terça-feira, 25 de abril de 2017

Lobo do Mar, de Garrett Mc Namara

"Lobo do Mar" de Garrett McNamara (com Karen Karbo)
Marcador, 2017
319 Páginas


Garrett Mc Namara não é só quem surfou aquela onda gigante na Nazaré, é também e acima de tudo o vivo exemplo de que nunca é tarde para se recomeçar, para se mudar de vida e fazer diferente, fazer melhor. 

Ao longo de "Lobo do Mar", Mc Namara dá-nos a conhecer a sua história de vida meio atribulada, levada muitas vezes ao limite por uma certa inconsciência, despreocupação e ausência de regras. A dada altura, decide mudar completamente de rumo, vendo no surf uma forma de vida e concretização. E é assim que, em busca de uma grande onda, chega a Nazaré em 2011 e surfa uma onda de quase 24 metros, entrando para o Guiness e tornando a vila mundialmente conhecida. 

A partir daí a sua vida mudou. A da Nazaré também por causa das ondas gigantes que ali se formam a dada altura do ano, atraindo inúmeros surfistas de todo o mundo e contribuindo, por sua vez, para o crescente desenvolvimento da economia local. 

Uma das partes que mais gostei neste livro foi aquela que Mc Namara dedicou a falar da sua chegada à Nazaré e do modo como a sua relação com a região se desenvolveu. É muito bonito ler alguém que não é português, mas que tem Portugal no coração, falar tão bem do nosso país e reconhecer-lhe um valor que habitualmente os nacionais não sentem... Vale a pena!

https://www.goodreads.com/review/show/1968468836

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Rainha Santa, de Isabel Machado


"A Rainha Santa" de Isabel Machado
A Esfera dos Livros, 2016
411 Páginas



"A Rainha Santa" é mais um daqueles livros que, a dada altura, tive pressa de acabar, e quando acabei senti-me como que "desamparada", "vazia", "abandonada" pela personagem e/ou personagens. Neste caso, fiquei "refém" de Isabel de Aragão, casada com o rei D. Dinis, o Lavrador. 

Fascinou-me o modo como a autora demonstra uma rainha de coração puro e objectivos maiores, sem olhar às reprimendas do rei e ao facto de estar a gastar "dos seus rendimentos" para ajudar os mais desfavorecidos. Fascinou-me também o facto de ser tão culta e interessada na política de Portugal (e Aragão, mas também Castela), procurando acima de tudo preservar e incentivar à preservação da paz. E, claro, como não poderia deixar de ser, fascinou-me a sua superioridade e grandeza no modo como lidou (e acolheu) com a existência de filhos bastardos do rei. 

O romance histórico é um dos meus estilos literários preferidos (senão for mesmo aquele de que gosto mais) e, neste segundo livro que leio da autora, não fiquei em nada desiludida. Conquistou-me uma vez mais com a forma como deu voz a esta mulher e como contou a sua bonita histórica. A rainha Isabel está-me no imaginário desde que na primária ouvi falar da famosa lenda das rosas (não sei se terá outro nome), a propósito de uma ocasião em que a rainha ia levar pão aos pobres e o rei a questionou sobre o que aí levava e ela respondeu que eram rosas, sendo que quando lhe mostrou eram rosas; o pão tinha-se transformado, por milagre, em rosas. Foi muito bom recuperar essa lenda e aprofundar a história e vida desta rainha!

https://www.goodreads.com/review/show/1967871444

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Em Viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez



"Em Viagem pela Europa de Leste" de Gabriel García Márquez 
Publicações Dom Quixote, 2017
190 Páginas



Na obra "Em Viagem pela Europa de Leste" sente-se Gabriel García Márquez tanto como jornalista, informando acerca dos acontecimentos, como também como escritor, contando histórias em que participou juntamente com os seus companheiros de aventura e manifestando-se acerca do seu estado de espírito no decorrer da viagem. Ainda assim, estou inclinada para o facto do autor ter pendido mais para o papel de jornalista...

De facto, este livro resulta da compilação dos vários fascículos da viagem que o autor fez, nos anos cinquenta, aos países comunistas do Leste Europeu: Alemanha Oriental, (na então) Checoslováquia, Polónia, Hungria e URSS. 

Os textos apresentados na ordem em que são apresentados não seguem um trajecto linear em termos espaciais (a segui-lo deviam começar na Alemanha Oriental, seguir depois para a Polónia ou a Checoslováquia, posteriormente para a Hungria e terminando na URSS; ou começando na URSS e seguindo pela ordem inversa até à Alemanha Oriental) e confesso que isso me causou alguma irritação (culpa minha que não reli a contra-capa quando antes de começar a ler o livro), sobretudo porque, por um lado, "trabalho muito" com o espaço em termos de Lage [posição] e de Raum [espaço-recursos] destes países e, pelo outro, porque queria sentir alguma "ordem" no relato da viagem, mas a única ordem que encontrei foi mesmo o facto de serem países comunistas. 

Um dos meus textos preferidos, e sou suspeita nisso, foi o relativo à Alemanha Oriental. 

https://www.goodreads.com/review/show/1964608004

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Snu e a vida privada com Sá Carneiro, de Cândida Pinto


"Snu e a vida privada com Sá Carneiro" de Cândida Pinto
Publicações Dom Quixote, 2011
318 Páginas


Cândida Pinto apresenta-nos na presente obra uma interessante biografia de Snu, a mulher que vivia maritalmente com Sá Carneiro, então Primeiro-Ministro português, aquando do acidente de Camarate ocorrido em Dezembro de 1980, no qual também perdeu a vida. 

Dinamarquesa de nascimento, mas cosmopolita no decorrer da sua vida, Snu traz para Portugal do Estado Novo (e, mais tarde, Portugal recentemente democrático) uma lufada de ar fresco. É responsável pela criação da Editora Publicações Dom Quixote, ainda hoje existente, mas também por agitar a moral e os costumes vigentes por manter uma união de facto (hoje tão comum) com Sá Carneiro, seu segundo companheiro. 

Snu era uma mulher fascinante e fascinada fiquei eu também ao ficar a conhecer um pouco melhor o que foi a sua vida antes e para além de Sá Carneiro, que ela tanto amou depois de terminar o seu casamento com Vasco Abecassis (de quem teve três filhos, um dos quais Rebecca, jornalista na Sic), bem como  era a política portuguesa e toda a intriga relacionada com esta no período em que viveu. 
Gostei muito.


https://www.goodreads.com/review/show/1962614165

A Rapariga Dinamarquesa, de David Ebershoff

"A Rapariga Dinamarquesa" de David Ebershoff
Porto Editora, 2010
322 Páginas


Inspirando-se na história verídica do pintor dinamarquês Einar Wegener (1882-1931), que mais tarde se torna Lili Elbe, "A Rapariga Dinamarquesa" (de que há um filme - ver trailer aqui: https://www.youtube.com/watch?v=xf5tOTNqM0s ) trata-se, antes de mais de uma bonita história de amor de alguém (a também pintora Gerda Gottlieb, aqui Greta) que abdica e incentiva o homem que ama e com quem é casada a realizar e a alcançar a liberdade enquanto ser humano num corpo de mulher. 

Na verdade, esta é uma situação delicada para ambos, sobretudo se tivermos em atenção que se passa entre os finais do século XIX e os inícios do século XX, numa altura em que a sociedade e a própria ciência ainda não estão nem abertas nem preparadas para lidar com isto. 

Por outro lado, e do ponto de vista interior, parece-me complicado enquanto mulher amar um homem que não parte, não morre, e só a "deixa" porque quer ser e se sente mulher e a natureza não "ajudou" (Wegener era intersexual, o que, conforme consta no dicionário corresponde a uma pessoa que tem caracteres sexuais femininos e masculinos) e ainda assim mantém um enorme carinho por ela (sem nunca a tratar mal, antes pelo contrário). 

Para ele, parece-me igualmente delicado nascer com um corpo de homem sentindo-se mulher e custa-me pensar não só nisso, como também em todo o sofrimento pelo qual terá de passar para que possa fazer a "transformação física" e, mais tarde, burocrática. Até porque as cirurgias parecem ter, tanto quanto sei, implicações/consequências em quem tem de se submeter a elas e acredito, embora sem conhecimento de causa, que esta deverá ser uma situação particularmente dolorosa; é preciso muita coragem e vontade...!

Regressando ao livro propriamente dito, gostei sobretudo de o ler pela sensibilidade com que o autor, David Ebershoff, aborda a vida de Wegener, articulando-a com alguma ficção, e toda a problemática acima indescrita. É impossível ficar indiferente...!

https://www.goodreads.com/review/show/1958704445

sexta-feira, 31 de março de 2017

Os Buddenbrook, de Thomas Mann

"Os Buddenbrook" de Thomas Mann
Publicações Dom Quixote, 2011 
638 Páginas


Esta foi a minha segunda experiência com Thomas Mann, mas a primeira sob o ponto de vista ficcional. A história conquistou-me aos poucos, devagar, de forma incisiva. A partir das quatrocentas e tal páginas ansiei por chegar ao fim, sobretudo porque começava de algum modo a antever a queda/decadência da familia a aproximar-se. A verdade, porém, é que quando cheguei ao fim, senti-me como que órfã e desamparada... Os Buddenbrook já faziam (e fazem) parte de mim. E devo dizer que gostei muito. 

Não se lê rapidamente, lê-se demorada e pensadamente, sendo que reflectiremos sobre a obra durante e após a sua leitura. Uma das razões para isto acontecer relaciona-se como facto dos temas abordados, ainda que relativos ao século XIX, se manterem actuais. 

Refiro-me à questão da disputa de uma herança entre irmãos feita de forma mesquinha e destruidora, o desbaratamento ao fim de duas/três gerações de um negócio de familia importante e de peso, com impacto na vida política de então. Digno de nota é igualmente o papel da mulher neste período que, para mim, é um dos aspectos mais interessantes na obra. A sociedade aqui retratada é patriarcal até à exaustão.

A mulher devia casar-se antes dos trinta anos (para não ficar solteirona - termo que sempre me enojou e, sim, quero mesmo dizer enojar - e a viver com os pais e, mais tarde, após a morte destes, com os irmãos, tornando-se uma presença quase indesejada) e fazê-lo com um homem que a sustente, permitindo-lhe "aumentar" a sua posição social, bem como "juntar" riquezas entre empresas-familias. Recorde-se que neste período a mulher tinha um dote, algo mais comum entre as camadas mais ricas da sociedade, o "preço" que a familia desta pagava para o/pelo noivo se casar com ela e que a colocava a mulher numa posição de vulnerabilidade e fragilidade. Ademais, a mulher era vista como "uma criança" até ao casamento e, findo o mesmo (apenas sob condições muito especificas), caía numa espécie de decadência e infortúnio... Hoje incompreensiveis para mim. Porque a mulher tem o direito e a capacidade de ser tão independente quanto o homem. O que é que o homem tem a mais que a mulher?! São seres humanos, ambos!

Por outro lado, outra das razões que justificam o interesse pela obra prendem-se com o retrato que nos é oferecido, por um alemão, sobre a Alemanha (que não é o país que hoje conhecemos; era um conjunto de vários Estados diferentes e independentes entre si) do século XIX, sobre a revolução de 1848 (conhecida como a Primavera dos povos), de Lübeck (uma cidade pertencente à Liga Hanseática. 

Do ponto de vista da escrita de Thomas Mann o estilo é soberbo. Talvez não seja o tipo de leitura indicada para quem prefere algo mais leve ou para quem não goste mesmo de ler a sério. Para quem tem na leitura uma verdadeira paixão e gosta de literatura a sério, este é um clássico digno desse mesmo nome (e não é maçudo, acreditem). As descrições dos espaços, das personagens, ... é tão bem feita que o leitor quase que se sente a observar o desenrolar da história "em directo". 

Além disso, esta foi, tanto quanto pude apurar, a obra que valeu a Thomas Mann a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1929. E quando se termina a sua leitura percebe-se bem porquê...! Gostei e muito.


https://www.goodreads.com/review/show/1940406105

terça-feira, 21 de março de 2017

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

"O Labirinto dos Espíritos" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
845 Páginas


Zafón termina em grande esta tetralogia (ou quadrilogia, se preferirem) de "O Cemitério dos Livros Esquecidos" com o livro "O Labirinto dos Espíritos", de 800 e tal páginas que se conseguem ler de forma fluída e sem aborrecimentos. O autor vai alternando o ângulo de visão com que a narrativa prossegue, focando-se nas várias personagens da história (umas mais do que as outras, naturalmente). E tem uma escrita pensada, sem pressas nem bocejos, destinada a proporcionar excelentes momentos ao leitor.

Com efeito, este volume está cheio de acção do início ao fim. E, ao contrário dos anteriores, pareceu-me, por vezes, que lia um policial. A arte da escrita e a ambição de ser reconhecido por a possuir (um talento) é apenas o ponto de partida para uma série de crimes e mortes, relacionados com algumas das personagens que conhecemos dos volumes anteriores (em particular Isabella e David Martin), verificados e resolvidos neste quarto livro. 

Várias são também as novas personagens que aqui aparecem, bem como as suas histórias de vida (vitimas da guerra, ligadas ao mundo da banca, (ex-?)alcóolicos, ...), sendo que destaco, por exemplo, Alicia Gris, que me ficará para sempre na memória pela sua garra, pela sua força e pela sua persistência perante a adversidade. A prova viva de que a nossa mente pode mover montanhas num corpo dolorido e conseguir o impossível!

Daniel Sempere fica, finalmente, a conhecer a toda história da origem da sua vida e é essa mesma história que nos é contada, mais tarde, por uma outra personagem com ele relacionada e de um jeito particularmente interessante. O mesmo sucede com a sua mãe Isabella, cujo passado ficamos a conhecer melhor de forma magistral, o que nos permite juntar todas as peças do puzzle.

Que posso dizer mais? Gostei imenso. Valeu a pena estas semanas que dediquei a esta tetralogia de Zafón. Foram muito bons momentos. Na maioria das vezes, o meu maior problema com esta colecção foi conseguir parar e ser obrigada a fazê-lo porque o dever me chamava...! 

https://www.goodreads.com/review/show/1940403543

segunda-feira, 13 de março de 2017

O Prisioneiro do Céu, de Carlos Ruiz Zafón



"O Prisioneiro do Céu" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
377 Páginas


Daniel Sempere e o seu amigo Fermín regressam à história num livro que, por isso mesmo, mistura elementos de "A Sombra do Vento" com o "O Jogo do Anjo", sendo que no caso deste último refiro-me em particular à personagem de David Martin. Como gostei de os rever!

Quase todo o livro é um regresso ao passado, desconhecido e um tanto ao quanto escuro, de Fermín. É uma recuperação da sua história, da sua relação com as outras personagens da colecção de "O Cemitério dos Livros Esquecidos" e até curiosos aspectos da ligação/amizade de Fermín com Daniel Sempere. 

A mãe de Daniel, Isabella, volta, sem que estejamos à espera, a ser uma figura relevante na história, sendo que o seu desfecho, apesar de aparentemente fechado, se percebe ainda desconhecido e por descobrir. 

Comparativamente aos dois outros livros estamos na presença de uma narrativa mais simples e ligeiramente menos elaborada, com menos frases dignas de nota (que eu tenha notado) porque o autor simplesmente não as utiliza tanto aqui. 

Zafón está mesmo é focado na história de Fermín e não quer distrair o seu leitor. É, contudo, de notar que estes três livros podem ser livros por outra ordem, como é referido no início do presente volume. 

Sem querer ser tendenciosa, e do que sei até ao momento, sinto que a leitura deverá começar por "A Sombra do Vento" ou por "O Jogo do Anjo", sendo que "A Sombra do Vento" consegue cativar o leitor e nele entranhar-se de forma positivamente mais intensa do que "O Jogo do Anjo". 

Agora, o próximo passo é ler "O Labirinto dos Espiritos" e ver como termina esta odisseia toda. E eu já comecei a ler!

https://www.goodreads.com/review/show/1937367643

sexta-feira, 10 de março de 2017

O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafón




"O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016 
577 Páginas

Estou enfeitiçada pela escrita, pelo estilo da escrita de Zafón...

"O Jogo do Anjo" é perturbador. Às vezes, negro, escuro, madrasto. E admito que, ao contrário de "A Sombra do Vento", os dois últimos capítulos de "O Jogo do Anjo" conseguiram levar-me às lágrimas. Isso não aconteceu nenhuma vez com o primeiro livro. 

De facto, este segundo livro conseguiu deixar-me mais vulnerável, talvez até pelo tema. Aqui a história centra-se num escritor (David Martin) que quase enlouquece, que se torna vítima do seu talento para a escrita e da sua dedicação cega à mesma, que se vende e, num certo sentido, abdica da sua vida para escrever, como escritor fantasma, um livro com determinados contornos. 

De alguma forma, revi-me em David Martin. Porque também eu tenho abdicado de muitas coisas para me concentrar na escrita (da minha Tese de Doutoramento) e questiono-me, com alguma frequência, acerca do alcance e do sentido presente e futuro dessa opção na minha vida. E atenção que eu adoro o que estou fazer, mas, por vezes, também sinto o cansaço, os vários cansaços a pesar-me... Por outro lado, quando olho igualmente para a minha Tese, e apesar do carácter de objectividade que um trabalho desta natureza implica, sei que uma boa parte de mim está ali guardada, está ali presente. Daí o facto deste livro me ter causado uma sensação ligeiramente diferente do primeiro!

À parte disso, continuei a gostar de Zafón. Muito! Nesta história recuamos no tempo em que Daniel Sampere ainda não era nascido e conhecemos a sua mãe Isabella e o seu avó, para além de pelo menos outra personagem que, tanto quanto já percebi, voltará a aparecer... Refiro-me a David Martin. Zafón adopta igualmente um estilo neste livro que me faz lembrar Joanne Harris, uma das minhas escritoras favoritas. 

Entretanto, já comecei o livro seguinte desta colecção: "O Prisioneiro do Céu". Veremos o que aí vem, mas Daniel Sampere e o seu amigo Fermin estão de volta, o que só pode ser um óptimo sinal...!

https://www.goodreads.com/review/show/1930335603

sexta-feira, 3 de março de 2017

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón




"A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
555 Páginas

Um livro dentro de outro livro, uma história dentro de outra história. Personagens que dão vida a outras... Mistério, muito mistério. A paixão por livros, verdadeira e autêntica que nos leva a ser, por vezes, um pouco loucos. O Amor e o Ódio a caminhar muito próximos. A amizade e a lealdade, genuinas e sem preço. A obstinada teimosia. E tudo tem uma razão de ser, um sentido, como convém não esquecer e é sempre bom lembrar!

Adorei este livro. Não tenho nada a apontar. Gostei da escrita. Tem tiradas brilhantes, comuns porque se referem a situações do dia-a-dia e nesse sentido são óbvias quando lidas, mas a verdade é que ninguém pára habitualmente para pensar nessas mesmas coisas daquela forma. É viciante, dando vontade de querer conhecer tudo, saber o que se passa, o que se passou e o que se passará e perceber em que sentido se desenrola e desenrolará a acção, mas, ao mesmo tempo, dá vontade de saboreá-lo lenta e vagarosamente, sem pressa de chegar demasiado rápido ao fim. 

Várias foram as vezes que dei por mim com sono a querer fechar os olhos, porque a morrer de cansaço e a não querer descansar, porque queria ler mais e mais e não me apetecia parar. Também várias foram as vezes que me custou largar a leitura, e pousar o livro, porque o dever me chamava. Fiquei presa a "A Sombra do Vento" sem me dar conta disso. Terminei de o ler ontem à noite e, preparando-me para ler "O Jogo do Anjo" que se segue, já me questionei o que será feito de Daniel Sampere? Vai voltar em alguns dos livros que seguem a colecção? E o seu fiel amigo Fermín também? Palavra que gostei imenso daqueles dois e da curiosa e estreita relação de amizade que se desenvolveu entre ambos. E o modo como Daniel sente os livros? É maravilhoso. 

"A Sombra do Vento" fez-me aquilo que nem todos os livros me conseguem provocar... Conseguiu fazer-me desligar do aqui e do agora totalmente. Deixe de ser a Marisa. E durante o tempo que li senti-me muitas vezes, Daniel Sampere, Beatriz, Penélope, Fermín, Julian Caráx, ... Viajei até Barcelona do pós Segunda Guerra Mundial e fui livre. Sonhei com outras vidas. Vivi outras vidas. Adorei.

E vou já começar "O Jogo do Anjo" daqui a pouco...!

https://www.goodreads.com/review/show/1912479458

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Terra de Ana, de Jostein Gaarder


"A Terra de Ana" de Jostein Gaarder
Editorial Presença, 2017
182 Páginas


Na linha da tradição norte-europeia, Jostein Gaarder serve-se do tema do clima e em particular das alterações climáticas para escrever este seu livro, cruzando o presente e o futuro como passado e como presente respectivamente. 

A grande mensagem que penso que Gaarder aqui pretende transmitir relaciona-se com o facto de todos sermos responsáveis por aquilo que está a acontecer no nosso planeta e com as espécies animais e vegetais. E seremos tão responsáveis por aquilo que deixaremos às gerações vindouras quanto o são as gerações passadas por aquilo que nos deixaram a nós. Vale a pena pensar nisto!

Gostei de "A Terra de Ana", mas estava à espera de qualquer coisa menos leve... Qualquer coisa ao estilo de "A Rapariga das Laranjas", "O Enigma e Espelho", só para dar alguns exemplos. A verdade, porém, é que, tanto quanto percebi, este livro enquadra-se na colecção juvenil e, portanto, isso justifica o facto de ser muito mais leve do que é habitual neste autor, caracterizado por ter como temáticas a relação entre a vida e a morte e recorrer ao pensamento dos filósofos com frequência nos seus livros. 

https://www.goodreads.com/review/show/1912482287

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Um Arbusto no Olhar, de Álvaro Giesta



"Um Arbusto no Olhar" de Álvaro Giesta
Calçada das Letras, 2015
85 Páginas


"Um Arbusto no Olhar" foi uma feliz incursão ao mundo da poesia. Ainda não tinha lido nada de Álvaro Giesta antes desta obra e posso dizer que gostei muito do que li. É exactamente deste tipo de poesia que eu gosto...

E que poesia é esta? 

O autor escreve sobre a natureza. São frequentes as referências ao rio, ao sol, às pedras, à paisagem verdejante; aos quatro elementos (terra, ar, fogo e água). Álvaro Giesta escreve sobre fazer poesia, sobre a vida. Recorre ao corpo da mulher (e em alguns casos ao do homem) para falar do nascimento do rio que corre. 

O resultado é uma leitura que transmite paz, tranquilidade e que nos transporta para fora das quatro paredes sem mais demoras, recordando-nos o porquê de gostarmos de poesia. É a beleza da simplicidade, o prazer da intensidade... que as palavras nos permitem experimentar quando usadas na exacta medida e no momento certo...!

*

"Parai/
e dizei-me o que há de mais puro/
no coração ávido que anseia a água da vida/
e o ser; /
senão a poesia" (p.81)


https://www.goodreads.com/review/show/1912486799

O Jogador, de Fiódor Dostoiévski



"O Jogador" de Fiódor Dostoiévski
Editorial Presença, 2016
165 Páginas


Como o próprio título da obra indica,  a história de "O Jogador" centra-se em torno do jogo e do desejo, por vezes, quase cego de obter dinheiro, muito dinheiro, sem grande esforço. Enriquecer por apostas na roleta, viciados na possibilidade de ganhar tudo e mais alguma coisa e/ou ficar sem nada porque se apostou tudo e a sorte foi-se. 

A obra é pequena, mas a mensagem passa. Sente-se a ganância, a paixão, o interesse e a sua ausência, o amor e o desamor entre as personagens a olho nu. É interessante ver desfilar ao longo desta breve e não menos intensa história (ao contrário do que sucede muitas vezes com os livros mais pequenos) algumas caracteristicas bem feias da nossa sociedade...!

Gostei da escrita e do estilo de Dostoiévski, sendo que fiquei com interesse de ler mais obras deste autor russo. 

https://www.goodreads.com/review/show/1902333717

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O Almirante Português, de Jorge Moreira Silva

"O Almirante Português" de Jorge Moreira Silva
Marcador, 2015
286 Páginas

Ler "O Almirante Português" foi uma lufada de ar fresco não só por causa do período histórico em que esta história se passa (no tempo de Napoleão) como também por toda a terminologia e contexto navais da época (ainda que alguns se utilizem ainda hoje). 

Gostei também da exploração que aqui é feita da relação entre portugueses e italianos, entre portugueses e franceses (uma relação complicada, sendo que o apoio aos ideais de Liberdade levava à morte), e entre portugueses e ingleses (o papel da aliança com Inglaterra, apesar da mesma nem sempre ser consensual). Igualmente interessante foi a apresentação da figura do Almirante inglês Nelson, mais conhecido pela sua participação contra as Guerras Napoleónicas, de uma forma mais humana (o que permite conhecer alguns dos seus defeitos, no meu entender), como o próprio autor observa em "Explicação aos leitores", contrastando com a idolatria que habitualmente se faz ao mesmo. 

Quanto à escrita nada a apontar. Este romance histórico além de estar muito bem escrito, permite-nos uma leitura fluída e, por isso mesmo, conseguiu prender-me a atenção desde o início. Há, todavia, um aspecto que poderia ser tido em maior atenção num próximo romance e que se relaciona com as transições que faz de umas partes para as outras na história: talvez estas possam ser escritas de uma forma "menos acelerada", sem que com isso se a quebre a dinâmica da narrativa, que, a meu ver, é excelente e não é nada maçadora!

Assim sendo, aqui ficam os meus parabéns a Jorge Moreira Silva por este seu primeiro romance (histórico). Venha daí o próximo!

https://www.goodreads.com/review/show/1902335689

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lolita, de Vladimir Nabokov


"Lolita" de Vladimir Nabokov
Relógio D'Água, 2013
335 Páginas


"Lolita" é um caso que eu não consigo resolver. Não consigo perceber se gosto ou se não gosto. Desperta em mim sentimentos contraditórios, dos quais não consigo sair... 

Como é que eu hei de explicar isto?! 

Bom, quando leio ficção, e se a ficção for de qualidade, eu vivo-a com intensidade e, portanto, consigo sentir todo o tipo de sentimentos e ainda exteriorizar algumas lágrimas, algumas gargalhadas... Mas também consigo sentir repulsa... Repulsa a sério!

Há pelo menos dois tipos de situações que me incomodam particularmente: uma relaciona-se com a violação; outra com a pedofilia. Quando li "Uma Mulher em Berlim", uma biografia verídica de uma alemã que sofreu repetidas violações, pelos russos, já no fim da Segunda Guerra Mundial cheguei ao ponto de não conseguir largar o livro até terminar a leitura o mais rapidamente possível. Apesar de ter adorado este livro (é impressionante), admito que a realidade daquela mulher (e de tantas outras como ela ) me estava a incomodar, a corroer tanto, e a causar um mal estar tão grande que eu queria terminar depressa o livro. Já não aguentava mais. Psicológica e emocionalmente, eu senti o seu sofrimento e isso estava a dar cabo de mim. 

Em "Lolita", a história tem como pano de fundo uma relação pedófila e, mesmo sabendo tratar-se de pura ficção neste caso, sei que há realidades assim e pensar nisso incomoda-me profundamente. As crianças têm direito a ser crianças. Os adolescentes a ser adolescentes. E cada pessoa tem direito a explorar a sua sexualidade quando se sentir preparada para isso, no seu tempo, não devendo ser forçada ou impelida a nada sem o seu consentimento ou vontade. Isto não me sai da cabeça. Não me saiu da cabeça durante praticamente todo o tempo que li este livro. Volto a repetir: sei que é ficção. 

Porém, nos breves momentos em que consegui ler e "voar", consegui notar a genialidade da escrita de Nabokov e da própria forma como construiu o argumento desta história (este pedófilo, além de ser pedófilo a sério, era interesseiro e vingativo, possessivo ao limite e isso levou-o a cometer assassinio(s)). É que se o argumento não fosse efectivamente bom, ler "Lolita" não me teria causado qualquer espécie de repulsa, ter-me-ia sido apenas indiferente e não foi. Jamais me esquecerei da sua história. 

No entanto, e como referi no início não consigo resolver estes sentimentos contraditórios... !

https://www.goodreads.com/review/show/1902329932

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sobre o Amor e a Morte, de Patrick Süskind


"Sobre o Amor e a Morte" de Patrick Süskind
Editorial Presença, 2006
61 Páginas

Patrick Süskind oferece aos seus leitores na obra "Sobre o Amor e a Morte" um interessante e conciso ensaio sobre o que é o amor, sobre a morte e o modo como o amor e a morte se relacionam. 

A sua escrita segue na linha do que o autor nos tem vindo a habituar... Directo, sem demasiados rondeios, por vezes um pouco crítico e mordaz. Lê-se fluentemente, sem grande vontade de fazer pausa.

E no decorrer da exposição das suas ideias vai buscar inúmeras vezes J. W.Goethe, que eu tanto gosto, e Heinrich von Kleist, que eu vou querer conhecer um pouco melhor. Traz-nos Platão, Santo Agostinho, Orfeu e a sua Eurídice e ainda recorre, de forma muito subtil e na medida certa, para justificar o seu argumento a uma ou outra passagem dos Evangelhos. 

Gostei deste "apanhado"/"revisão"/"lufada de ar fresco" cultural! 

*
"estar apaixonado é uma embriaguez, uma doença, um delírio. Não é uma embriaguez má, acrescenta ele, é precisamente a melhor das embriaguezes; não é uma doença nociva nem uma loucura humana no sentido patológico; é antes uma mania inspirada pelo divino, uma loucura sagrada que dá asas à alma confinada ao que é terrestre." (p.12)

https://www.goodreads.com/review/show/1902335505

Amor, Ponto e Vírgula, de Andrew Nicoll



"Amor, Ponto e Vírgula" de Andrew Nicoll
Editorial Presença, 2011
401 Páginas

"Amor, Ponto e Vírgula" é um romance incomum e original, carregado de exotismo. A narradora é a Santa Walpurnia, uma virgem barbuda, padroeira da cidade de Ponto localizada algures no Báltico. E a história passa-se essencialmente entre o Presidente da Câmara, Tibo Krovic, e a sua Secretária, Agathe Stopak, por quem está secretamente apaixonado há já algum tempo. Ela é casada, mas vive infeliz porque apesar dos seus vários esforços o marido só quer a companhia do álcool quando chega a casa... 

A verdade é que apesar destas premissas aparentemente simples e comuns, a história ganha contornos especiais do início ao fim. Walpurnia está sempre a ser chamada, há bruxas e feitiços e personagens que evoluem da sua forma humana para dálmatas...! E a história de amor que se desenvolve entre Tibo e Agathe é muito bonita, mas está longe de ser linear... De um momento para o outro, Agathe passa a ser objecto de desejo de mais outro homem na história. Porém, enquanto um nutre por ela um bonito amor, ou outro só sente desejo e não tem amor!

A escrita é bela, leva-nos a sonhá-la até por causa da própria forma como é contada e também nos deixa a pensar sobre as implicações de se: gostar de alguém e mantê-lo em segredo sem avançar no dito momento, porque nunca o encontramos e estamos sempre à espera de uma altura melhor, e com isso perder a oportunidade; escolher alguém por quem temos atracção física, mas não verdadeiro sentimento, porque a pessoa por quem temos algum sentimento "não se mexe", ficamos a achar que o sentimento não é correspondido, o tempo passa e não temos a vida toda; e de se permanecer numa relação em que não só não nos sentimos realizados, como nem somos felizes... Questões com que, certamente, nos iremos cruzar pelo menos uma vez na vida (mesmo que isso não se passe connosco é muito possível que possamos conhecer alguém que já esteve ou virá a estar em circunstâncias semelhantes). 
*
"É assim que o amor é: dá a tudo um sabor novo, pinta tudo com cores diferentes, acaricia os nervos com uma sensação aguda que faz lembrar picadas de agulha, torna o entediantemente mundano novamente suportável."(p.158)

https://www.goodreads.com/review/show/1897793076

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A nossa Casa é onde está o Coração, de Toni Morrison


"A nossa casa é onde está o coração" de Toni Morrison
Editorial Presença, 2015
140 Páginas



Eu gostei... 

Mas gostava que a história de Franz, o homem que regressa da guerra da Coreia (transformado pela mesma), tivesse sido mais desenvolvida. Para mim não foi o suficiente e achei-a em alguns momentos algo confusa. Num certo sentido senti que a história da sua irmã foi mais desenvolvida, mas fiquei também cheia de dúvidas. 

Toni Morrison escreve bem. Tem momentos do livro muito bem escritos. Porém, penso que a forma como a história é contada e a própria dimensão do livro acabam por não lhe chegar a dar a profundidade que eu esperava e que tanto admiro... Esta talvez seja uma característica e/ou um problema inerente aos livros de 100 e poucas páginas. Chego ao fim do livro sem ter sentido verdadeiramente a história e sem que me tenham conseguido arrebatado de facto.  

No entanto, repito: gostei. Só que foi só mesmo isso... Um gostar simples. Ponto final.

https://www.goodreads.com/review/show/1888644104

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Neblina sobre Mannheim, de Bernhard Schlink e Walter Popp

"Neblina sobre Mannheim" de Bernhard Schlink e Walter Popp
Edições 70, 2002
303 Páginas

"Neblina sobre Mannheim" (em alemão "Selbs Justiz", título que em nada corresponde à versão portuguesa) corresponde ao livro de estreia de Bernhard Schlink, autor de "O Leitor". Trata-se de um livro escrito, nos anos oitenta, em parceria com Walter Popp. Foi inclusivamente este que trouxe Schlink, que sempre sonhara ser escritor (mas optou por uma carreira com juíz e professor de Direito), para o mundo da escrita. 

Trata-se de um romance policial, um estilo algo distinto daquele que seguirá posteriormente. Ainda assim, a linha temática é a mesma: há sempre alguém que sente culpa, culpa do seu passado  Nacional-Socialista e que tenta escondê-lo com vergonha e pudor; há sempre alguém ligado ao mundo das leis, isto é, um advogado, um juiz, um inspector, um procurador. E isto torna os seus livros extremamente interessantes; e com temas que são mesmo tempo objectivos e subjectivos. 

Embora não estando entre os meus livros preferidos de Schlink (tive momentos que me perdi), "Neblina sobre Mannheim" não deixa de valer a pena ser lido. Não só pelos temas abordados, como também porque foi daqui que Schlink partiu para a escrita.

Seria, agora, interessante que as Edições Asa - Grupo Leya decidissem publicar mais livros do autor, que a meu ver tão bem retrata muitos dos fantasmas que ainda persistem na Alemanha actual, como, por exemplo, "Die Frau auf der Treppe". Fica a sugestão!

https://www.goodreads.com/review/show/1888632930

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

"O Velho e o Mar" de Ernest Hemingway
Edição Livros do Brasil Lisboa, 1998
134 Páginas



Em "O Velho e o Mar" Hemingway traz-nos uma história simples, mas bela. Como o próprio título da obra indica, a história concentra-se no velho Santiago, outrora um pescador cheio de sorte e ultimamente um pescador com muito pouca sorte. Um dia, Santiago vai sozinho para o mar e só sai de lá quando consegue pescar. Pescar a sério. 

Penso que a grande mensagem que o autor pretende passar se relaciona com a importância de se ser resilente perante as dificuldades da vida, de nunca se desistir daquilo em que se acredita quando se tem o coração e a alma cheios, transbordantes de bondade. 

Além de ter gostado de o ler, agora compreendo perfeitamente o porquê de me terem oferecido este livro aos 11/12 anos de idade. Não o li na altura porque não senti "aquele impulso", mas guardei-o sempre com um enorme carinho por me ter sido oferecido por dois grandes amigos (que já não se encontram entre nós) e por sentir que este livro teria certamente uma mensagem especial.  E tem. Leiam-no. É belo na sua simplicidade!
*
"Um homem nunca se perde no mar (...)" [p.95]

https://www.goodreads.com/review/show/1888644400

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich

"A Guerra não tem rosto de mulher" de Svetlana Alexievich
Elsinore, 2016
392 Páginas



Em "A guerra não tem rosto de mulher", Svetlana Alexievich aborda a guerra do ponto de vista das mulheres. Mulheres russas que, na Segunda Guerra Mundial, foram combater os alemães, aquando da invasão da União Soviética em 1941, deixando de lado os vestidos femininos, os sapatos de salto, as tranças que tiveram de cortar e a maquilhagem. Mulheres que, tantas vezes, nem maiores de idade eram e partiam para a guerra porque queriam a Vitória, queriam defender e ajudar a mãe, o pai e os irmãos e as irmãs. 

Este é um livro de vozes. Um livro de testemunhos. Pleno de emoções. Pleno de sensibilidade. Pleno de força. Pleno dos horrores de quem participou directamente na guerra, sem intermediários. Muitas destas vidas ficaram condicionadas para sempre depois da guerra: fisicamente, psicologicamente e até do ponto de vista familiar. Há quem nunca recupere das feridas deixadas por todo o sofrimento passado e lhe custe falar, testemunhar. Há quem tenha ultrapassado tudo isso. Há de tudo. 

Gostei muito de ler este livro. Além de estar extremamente bem escrito e justificar sem qualquer dúvida a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Svetlana Alexievich em 2015, este livro trouxe-me algo de novo: a leitura da guerra pelas mulheres. E note-se que eu leio bastante sobre a guerra (faz parte do meu trabalho), pelo que não tenho qualquer dúvida em dizer que quem quiser compreender o que foram as duas grandes guerras totais do século XX (a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais) tem de ler este livro, a par de "A Guerra como Experiência Interior" de Ernst Jünger e "Os Órgãos de Estaline" de Gert Ledig. 

https://www.goodreads.com/review/show/1865955098


sábado, 14 de janeiro de 2017

O Excêntrico Mortdecai, de Kyril Bonfiglioli


"O Excêntrico Mortdecai" de Kyril Bonfiglioli
Marcador, 2015
214 Páginas

"O Excêntrico Mortdecai" pode ser um bom livro, mas não o foi para mim... 

O autor tem conhecimentos culturais diversificados, o que é interessante e manifestamente notório, mas isso por si só não basta. Não senti que houvesse história neste livro, nem consegui perceber qual a mensagem que se pretende transmitir. 

O que mais consegui reter neste livro foi a constante observação de Mortdecai ao peito das mulheres (que com ele se cruzavam, o que às tantas também se torna um pouco enjoativo... Se bem que isso pode estar relacionado com a excentricidade de Mortdecai), a descrição das suas idas à casa de banho (não percebi qual o interesse de ali aparecerem) e o cantar glorioso do seu canário (a que se referiu por diversas vezes e em relação ao que nada tenho a apontar), bem como alguns problemas com a policia. E a bebida. A bebida é algo que está quase sempre presente. 

Para mim, a parte melhor de "O Excêntrico Mortdecai" foi quando este se envolveu com a mulher de um falecido negociante de arte (o modo como isso aconteceu e como Mortdecai se soltou), seu rival, uma mulher um tanto ao quanto selvagem a julgar pelo que o autor, Kyril Bonfiglioli, nos refere. 

À parte disso, quase não consegui desligar-me do mundo real e entrar na história, sendo que o próprio Mortdecai não me conseguiu causar empatia enquanto personagem... Mas isso também se pode dever ao facto da figura me ser algo familiar (acho que já conheci alguém assim e o rasto que deixou não foi nada positivo sob nenhum aspecto). 

https://www.goodreads.com/review/show/1865948465

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Encontro em Itália, de Liliana Lavado

"Encontro em Itália" de Liliana Lavado
Marcador, 2014
Marcador

Ao início gostei mais ou menos, quase a chegar a metade do livro gostei mais e de metade em diante gostei muito. Terminei a pensar: que viagem este livro fez...! Embora, não tenha gostado assim tanto do fim escolhido. É lírico, é verdade, mas para mim é desmancha-prazeres...

"Encontro em Itália" não foi nada do que eu estava à espera. Pensei que ia sair daqui uma história de amor simples, mas arrebatadora; um reencontro de um amor antigo que, apesar das novas peripécias, teriam um desfecho feliz. Mas não foi bem assim...

A história podia ser simples e, todavia, não é. Mistura sem mais nem menos homens e anjos. Uma mistura interessante, devo observar. 

Temos também alguém que vive no limite porque sabe que tem os dias contados devido a uma doença e isso, porém, não é exposto de forma dramática, o que admiro e valorizo. Quando leio um livro, não gosto de dramas gratuitos. E aqui não há drama gratuito. 

Temos amores cruzados, obsessão, filhos indesejados e traições entre amigos. Temos gatos que falam. Humanos que ganham asas de anjo. E o que parece simples ao início, repito, não o é. Há surpresa, há trocar das voltas e tudo tem um porquê de acontecer mesmo quando isso não parece óbvio à primeira vista...!

https://www.goodreads.com/review/show/1865946939

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Adeus Berlim, de Wolfgang Herrndorf


"Adeus, Berlim" de Wolfgang Herrndorf
Editorial Presença, 2013
236 Páginas


Herrndorf escreveu em "Adeus, Berlim" uma história sobre dois adolescentes para adolescentes (é notório na forma como o livro está escrito e no tipo de linguagem utilizada), sendo que embora já não me insira nesta categoria e, admito, tenha demorado um pouco a reavivar a memória e a colocar-me nesse papel, gostei do livro. 

É bonita a amizade que se desenvolve entre o jovem alemão-russo, pobre e com um passado de roubos, e o alemão abastado, com uma mãe alcóolica e um pai abastado, mas ausente. É também interessante a forma como os dois jovens interagem com quem se vão cruzado durante o seu trajecto (como é caso de Isa, a menina do lixo, e da Terapeuta da fala só para dar alguns exemplos), em direcção à Valáquia (na Roménia e a Norte do Danúbio) a bordo de um jipe Lada roubado, nas férias de Verão. 

Para mim, a graça deste livro está a partir do momento em que os dois partem no jipe, começando a aventura. Até chegar a essa parte, admito que estava um pouco ansiosa (o facto dos dois jovens não serem populares na turma e a dificil relação com os outros colegas não me disse grande coisa, talvez porque se trata, infelizmente, de algo demasiado frequente nos nossos dias - nos meus igualmente -) ... Parecia que a verdadeira história do livro nunca mais começava. Depois começou e valeu a pena!

A obra venceu, em 2011, o Prémio Nacional de Literatura Juvenil Alemã, tendo sido escolhida pela Alemanha (através do Goethe-Institut) para ser apresentada na Noite de Literatura Europeia em 2013, em Lisboa, a bordo do eléctrico 28. 

https://www.goodreads.com/review/show/1865947449