sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Homem em Busca de um Sentido, de Viktor E. Frankl



"O Homem em Busca de um Sentido" de Viktor E. Frankl
Lua de Papel, 2017
159 Páginas 

Este livro serve para fazermos uma auto-análise psicológica e, por essa mesma razão, não se trata de uma leitura simples ou fácil. Pelo menos, para mim. 

Por outro lado, pode também não ser uma leitura fácil porque uma boa parte do livro trata da experiência do próprio autor, Viktor E. Frankl, um médico psiquiatra, no campo de concentração de Auschwitz, onde este viria a perder a mulher - que estava grávida e ele não sabia - e os pais. 

Escrever sobre Auschwitz também não é fácil, embora eu acredite que seja uma forma de "exorcizar" uma parte do sofrimento sentido, de "lavrar" a memória. Desenganem-se, todavia, se estiverem a achar que este é mais um livro sobre Auschwitz... Não é. E todos os livros que já li sobre este campo de concentração são diferentes. As pessoas também são todas diferentes e, por inevitabilidade, as experiências também o são.

Frankl foi o fundador da Logoterapia, uma psicoterapia que consiste na procura de sentido para a vida. E foi esse sentido encontrado por muitos dos prisioneiros deste campos, mas também fora destes campos, que garantiu a sobrevivência de muitos. 

Feliz ou infelizmente, em algumas fases da minha vida já adoptei (e adopto) "esta visão", sem saber e desconhecendo a existência da Logoterapia. E é muito eficaz. É muito eficaz para todos os tipos de prisioneiros (e não me refiro necessariamente a alguém que esteja preso numa cela a cumprir uma pena por ter cometido um crime), mas sobretudo para aqueles que se encontram cativos do sofrimento, do isolamento e da solidão como resultado da passagem por algumas fases da vida (umas vezes evitáveis, outras nem por isso; umas necessárias, outras nem por isso; e todas elas inaceitáveis, dificeis de engolir, em algum momento, para nós)...!

https://www.goodreads.com/review/show/2041185253


sexta-feira, 30 de junho de 2017

A Morte em Veneza, de Thomas Mann


"A Morte em Veneza" de Thomas Mann
Relógio D'Água, 2004
114 Páginas




Terceiro livro que leio de Thomas Mann, o segundo de ficção. Que dizer?
Acho que posso colocá-lo na lista dos meus escritores preferidos e não é por ter sido Nobel em 1929. É mesmo porque admiro a sua escrita. Não é um escritor fácil de compreender nem de leituras rápidas e superficiais. É profundo, superior, pensado, estruturado. E eu gosto disso.

Aqui é o fascinio pela beleza que dá o tema à história, ou seu centro se preferirem. Aschenbach, o escritor, está deslumbrado pela beleza do adolescente Tadzio, sendo que esse deslumbramento é tal que se reflecte na própria escrita de Thomas Mann. Forte, arrebatadora, de cortar a respiração (no bom sentido, no muito bom sentido, entenda-se). É dificil não se ficar apaixonado pela paixão de Aschenbach por Tadzio...! E eu só os conheço pelas palavras de Mann. 

"A Morte em Veneza" não é a história de um crime (como eu, erradamente, pensava; apesar do título poder sugeri-lo), mas sim um livro cuja escrita nos transporta muito para o plano espiritual e superior. Num certo sentido é filosófico. Aliás, nesta sua novela, Thomas Mann oferece-nos muito de Platão, sobretudo na sua relação com a beleza e com as emoções. E eu adoro Platão! É preciso dizer mais alguma coisa?! 

Posto isto, estou a pensar seriamente se não começo a ler "A Montanha Mágica" muito em breve... Será loucura?! Não sei, o que sei é que Thomas Mann está a "infiltrar-se em mim", definitivamente.

https://www.goodreads.com/review/show/2035729708

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Descascando a Cebola, de Günter Grass


"Descascando a cebola" de Günter Grass
Casadas Letras, 2007
378 Páginas


Não dou cinco estrelas, mas são quatro estrelas e qualquer coisa. E não dou* apesar de considerar que, de todos os livros lidos de Günter Grass até à data (contei seis com este incluido), este é, sem sombra para dúvidas, o melhor. É declaradamente auto-biográfico. 

Neste livro Grass confessa-se. Confessa aquilo que muitos alemães, que viveram a Guerra, procuraram ocultar dos outros e de si próprios no pós Segunda Guerra Mundial por vergonha: pertenceu às SS. O seu papel não foi relevante nas SS, mas ainda assim integrou-as e isso foi o bastante para se sentir culpado, envergonhado com isso, sentimentos que o acompanharam toda a vida. Até ao último dia. 

Neste "Descascando a Cebola" ficamos também a compreender a relação existente entre as obras de Grass e a sua vida. Cada uma delas quase que tem, ou tem mesmo, algo de auto-biográfico. É uma leitura interessante, sobretudo para aqueles que pretendam conhecer um pouco da "psique" alemã mais recente. 

* - Porque tive momentos em que achei que o autor se esgotou em alguns temas, como a imperiosa necessidade de satisfação de desejo sexual do autor, uma vez terminada a Guerra. O tema podia ser abordado, sim -somos humanos de carne e osso - , mas creio que o foi de forma excessiva e isso tornou-se, para mim, aborrecido... E essa foi uma das críticas feitas aquando da publicação na Alemanha e é, no meu entender, justificada. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

A Passo de Caranguejo, de Günter Grass


"A Passo de Caranguejo" de Günter Grass
Casa das Letras, 2003
221 Páginas

Já li alguns livros de Günter Grass (talvez quase, senão mesmo, metade daqueles que publicou) e confesso que nunca fui muito sua fã. Parece-me que tem muito ódio, raiva e outros sentimentos mal resolvidos. E sempre fiquei com a sensação de que a sua relação com a Alemanha está envolta em grande ressentimento. Mas que a Alemanha? Pois, a actual. 

Então e que problema tem isso? O problema é que Grass tem um passado nas SS, ou seja, participou na Alemanha de Hitler, essa Alemanha do passado, de que ainda há culpa e medo. Daí que eu sinta uma certa contrariedade em Günter Grass. Aliás, isso encontra-se igualmente presente em "A Passo de Caranguejo", obra que ultrapassou as minhas expectativas de forma positiva.

A história concentra-se no afundamento do navio, "Wilhelm Gustloff", por um submarino russo em 1945, ainda na Segunda Guerra Mundial, e na vida de Paul (um jornalista e o narrador da história que nasce no mesmo dia em que Adolf Hitler subiu ao poder, em 1933, sentindo-se muito mal com isso), cuja mãe viajava neste navio e que, segundo percebi, nasceu aquando deste naufrágio, que terá levado à morte cerca de 10.000 passageiros. Melhor dizendo: concentra-se em Paul, na sua mãe e no filho de Paul. 
A obra leva-nos a pensar também na questão judaica, na culpa por inevitabilidade, na situação da Polónia "ensanduichada" entre a Alemanha e a Rússia, entre o Nacional-Socialismo e o Comunismo, ... 

É uma leitura interessante. Deixa-nos a pensar no passado recente da História europeia. E ajudou-me, de algum modo, a reconciliar-me, por um lado, com Günter Grass (estou a ler a sua auto-biografia, "Descascando a cebola" e ainda estou a gostar mais) e a sua obra e, pelo outro, com o próprio acto de ler como um acto de gostar, que com o cansaço, saturação e alguma desmotivação, me visitou umas quantas vezes no passado mês de Maio...! Por isso, valeu a pena a sua espera prolongada, desde 2013, na minha estante. Chegou a altura certa. Chegou a altura dele (para mim).

https://www.goodreads.com/review/show/2009782977

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Livro do Hygge. O Segredo Dinamarquês para Ser Feliz, de Meik Wiking

"O Livro do Hygge. O Segredo Dinamarquês para Ser Feliz" de Meik Wiking 
Edições Zero a Oito, 2017
285 Páginas

Dos países estrangeiros que já tive oportunidade de visitar, a Dinamarca é um daqueles com que mais me identifico no que respeita à sua cultura e ao modo como encaram a vida. Foi uma espécie de amor à primeira vista quando visitei Copenhaga. Chorei (e eu não sou lá muito chorona) no último dia e pensei: tenho de cá voltar. E voltarei. Não sei quando, mas voltarei. Para ver o que não vi, o que ficou por ver. 

Daí que quando há alguns meses atrás começaram a ser publicados vários livros sobre o "Hygge" em Portugal, correspondendo este ao "segredo dinamarquês para ser feliz", fiquei curiosa e depois de ler um comentário feito ao presente livro decidi-me por este. 

Porquê? Não é um livro teórico, nem demasiado abstracto sobre esta "filosofia de vida". Está cheio de imagens do "Hyyge", bem como receitas e muitas, muitas ideias para o colocar em prática no dia-a-dia. Porque o "Hygge" consiste em tirar partido das pequenas coisas do e no dia-a-dia, e não ocasionalmente (nas férias ou nas alturas festivas, por exemplo); é algo de sempre e que se supõe ser mantido sempre. E, segundo o autor, Meik Wiking, é isso que explica o facto da Dinamarca ser um dos países mais felizes do mundo. Isso e um Estado-providência digno desse nome, como Wiking, que é Presidente do Happiness Research Institute, reconhece. Porque quer se queira, quer não, a instabilidade financeira compromete em muito a felicidade. Sem estabilidade e sem forma de sobreviver/subsistir não é fácil ser-se "hygge" também e, por inevitabilidade, começam a surgir as doenças físicas... Mentais... Mentais e físicas!

No essencial, este livro parece-me um bom ponto de partida não só para se ser mais feliz, como também para compreender melhor a cultura dinamarquesa. E pronto, admito, fiquei de "alma lavada"!

*
https://www.goodreads.com/review/show/2005146732

terça-feira, 23 de maio de 2017

Equador, de Miguel Sousa Tavares

"Equador" de Miguel Sousa Tavares
Clube do Autor, 2016
510 Páginas



Gosto de Miguel Sousa Tavares, o escritor. Gosto mesmo. E gosto ainda mais quando escreve livros de crónicas (o que não é o caso)...!

Li um quase romance,"No teu Deserto", e este "Equador", romance, ficar-me-á na memória sobretudo e acima de tudo pelas características da sua personagem principal, Luís Bernardo. 

Identifiquei-me com o seu sentido de justiça (aqui relativamente à questão da escravatura), sendo que em algumas circunstâncias identifiquei-me também  muito com o tipo de sentimentos e emoções experimentados por ele durante a sua vivência em São Tomé e Principe, embora nunca lá tenha estado e tenha muita curiosidade em conhecer este país. É verdade que a paisagem nos desperta para determinados estados de espírito, mas é igualmente verdade que estes só se manifestam de determinada forma porque já cá estão connosco (têm em nós a sua semente)...! 

Talvez tenha sido isso mesmo o explica a trajectória de vida desta personagem e o seu desfecho. Essa fuga desenfreada da paixão cega e louca porque, na verdade, estamos apenas diante de um boémio, mulherengo, que escapa de algo que sabe poder fazê-lo perder o tino e o norte.

E concordo com Eduardo Lourenço e com o comentário crítico que faz em relação à obra e que acompanha a mesma... "Equador" tem qualquer coisa de queirosiano. Sendo obras e escritores de épocas diferentes, lembrei-me muito de "Os Maias"no decorrer da leitura de "O Equador". E não foi só por causa da forma como o adultério se proporciona... É a descrição da própria sociedade, todo o cinismo e intriga social, muito bem retratados na minha perspectiva.

https://www.goodreads.com/review/show/1994203415

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pinturas da Natureza. Uma Antologia, de Alexander von Humboldt

"Pinturas da Natureza. Uma Antologia" de Alexander von Humboldt
Assírio & Alvim, 2007
206 Páginas


Quanto mais leio sobre e de Alexander von Humboldt mais fã me torno...

Humboldt foi um homem muito à frente do seu tempo. Um cientista cujas teorias elaborou depois de muito conhecimento prático. Viajou pela Europa, foi no continente americano que fez a viagem da sua vida (usando a herança deixada pela morte da mãe) e esteve também na imensa Rússia. Era no contacto directo com a natureza que sentia feliz e realizado!

Pode dizer-se que foi um dos fundadores da moderna Geografia, falou das mudanças climáticas quando ninguém pensava sequer nisso (viveu entre o século XVIII-XIX) porque depressa percebeu o poder transformador, e em alguns casos destruidor, que o homem poderia ter em contacto com a natureza. 

Embora sendo prussiano, adorava Paris, onde, sempre que possível procurou viver. Sempre quis conhecer a Índia, mas não conseguiu: nem financiamento, nem autorização. Vivia, por causa desta sua paixão, sempre no limite das suas finanças e o pouco que tinha usava-o para financiar outros jovens cientistas. 

E poderia continuar... Não o vou fazer, porém. A ideia é dar-vos a conhecer o suficiente para perceberem o porquê de eu me dizer "fã" ou fascinada pela vida e obra deste senhor. Vamos agora ao livro "Pinturas da Natureza", uma antologia, reunindo excertos de várias das suas obras, entre as quais aquela que é considerada a sua principal obra, "Kosmos". 

O livro é constituido por quatro partes: uma primeira designada de "Perspectivas da Natureza", uma segunda de "Viagem às regiões equinociais do novo continente nos anos de 1799, 1800, 1801, 1802, 1803 e 1804", uma terceira onde podemos encontrar os "Diários de Viagem" e uma quarta e última "Cosmos. Esboço de uma Descrição Física do Universo". 

Vale a pena lê-lo. Dá para ficar com uma visão abrangente da sua obra, ao mesmo tempo que nos permite conhecê-la de perto, o que é um achado, sobretudo porque não tenho conhecimento da existência de outras traduções de alemão para português do seu trabalho.  Em alguns casos, sentimo-nos em lugares longínquos a "experimentar a vida junto da natureza" com Humboldt. É muito interessante, acreditem...!

https://www.goodreads.com/review/show/1912491298