo e acima de tudo pelas características da sua personagem principal, Luís Bernardo. 

Identifiquei-me com o seu sentido de justiça (aqui relativamente à questão da escravatura), sendo que em algumas circunstâncias identifiquei-me também  muito com o tipo de sentimentos e emoções experimentados por ele durante a sua vivência em São Tomé e Principe, embora nunca lá tenha estado e tenha muita curiosidade em conhecer este país. É verdade que a paisagem nos desperta para determinados estados de espírito, mas é igualmente verdade que estes só se manifestam de determinada forma porque já cá estão connosco (têm em nós a sua semente)...! 

Talvez tenha sido isso mesmo o explica a trajectória de vida desta personagem e o seu desfecho. Essa fuga desenfreada da paixão cega e louca porque, na verdade, estamos apenas diante de um boémio, mulherengo, que escapa de algo que sabe poder fazê-lo perder o tino e o norte.

E concordo com Eduardo Lourenço e com o comentário crítico que faz em relação à obra e que acompanha a mesma... "Equador" tem qualquer coisa de queirosiano. Sendo obras e escritores de épocas diferentes, lembrei-me muito de "Os Maias"no decorrer da leitura de "O Equador". E não foi só por causa da forma como o adultério se proporciona... É a descrição da própria sociedade, todo o cinismo e intriga social, muito bem retratados na minha perspectiva.

https://www.goodreads.com/review/show/1994203415

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pinturas da Natureza. Uma Antologia, de Alexander von Humboldt

"Pinturas da Natureza. Uma Antologia" de Alexander von Humboldt
Assírio & Alvim, 2007
206 Páginas


Quanto mais leio sobre e de Alexander von Humboldt mais fã me torno...

Humboldt foi um homem muito à frente do seu tempo. Um cientista cujas teorias elaborou depois de muito conhecimento prático. Viajou pela Europa, foi no continente americano que fez a viagem da sua vida (usando a herança deixada pela morte da mãe) e esteve também na imensa Rússia. Era no contacto directo com a natureza que sentia feliz e realizado!

Pode dizer-se que foi um dos fundadores da moderna Geografia, falou das mudanças climáticas quando ninguém pensava sequer nisso (viveu entre o século XVIII-XIX) porque depressa percebeu o poder transformador, e em alguns casos destruidor, que o homem poderia ter em contacto com a natureza. 

Embora sendo prussiano, adorava Paris, onde, sempre que possível procurou viver. Sempre quis conhecer a Índia, mas não conseguiu: nem financiamento, nem autorização. Vivia, por causa desta sua paixão, sempre no limite das suas finanças e o pouco que tinha usava-o para financiar outros jovens cientistas. 

E poderia continuar... Não o vou fazer, porém. A ideia é dar-vos a conhecer o suficiente para perceberem o porquê de eu me dizer "fã" ou fascinada pela vida e obra deste senhor. Vamos agora ao livro "Pinturas da Natureza", uma antologia, reunindo excertos de várias das suas obras, entre as quais aquela que é considerada a sua principal obra, "Kosmos". 

O livro é constituido por quatro partes: uma primeira designada de "Perspectivas da Natureza", uma segunda de "Viagem às regiões equinociais do novo continente nos anos de 1799, 1800, 1801, 1802, 1803 e 1804", uma terceira onde podemos encontrar os "Diários de Viagem" e uma quarta e última "Cosmos. Esboço de uma Descrição Física do Universo". 

Vale a pena lê-lo. Dá para ficar com uma visão abrangente da sua obra, ao mesmo tempo que nos permite conhecê-la de perto, o que é um achado, sobretudo porque não tenho conhecimento da existência de outras traduções de alemão para português do seu trabalho.  Em alguns casos, sentimo-nos em lugares longínquos a "experimentar a vida junto da natureza" com Humboldt. É muito interessante, acreditem...!

https://www.goodreads.com/review/show/1912491298

As Mais Belas Histórias, de Hermann Hesse



"As mais belas histórias" de Hermann Hesse
Casa das Letras, 2003
289 Páginas



Gosto de ler Hermann Hesse. É um dos meus escritores alemães preferidos e acredito que Hess tenha escrito um bom livro, mas a verdade é que, apesar de bem escrito, "As mais belas histórias" não me transmitiram grande coisa, não me fizeram vibrar, não me agarraram quase nunca, com excepção de um conto, "O Mendigo". 

Vi-me grega para chegar ao fim (que parecia nunca mais chegar) e tive pressa de o terminar. Senti-me, muitas vezes, alienada do que estava a ler, superficial, desconcertada. E estas não são sensações que costume ter com Hesse. Não sei o que se passou. Terá resultado do meu exagerado e já incontrolável cansaço? Do stress em que tenho andado nos últimos dias? Não sei. 

Sei, todavia, que nunca fui, desde que entrei na adolescência e agora em adulta, grande adepta de livros de contos. Sabem-me sempre a pouco. Acho-os pouco intensos, demasiado rápidos e pouco imprevistos. Será mania minha? Talvez. Espero um dia perceber...!


https://www.goodreads.com/review/show/1994203846

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Miniaturista, de Jessie Burton



"O Miniaturista" de Jessie Burton
Editorial Presença, 2015
404 Páginas

A história de "O Miniaturista" passa-se na cidade de Amesterdão do século XVII e concentra-se essencialmente na familia de um abastado mercador que decide oferecer à esposa (recém-casada) uma casa em miniatura, réplica daquela em que vivem. As miniaturas que vão chegando, sobretudo das figuras directa ou indirectamente relacionadas com a casa daquela familia são prenúncios do que virá a acontecer futuramente... Mas ninguém perceberá isso até os acontecimentos começarem a ocorrer sucessivamente e a coincidir com o aspecto discreto das figuras. 

No entanto, o centro da história parece encontrar-se numa característica, na altura muito escondida por quem a possuia (refiro-me à homossexualidade), da vida do mercador e é a descoberta dessa mesma característica que alterará substancialmente o rumo da história, tornando-a, a meu ver, muito mais interessante, como se uma tempestade irrompe-se naquela casa e naquela familia. 

"O Miniaturista" tem uma história bonita que demora, todavia, a cativar (foi esta a minha experiência), algumas passagens, dirigidas principalmente às mulheres,  curiosas e cheias de força e permite-nos ficar com uma melhor ideia do que era a Holanda do século XVII, sobretudo no que dizia respeito ao papel do comércio, da mulher (que apesar de tudo até me parece poder ser "mais livre" do que era comum nesta altura) e da própria homossexualidade. E deixa-nos a pensar... Gostei.

https://www.goodreads.com/review/show/1982149917

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Empurrado para o Pecado, de Monica James


"Empurrado para o Pecado" de Monica James
Planeta, 2017
389 Páginas

Comparativamente ao primeiro volume "Viciado no Pecado", este livro é menos psicológico, o que me deixou alguma pena porque essa característica agradou-me bastante no outro livro. A história torna-se, em contraste, mais romântica, sem ser melosa e pirosa, sem roçar sequer o estilo da escrita de Nicholas Sparks (desculpem-me os fãs de Nicholas Sparks, mas não é de todo o meu género), por exemplo. 

Encontrei alguns traços em comum com outras obras deste género e isso aborreceu-me um pouco. Por que é que o casal destas histórias tem sempre de ir parar a Itália num clima de tórrido romance e o homem tem de levar o portátil para consultar o estado do seu trabalho? 

À parte disso, gostei do livro e fiquei, com alguma curiosidade, de ler outros livros desta autora. Parece-me que esta história termina aqui (e não será uma trilogia), embora não haja qualquer sinal que confirme ou desminta isto. Se a história fica por aqui, devo dizer que fica muito bem...! 


https://www.goodreads.com/review/show/1982150664

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Mademoiselle Chanel, de C.W. Gortner

"Mademoiselle Chanel" de C.W. Gortner
Topseller, 2016 
478 Páginas


Fãs de Chanel-mulher, fãs de Chanel-marca, fãs de moda, curiosos apenas:

Aqui está um livro, ainda que romanceado, sobre a vida e obra de Gabrielle Chanel que vale mesmo a pena ler. O autor, C.W.Gortner, é um fascinado assumido de Chanel e isso nota-se perfeitamente na qualidade do romance que nos apresenta, indo para além da vida da original e irreverente Gabrielle e apresentando-nos, nos momentos certos, as inovações trazidas para o mundo da moda: roupa elegante e confortável, o preto como soma de todas as cores, o perfume Chanel n.º 5, entre outros, só para dar alguns exemplos.  

Esta é, de facto, uma leitura que nos enriquece. Aprende-se muito sobre Chanel, a mulher e a obra porque, na verdade, são apenas uma só. Chegamos ao fim e ficamos com Chanel entranhada em nós. Independente, corajosa, criativa. Audaz, forte, inovadora. Uma mulher à frente do seu tempo. 

Finalmente, cumpre-me acrescentar que é o segundo romance que leio sobre Gabrielle Chanel (o primeiro foi "Coco" de Cristina Sánchez-Andrade) e, apesar de ter adorado o outro, acho que este consegue ser muito mais completo...! 

https://www.goodreads.com/review/show/1973253517

Snu, de Jytte Bonnier


"Snu" de Jytte Bonnier
Quetzal Editores, 2003
107 Páginas



A autora é a mãe de Snu Abecassis, que morreu juntamente com Sá Carneiro no acidente em Camarate,  tendo decidido escrever este livro uns anos depois da morte da filha, como forma de a ajudar a viver mais do que o tempo que viveu e, em certa medida, ajudá-la a suportar a dor resultante da filha ter partido cedo demais.

"Snu" parece estar esgotado há muito e não voltaram a fazer uma nova edição. Consta que as Publicações Dom Quixote, fundadas por Snu, se recusaram a publicar este livro, prefaciado pelo actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e, portanto, esta é uma edição da Quetzal de capa dura e lombada estreita. 

Existindo muita coisa por descobrir (ou talvez por revelar) em torno de Camarate, tendo eu ficado fascinada com a biografia de Snu, escrita por Cândida Pinto, e ainda percebendo a dificuldade em encontrar este livro, esgotado, quis lê-lo e tentar compreender mais (estou longe de estar satisfeita; ainda não encontrei o que procuro)... Vicio de quem investiga!

A escrita é simples, reflectindo o modo como a mãe, Jytte, via a filha, Snu. Sobressai nela muito do amor que a mãe tem pela filha, muita da saudade e alguma dor magoada, seca, sem levar, todavia, às lágrimas (penso que também não seria esse o objectivo da autora). É uma visão diferente da de Cândida Pinto que vê o filme da vida de Snu de fora, ainda que bebendo informação da conversa com vários familiares e amigos desta. A mãe de Snu vive no estrangeiro, fala da filha e da vida dela como ela a percebeu, como ela, por si só, a conheceu e soube. 

Gostei do livro (lê-se depressa), mas se me perguntarem se preferia ler este ou o outro de Cândida Pinto para ficar a conhecer a extraordinária mulher que foi Snu, digo, sem sombra para dúvidas, que o outro "Snu e a vida privada com Sá Carneiro" é muito mais completo, mais profundo (porque cruza informações provenientes de várias entrevistas com várias pessoas que a conheciam), mais diverso (fala da vida de Snu, da de Sá Carneiro, dos primeiros passos da Dom Quixote como editora, do primeiro marido de Snu, Vasco Abecassis,...) e mais vivo. Não se sente saudade. Sente-se vazio. Sente-se o fim da vida daquela pessoa. Não se sente dor. Sente-se incompreensão, compaixão e, ao mesmo tempo, vários outros sentimentos e emoções porque o livro foi escrito por alguém de fora, sem paixão. Este tem paixão, muita, tem dor e é, por ter sido escrito por alguém de dentro (quem lhe deu a vida), muito próprio, algo cinzento, típico de quem está a sofrer e não consegue gerir o desaparecimento, o fim trágico da filha ...


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terça-feira, 25 de abril de 2017

Lobo do Mar, de Garrett Mc Namara

"Lobo do Mar" de Garrett McNamara (com Karen Karbo)
Marcador, 2017
319 Páginas


Garrett Mc Namara não é só quem surfou aquela onda gigante na Nazaré, é também e acima de tudo o vivo exemplo de que nunca é tarde para se recomeçar, para se mudar de vida e fazer diferente, fazer melhor. 

Ao longo de "Lobo do Mar", Mc Namara dá-nos a conhecer a sua história de vida meio atribulada, levada muitas vezes ao limite por uma certa inconsciência, despreocupação e ausência de regras. A dada altura, decide mudar completamente de rumo, vendo no surf uma forma de vida e concretização. E é assim que, em busca de uma grande onda, chega a Nazaré em 2011 e surfa uma onda de quase 24 metros, entrando para o Guiness e tornando a vila mundialmente conhecida. 

A partir daí a sua vida mudou. A da Nazaré também por causa das ondas gigantes que ali se formam a dada altura do ano, atraindo inúmeros surfistas de todo o mundo e contribuindo, por sua vez, para o crescente desenvolvimento da economia local. 

Uma das partes que mais gostei neste livro foi aquela que Mc Namara dedicou a falar da sua chegada à Nazaré e do modo como a sua relação com a região se desenvolveu. É muito bonito ler alguém que não é português, mas que tem Portugal no coração, falar tão bem do nosso país e reconhecer-lhe um valor que habitualmente os nacionais não sentem... Vale a pena!

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Rainha Santa, de Isabel Machado


"A Rainha Santa" de Isabel Machado
A Esfera dos Livros, 2016
411 Páginas



"A Rainha Santa" é mais um daqueles livros que, a dada altura, tive pressa de acabar, e quando acabei senti-me como que "desamparada", "vazia", "abandonada" pela personagem e/ou personagens. Neste caso, fiquei "refém" de Isabel de Aragão, casada com o rei D. Dinis, o Lavrador. 

Fascinou-me o modo como a autora demonstra uma rainha de coração puro e objectivos maiores, sem olhar às reprimendas do rei e ao facto de estar a gastar "dos seus rendimentos" para ajudar os mais desfavorecidos. Fascinou-me também o facto de ser tão culta e interessada na política de Portugal (e Aragão, mas também Castela), procurando acima de tudo preservar e incentivar à preservação da paz. E, claro, como não poderia deixar de ser, fascinou-me a sua superioridade e grandeza no modo como lidou (e acolheu) com a existência de filhos bastardos do rei. 

O romance histórico é um dos meus estilos literários preferidos (senão for mesmo aquele de que gosto mais) e, neste segundo livro que leio da autora, não fiquei em nada desiludida. Conquistou-me uma vez mais com a forma como deu voz a esta mulher e como contou a sua bonita histórica. A rainha Isabel está-me no imaginário desde que na primária ouvi falar da famosa lenda das rosas (não sei se terá outro nome), a propósito de uma ocasião em que a rainha ia levar pão aos pobres e o rei a questionou sobre o que aí levava e ela respondeu que eram rosas, sendo que quando lhe mostrou eram rosas; o pão tinha-se transformado, por milagre, em rosas. Foi muito bom recuperar essa lenda e aprofundar a história e vida desta rainha!

https://www.goodreads.com/review/show/1967871444

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Em Viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez



"Em Viagem pela Europa de Leste" de Gabriel García Márquez 
Publicações Dom Quixote, 2017
190 Páginas



Na obra "Em Viagem pela Europa de Leste" sente-se Gabriel García Márquez tanto como jornalista, informando acerca dos acontecimentos, como também como escritor, contando histórias em que participou juntamente com os seus companheiros de aventura e manifestando-se acerca do seu estado de espírito no decorrer da viagem. Ainda assim, estou inclinada para o facto do autor ter pendido mais para o papel de jornalista...

De facto, este livro resulta da compilação dos vários fascículos da viagem que o autor fez, nos anos cinquenta, aos países comunistas do Leste Europeu: Alemanha Oriental, (na então) Checoslováquia, Polónia, Hungria e URSS. 

Os textos apresentados na ordem em que são apresentados não seguem um trajecto linear em termos espaciais (a segui-lo deviam começar na Alemanha Oriental, seguir depois para a Polónia ou a Checoslováquia, posteriormente para a Hungria e terminando na URSS; ou começando na URSS e seguindo pela ordem inversa até à Alemanha Oriental) e confesso que isso me causou alguma irritação (culpa minha que não reli a contra-capa quando antes de começar a ler o livro), sobretudo porque, por um lado, "trabalho muito" com o espaço em termos de Lage [posição] e de Raum [espaço-recursos] destes países e, pelo outro, porque queria sentir alguma "ordem" no relato da viagem, mas a única ordem que encontrei foi mesmo o facto de serem países comunistas. 

Um dos meus textos preferidos, e sou suspeita nisso, foi o relativo à Alemanha Oriental. 

https://www.goodreads.com/review/show/1964608004

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Snu e a vida privada com Sá Carneiro, de Cândida Pinto


"Snu e a vida privada com Sá Carneiro" de Cândida Pinto
Publicações Dom Quixote, 2011
318 Páginas


Cândida Pinto apresenta-nos na presente obra uma interessante biografia de Snu, a mulher que vivia maritalmente com Sá Carneiro, então Primeiro-Ministro português, aquando do acidente de Camarate ocorrido em Dezembro de 1980, no qual também perdeu a vida. 

Dinamarquesa de nascimento, mas cosmopolita no decorrer da sua vida, Snu traz para Portugal do Estado Novo (e, mais tarde, Portugal recentemente democrático) uma lufada de ar fresco. É responsável pela criação da Editora Publicações Dom Quixote, ainda hoje existente, mas também por agitar a moral e os costumes vigentes por manter uma união de facto (hoje tão comum) com Sá Carneiro, seu segundo companheiro. 

Snu era uma mulher fascinante e fascinada fiquei eu também ao ficar a conhecer um pouco melhor o que foi a sua vida antes e para além de Sá Carneiro, que ela tanto amou depois de terminar o seu casamento com Vasco Abecassis (de quem teve três filhos, um dos quais Rebecca, jornalista na Sic), bem como  era a política portuguesa e toda a intriga relacionada com esta no período em que viveu. 
Gostei muito.


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A Rapariga Dinamarquesa, de David Ebershoff

"A Rapariga Dinamarquesa" de David Ebershoff
Porto Editora, 2010
322 Páginas


Inspirando-se na história verídica do pintor dinamarquês Einar Wegener (1882-1931), que mais tarde se torna Lili Elbe, "A Rapariga Dinamarquesa" (de que há um filme - ver trailer aqui: https://www.youtube.com/watch?v=xf5tOTNqM0s ) trata-se, antes de mais de uma bonita história de amor de alguém (a também pintora Gerda Gottlieb, aqui Greta) que abdica e incentiva o homem que ama e com quem é casada a realizar e a alcançar a liberdade enquanto ser humano num corpo de mulher. 

Na verdade, esta é uma situação delicada para ambos, sobretudo se tivermos em atenção que se passa entre os finais do século XIX e os inícios do século XX, numa altura em que a sociedade e a própria ciência ainda não estão nem abertas nem preparadas para lidar com isto. 

Por outro lado, e do ponto de vista interior, parece-me complicado enquanto mulher amar um homem que não parte, não morre, e só a "deixa" porque quer ser e se sente mulher e a natureza não "ajudou" (Wegener era intersexual, o que, conforme consta no dicionário corresponde a uma pessoa que tem caracteres sexuais femininos e masculinos) e ainda assim mantém um enorme carinho por ela (sem nunca a tratar mal, antes pelo contrário). 

Para ele, parece-me igualmente delicado nascer com um corpo de homem sentindo-se mulher e custa-me pensar não só nisso, como também em todo o sofrimento pelo qual terá de passar para que possa fazer a "transformação física" e, mais tarde, burocrática. Até porque as cirurgias parecem ter, tanto quanto sei, implicações/consequências em quem tem de se submeter a elas e acredito, embora sem conhecimento de causa, que esta deverá ser uma situação particularmente dolorosa; é preciso muita coragem e vontade...!

Regressando ao livro propriamente dito, gostei sobretudo de o ler pela sensibilidade com que o autor, David Ebershoff, aborda a vida de Wegener, articulando-a com alguma ficção, e toda a problemática acima indescrita. É impossível ficar indiferente...!

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sexta-feira, 31 de março de 2017

Os Buddenbrook, de Thomas Mann

"Os Buddenbrook" de Thomas Mann
Publicações Dom Quixote, 2011 
638 Páginas


Esta foi a minha segunda experiência com Thomas Mann, mas a primeira sob o ponto de vista ficcional. A história conquistou-me aos poucos, devagar, de forma incisiva. A partir das quatrocentas e tal páginas ansiei por chegar ao fim, sobretudo porque começava de algum modo a antever a queda/decadência da familia a aproximar-se. A verdade, porém, é que quando cheguei ao fim, senti-me como que órfã e desamparada... Os Buddenbrook já faziam (e fazem) parte de mim. E devo dizer que gostei muito. 

Não se lê rapidamente, lê-se demorada e pensadamente, sendo que reflectiremos sobre a obra durante e após a sua leitura. Uma das razões para isto acontecer relaciona-se como facto dos temas abordados, ainda que relativos ao século XIX, se manterem actuais. 

Refiro-me à questão da disputa de uma herança entre irmãos feita de forma mesquinha e destruidora, o desbaratamento ao fim de duas/três gerações de um negócio de familia importante e de peso, com impacto na vida política de então. Digno de nota é igualmente o papel da mulher neste período que, para mim, é um dos aspectos mais interessantes na obra. A sociedade aqui retratada é patriarcal até à exaustão.

A mulher devia casar-se antes dos trinta anos (para não ficar solteirona - termo que sempre me enojou e, sim, quero mesmo dizer enojar - e a viver com os pais e, mais tarde, após a morte destes, com os irmãos, tornando-se uma presença quase indesejada) e fazê-lo com um homem que a sustente, permitindo-lhe "aumentar" a sua posição social, bem como "juntar" riquezas entre empresas-familias. Recorde-se que neste período a mulher tinha um dote, algo mais comum entre as camadas mais ricas da sociedade, o "preço" que a familia desta pagava para o/pelo noivo se casar com ela e que a colocava a mulher numa posição de vulnerabilidade e fragilidade. Ademais, a mulher era vista como "uma criança" até ao casamento e, findo o mesmo (apenas sob condições muito especificas), caía numa espécie de decadência e infortúnio... Hoje incompreensiveis para mim. Porque a mulher tem o direito e a capacidade de ser tão independente quanto o homem. O que é que o homem tem a mais que a mulher?! São seres humanos, ambos!

Por outro lado, outra das razões que justificam o interesse pela obra prendem-se com o retrato que nos é oferecido, por um alemão, sobre a Alemanha (que não é o país que hoje conhecemos; era um conjunto de vários Estados diferentes e independentes entre si) do século XIX, sobre a revolução de 1848 (conhecida como a Primavera dos povos), de Lübeck (uma cidade pertencente à Liga Hanseática. 

Do ponto de vista da escrita de Thomas Mann o estilo é soberbo. Talvez não seja o tipo de leitura indicada para quem prefere algo mais leve ou para quem não goste mesmo de ler a sério. Para quem tem na leitura uma verdadeira paixão e gosta de literatura a sério, este é um clássico digno desse mesmo nome (e não é maçudo, acreditem). As descrições dos espaços, das personagens, ... é tão bem feita que o leitor quase que se sente a observar o desenrolar da história "em directo". 

Além disso, esta foi, tanto quanto pude apurar, a obra que valeu a Thomas Mann a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1929. E quando se termina a sua leitura percebe-se bem porquê...! Gostei e muito.


https://www.goodreads.com/review/show/1940406105

terça-feira, 21 de março de 2017

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

"O Labirinto dos Espíritos" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
845 Páginas


Zafón termina em grande esta tetralogia (ou quadrilogia, se preferirem) de "O Cemitério dos Livros Esquecidos" com o livro "O Labirinto dos Espíritos", de 800 e tal páginas que se conseguem ler de forma fluída e sem aborrecimentos. O autor vai alternando o ângulo de visão com que a narrativa prossegue, focando-se nas várias personagens da história (umas mais do que as outras, naturalmente). E tem uma escrita pensada, sem pressas nem bocejos, destinada a proporcionar excelentes momentos ao leitor.

Com efeito, este volume está cheio de acção do início ao fim. E, ao contrário dos anteriores, pareceu-me, por vezes, que lia um policial. A arte da escrita e a ambição de ser reconhecido por a possuir (um talento) é apenas o ponto de partida para uma série de crimes e mortes, relacionados com algumas das personagens que conhecemos dos volumes anteriores (em particular Isabella e David Martin), verificados e resolvidos neste quarto livro. 

Várias são também as novas personagens que aqui aparecem, bem como as suas histórias de vida (vitimas da guerra, ligadas ao mundo da banca, (ex-?)alcóolicos, ...), sendo que destaco, por exemplo, Alicia Gris, que me ficará para sempre na memória pela sua garra, pela sua força e pela sua persistência perante a adversidade. A prova viva de que a nossa mente pode mover montanhas num corpo dolorido e conseguir o impossível!

Daniel Sempere fica, finalmente, a conhecer a toda história da origem da sua vida e é essa mesma história que nos é contada, mais tarde, por uma outra personagem com ele relacionada e de um jeito particularmente interessante. O mesmo sucede com a sua mãe Isabella, cujo passado ficamos a conhecer melhor de forma magistral, o que nos permite juntar todas as peças do puzzle.

Que posso dizer mais? Gostei imenso. Valeu a pena estas semanas que dediquei a esta tetralogia de Zafón. Foram muito bons momentos. Na maioria das vezes, o meu maior problema com esta colecção foi conseguir parar e ser obrigada a fazê-lo porque o dever me chamava...! 

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segunda-feira, 13 de março de 2017

O Prisioneiro do Céu, de Carlos Ruiz Zafón



"O Prisioneiro do Céu" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
377 Páginas


Daniel Sempere e o seu amigo Fermín regressam à história num livro que, por isso mesmo, mistura elementos de "A Sombra do Vento" com o "O Jogo do Anjo", sendo que no caso deste último refiro-me em particular à personagem de David Martin. Como gostei de os rever!

Quase todo o livro é um regresso ao passado, desconhecido e um tanto ao quanto escuro, de Fermín. É uma recuperação da sua história, da sua relação com as outras personagens da colecção de "O Cemitério dos Livros Esquecidos" e até curiosos aspectos da ligação/amizade de Fermín com Daniel Sempere. 

A mãe de Daniel, Isabella, volta, sem que estejamos à espera, a ser uma figura relevante na história, sendo que o seu desfecho, apesar de aparentemente fechado, se percebe ainda desconhecido e por descobrir. 

Comparativamente aos dois outros livros estamos na presença de uma narrativa mais simples e ligeiramente menos elaborada, com menos frases dignas de nota (que eu tenha notado) porque o autor simplesmente não as utiliza tanto aqui. 

Zafón está mesmo é focado na história de Fermín e não quer distrair o seu leitor. É, contudo, de notar que estes três livros podem ser livros por outra ordem, como é referido no início do presente volume. 

Sem querer ser tendenciosa, e do que sei até ao momento, sinto que a leitura deverá começar por "A Sombra do Vento" ou por "O Jogo do Anjo", sendo que "A Sombra do Vento" consegue cativar o leitor e nele entranhar-se de forma positivamente mais intensa do que "O Jogo do Anjo". 

Agora, o próximo passo é ler "O Labirinto dos Espiritos" e ver como termina esta odisseia toda. E eu já comecei a ler!

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sexta-feira, 10 de março de 2017

O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafón




"O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016 
577 Páginas

Estou enfeitiçada pela escrita, pelo estilo da escrita de Zafón...

"O Jogo do Anjo" é perturbador. Às vezes, negro, escuro, madrasto. E admito que, ao contrário de "A Sombra do Vento", os dois últimos capítulos de "O Jogo do Anjo" conseguiram levar-me às lágrimas. Isso não aconteceu nenhuma vez com o primeiro livro. 

De facto, este segundo livro conseguiu deixar-me mais vulnerável, talvez até pelo tema. Aqui a história centra-se num escritor (David Martin) que quase enlouquece, que se torna vítima do seu talento para a escrita e da sua dedicação cega à mesma, que se vende e, num certo sentido, abdica da sua vida para escrever, como escritor fantasma, um livro com determinados contornos. 

De alguma forma, revi-me em David Martin. Porque também eu tenho abdicado de muitas coisas para me concentrar na escrita (da minha Tese de Doutoramento) e questiono-me, com alguma frequência, acerca do alcance e do sentido presente e futuro dessa opção na minha vida. E atenção que eu adoro o que estou fazer, mas, por vezes, também sinto o cansaço, os vários cansaços a pesar-me... Por outro lado, quando olho igualmente para a minha Tese, e apesar do carácter de objectividade que um trabalho desta natureza implica, sei que uma boa parte de mim está ali guardada, está ali presente. Daí o facto deste livro me ter causado uma sensação ligeiramente diferente do primeiro!

À parte disso, continuei a gostar de Zafón. Muito! Nesta história recuamos no tempo em que Daniel Sampere ainda não era nascido e conhecemos a sua mãe Isabella e o seu avó, para além de pelo menos outra personagem que, tanto quanto já percebi, voltará a aparecer... Refiro-me a David Martin. Zafón adopta igualmente um estilo neste livro que me faz lembrar Joanne Harris, uma das minhas escritoras favoritas. 

Entretanto, já comecei o livro seguinte desta colecção: "O Prisioneiro do Céu". Veremos o que aí vem, mas Daniel Sampere e o seu amigo Fermin estão de volta, o que só pode ser um óptimo sinal...!

https://www.goodreads.com/review/show/1930335603