terça-feira, 25 de abril de 2017

Lobo do Mar, de Garrett Mc Namara

"Lobo do Mar" de Garrett McNamara (com Karen Karbo)
Marcador, 2017
319 Páginas


Garrett Mc Namara não é só quem surfou aquela onda gigante na Nazaré, é também e acima de tudo o vivo exemplo de que nunca é tarde para se recomeçar, para se mudar de vida e fazer diferente, fazer melhor. 

Ao longo de "Lobo do Mar", Mc Namara dá-nos a conhecer a sua história de vida meio atribulada, levada muitas vezes ao limite por uma certa inconsciência, despreocupação e ausência de regras. A dada altura, decide mudar completamente de rumo, vendo no surf uma forma de vida e concretização. E é assim que, em busca de uma grande onda, chega a Nazaré em 2011 e surfa uma onda de quase 24 metros, entrando para o Guiness e tornando a vila mundialmente conhecida. 

A partir daí a sua vida mudou. A da Nazaré também por causa das ondas gigantes que ali se formam a dada altura do ano, atraindo inúmeros surfistas de todo o mundo e contribuindo, por sua vez, para o crescente desenvolvimento da economia local. 

Uma das partes que mais gostei neste livro foi aquela que Mc Namara dedicou a falar da sua chegada à Nazaré e do modo como a sua relação com a região se desenvolveu. É muito bonito ler alguém que não é português, mas que tem Portugal no coração, falar tão bem do nosso país e reconhecer-lhe um valor que habitualmente os nacionais não sentem... Vale a pena!

https://www.goodreads.com/review/show/1968468836

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Rainha Santa, de Isabel Machado


"A Rainha Santa" de Isabel Machado
A Esfera dos Livros, 2016
411 Páginas



"A Rainha Santa" é mais um daqueles livros que, a dada altura, tive pressa de acabar, e quando acabei senti-me como que "desamparada", "vazia", "abandonada" pela personagem e/ou personagens. Neste caso, fiquei "refém" de Isabel de Aragão, casada com o rei D. Dinis, o Lavrador. 

Fascinou-me o modo como a autora demonstra uma rainha de coração puro e objectivos maiores, sem olhar às reprimendas do rei e ao facto de estar a gastar "dos seus rendimentos" para ajudar os mais desfavorecidos. Fascinou-me também o facto de ser tão culta e interessada na política de Portugal (e Aragão, mas também Castela), procurando acima de tudo preservar e incentivar à preservação da paz. E, claro, como não poderia deixar de ser, fascinou-me a sua superioridade e grandeza no modo como lidou (e acolheu) com a existência de filhos bastardos do rei. 

O romance histórico é um dos meus estilos literários preferidos (senão for mesmo aquele de que gosto mais) e, neste segundo livro que leio da autora, não fiquei em nada desiludida. Conquistou-me uma vez mais com a forma como deu voz a esta mulher e como contou a sua bonita histórica. A rainha Isabel está-me no imaginário desde que na primária ouvi falar da famosa lenda das rosas (não sei se terá outro nome), a propósito de uma ocasião em que a rainha ia levar pão aos pobres e o rei a questionou sobre o que aí levava e ela respondeu que eram rosas, sendo que quando lhe mostrou eram rosas; o pão tinha-se transformado, por milagre, em rosas. Foi muito bom recuperar essa lenda e aprofundar a história e vida desta rainha!

https://www.goodreads.com/review/show/1967871444

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Em Viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez



"Em Viagem pela Europa de Leste" de Gabriel García Márquez 
Publicações Dom Quixote, 2017
190 Páginas



Na obra "Em Viagem pela Europa de Leste" sente-se Gabriel García Márquez tanto como jornalista, informando acerca dos acontecimentos, como também como escritor, contando histórias em que participou juntamente com os seus companheiros de aventura e manifestando-se acerca do seu estado de espírito no decorrer da viagem. Ainda assim, estou inclinada para o facto do autor ter pendido mais para o papel de jornalista...

De facto, este livro resulta da compilação dos vários fascículos da viagem que o autor fez, nos anos cinquenta, aos países comunistas do Leste Europeu: Alemanha Oriental, (na então) Checoslováquia, Polónia, Hungria e URSS. 

Os textos apresentados na ordem em que são apresentados não seguem um trajecto linear em termos espaciais (a segui-lo deviam começar na Alemanha Oriental, seguir depois para a Polónia ou a Checoslováquia, posteriormente para a Hungria e terminando na URSS; ou começando na URSS e seguindo pela ordem inversa até à Alemanha Oriental) e confesso que isso me causou alguma irritação (culpa minha que não reli a contra-capa quando antes de começar a ler o livro), sobretudo porque, por um lado, "trabalho muito" com o espaço em termos de Lage [posição] e de Raum [espaço-recursos] destes países e, pelo outro, porque queria sentir alguma "ordem" no relato da viagem, mas a única ordem que encontrei foi mesmo o facto de serem países comunistas. 

Um dos meus textos preferidos, e sou suspeita nisso, foi o relativo à Alemanha Oriental. 

https://www.goodreads.com/review/show/1964608004

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Snu e a vida privada com Sá Carneiro, de Cândida Pinto


"Snu e a vida privada com Sá Carneiro" de Cândida Pinto
Publicações Dom Quixote, 2011
318 Páginas


Cândida Pinto apresenta-nos na presente obra uma interessante biografia de Snu, a mulher que vivia maritalmente com Sá Carneiro, então Primeiro-Ministro português, aquando do acidente de Camarate ocorrido em Dezembro de 1980, no qual também perdeu a vida. 

Dinamarquesa de nascimento, mas cosmopolita no decorrer da sua vida, Snu traz para Portugal do Estado Novo (e, mais tarde, Portugal recentemente democrático) uma lufada de ar fresco. É responsável pela criação da Editora Publicações Dom Quixote, ainda hoje existente, mas também por agitar a moral e os costumes vigentes por manter uma união de facto (hoje tão comum) com Sá Carneiro, seu segundo companheiro. 

Snu era uma mulher fascinante e fascinada fiquei eu também ao ficar a conhecer um pouco melhor o que foi a sua vida antes e para além de Sá Carneiro, que ela tanto amou depois de terminar o seu casamento com Vasco Abecassis (de quem teve três filhos, um dos quais Rebecca, jornalista na Sic), bem como  era a política portuguesa e toda a intriga relacionada com esta no período em que viveu. 
Gostei muito.


https://www.goodreads.com/review/show/1962614165

A Rapariga Dinamarquesa, de David Ebershoff

"A Rapariga Dinamarquesa" de David Ebershoff
Porto Editora, 2010
322 Páginas


Inspirando-se na história verídica do pintor dinamarquês Einar Wegener (1882-1931), que mais tarde se torna Lili Elbe, "A Rapariga Dinamarquesa" (de que há um filme - ver trailer aqui: https://www.youtube.com/watch?v=xf5tOTNqM0s ) trata-se, antes de mais de uma bonita história de amor de alguém (a também pintora Gerda Gottlieb, aqui Greta) que abdica e incentiva o homem que ama e com quem é casada a realizar e a alcançar a liberdade enquanto ser humano num corpo de mulher. 

Na verdade, esta é uma situação delicada para ambos, sobretudo se tivermos em atenção que se passa entre os finais do século XIX e os inícios do século XX, numa altura em que a sociedade e a própria ciência ainda não estão nem abertas nem preparadas para lidar com isto. 

Por outro lado, e do ponto de vista interior, parece-me complicado enquanto mulher amar um homem que não parte, não morre, e só a "deixa" porque quer ser e se sente mulher e a natureza não "ajudou" (Wegener era intersexual, o que, conforme consta no dicionário corresponde a uma pessoa que tem caracteres sexuais femininos e masculinos) e ainda assim mantém um enorme carinho por ela (sem nunca a tratar mal, antes pelo contrário). 

Para ele, parece-me igualmente delicado nascer com um corpo de homem sentindo-se mulher e custa-me pensar não só nisso, como também em todo o sofrimento pelo qual terá de passar para que possa fazer a "transformação física" e, mais tarde, burocrática. Até porque as cirurgias parecem ter, tanto quanto sei, implicações/consequências em quem tem de se submeter a elas e acredito, embora sem conhecimento de causa, que esta deverá ser uma situação particularmente dolorosa; é preciso muita coragem e vontade...!

Regressando ao livro propriamente dito, gostei sobretudo de o ler pela sensibilidade com que o autor, David Ebershoff, aborda a vida de Wegener, articulando-a com alguma ficção, e toda a problemática acima indescrita. É impossível ficar indiferente...!

https://www.goodreads.com/review/show/1958704445