terça-feira, 21 de março de 2017

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

"O Labirinto dos Espíritos" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
845 Páginas


Zafón termina em grande esta tetralogia (ou quadrilogia, se preferirem) de "O Cemitério dos Livros Esquecidos" com o livro "O Labirinto dos Espíritos", de 800 e tal páginas que se conseguem ler de forma fluída e sem aborrecimentos. O autor vai alternando o ângulo de visão com que a narrativa prossegue, focando-se nas várias personagens da história (umas mais do que as outras, naturalmente). E tem uma escrita pensada, sem pressas nem bocejos, destinada a proporcionar excelentes momentos ao leitor.

Com efeito, este volume está cheio de acção do início ao fim. E, ao contrário dos anteriores, pareceu-me, por vezes, que lia um policial. A arte da escrita e a ambição de ser reconhecido por a possuir (um talento) é apenas o ponto de partida para uma série de crimes e mortes, relacionados com algumas das personagens que conhecemos dos volumes anteriores (em particular Isabella e David Martin), verificados e resolvidos neste quarto livro. 

Várias são também as novas personagens que aqui aparecem, bem como as suas histórias de vida (vitimas da guerra, ligadas ao mundo da banca, (ex-?)alcóolicos, ...), sendo que destaco, por exemplo, Alicia Gris, que me ficará para sempre na memória pela sua garra, pela sua força e pela sua persistência perante a adversidade. A prova viva de que a nossa mente pode mover montanhas num corpo dolorido e conseguir o impossível!

Daniel Sempere fica, finalmente, a conhecer a toda história da origem da sua vida e é essa mesma história que nos é contada, mais tarde, por uma outra personagem com ele relacionada e de um jeito particularmente interessante. O mesmo sucede com a sua mãe Isabella, cujo passado ficamos a conhecer melhor de forma magistral, o que nos permite juntar todas as peças do puzzle.

Que posso dizer mais? Gostei imenso. Valeu a pena estas semanas que dediquei a esta tetralogia de Zafón. Foram muito bons momentos. Na maioria das vezes, o meu maior problema com esta colecção foi conseguir parar e ser obrigada a fazê-lo porque o dever me chamava...! 

https://www.goodreads.com/review/show/1940403543

segunda-feira, 13 de março de 2017

O Prisioneiro do Céu, de Carlos Ruiz Zafón



"O Prisioneiro do Céu" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
377 Páginas


Daniel Sempere e o seu amigo Fermín regressam à história num livro que, por isso mesmo, mistura elementos de "A Sombra do Vento" com o "O Jogo do Anjo", sendo que no caso deste último refiro-me em particular à personagem de David Martin. Como gostei de os rever!

Quase todo o livro é um regresso ao passado, desconhecido e um tanto ao quanto escuro, de Fermín. É uma recuperação da sua história, da sua relação com as outras personagens da colecção de "O Cemitério dos Livros Esquecidos" e até curiosos aspectos da ligação/amizade de Fermín com Daniel Sempere. 

A mãe de Daniel, Isabella, volta, sem que estejamos à espera, a ser uma figura relevante na história, sendo que o seu desfecho, apesar de aparentemente fechado, se percebe ainda desconhecido e por descobrir. 

Comparativamente aos dois outros livros estamos na presença de uma narrativa mais simples e ligeiramente menos elaborada, com menos frases dignas de nota (que eu tenha notado) porque o autor simplesmente não as utiliza tanto aqui. 

Zafón está mesmo é focado na história de Fermín e não quer distrair o seu leitor. É, contudo, de notar que estes três livros podem ser livros por outra ordem, como é referido no início do presente volume. 

Sem querer ser tendenciosa, e do que sei até ao momento, sinto que a leitura deverá começar por "A Sombra do Vento" ou por "O Jogo do Anjo", sendo que "A Sombra do Vento" consegue cativar o leitor e nele entranhar-se de forma positivamente mais intensa do que "O Jogo do Anjo". 

Agora, o próximo passo é ler "O Labirinto dos Espiritos" e ver como termina esta odisseia toda. E eu já comecei a ler!

https://www.goodreads.com/review/show/1937367643

sexta-feira, 10 de março de 2017

O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafón




"O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016 
577 Páginas

Estou enfeitiçada pela escrita, pelo estilo da escrita de Zafón...

"O Jogo do Anjo" é perturbador. Às vezes, negro, escuro, madrasto. E admito que, ao contrário de "A Sombra do Vento", os dois últimos capítulos de "O Jogo do Anjo" conseguiram levar-me às lágrimas. Isso não aconteceu nenhuma vez com o primeiro livro. 

De facto, este segundo livro conseguiu deixar-me mais vulnerável, talvez até pelo tema. Aqui a história centra-se num escritor (David Martin) que quase enlouquece, que se torna vítima do seu talento para a escrita e da sua dedicação cega à mesma, que se vende e, num certo sentido, abdica da sua vida para escrever, como escritor fantasma, um livro com determinados contornos. 

De alguma forma, revi-me em David Martin. Porque também eu tenho abdicado de muitas coisas para me concentrar na escrita (da minha Tese de Doutoramento) e questiono-me, com alguma frequência, acerca do alcance e do sentido presente e futuro dessa opção na minha vida. E atenção que eu adoro o que estou fazer, mas, por vezes, também sinto o cansaço, os vários cansaços a pesar-me... Por outro lado, quando olho igualmente para a minha Tese, e apesar do carácter de objectividade que um trabalho desta natureza implica, sei que uma boa parte de mim está ali guardada, está ali presente. Daí o facto deste livro me ter causado uma sensação ligeiramente diferente do primeiro!

À parte disso, continuei a gostar de Zafón. Muito! Nesta história recuamos no tempo em que Daniel Sampere ainda não era nascido e conhecemos a sua mãe Isabella e o seu avó, para além de pelo menos outra personagem que, tanto quanto já percebi, voltará a aparecer... Refiro-me a David Martin. Zafón adopta igualmente um estilo neste livro que me faz lembrar Joanne Harris, uma das minhas escritoras favoritas. 

Entretanto, já comecei o livro seguinte desta colecção: "O Prisioneiro do Céu". Veremos o que aí vem, mas Daniel Sampere e o seu amigo Fermin estão de volta, o que só pode ser um óptimo sinal...!

https://www.goodreads.com/review/show/1930335603

sexta-feira, 3 de março de 2017

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón




"A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón
Planeta, 2016
555 Páginas

Um livro dentro de outro livro, uma história dentro de outra história. Personagens que dão vida a outras... Mistério, muito mistério. A paixão por livros, verdadeira e autêntica que nos leva a ser, por vezes, um pouco loucos. O Amor e o Ódio a caminhar muito próximos. A amizade e a lealdade, genuinas e sem preço. A obstinada teimosia. E tudo tem uma razão de ser, um sentido, como convém não esquecer e é sempre bom lembrar!

Adorei este livro. Não tenho nada a apontar. Gostei da escrita. Tem tiradas brilhantes, comuns porque se referem a situações do dia-a-dia e nesse sentido são óbvias quando lidas, mas a verdade é que ninguém pára habitualmente para pensar nessas mesmas coisas daquela forma. É viciante, dando vontade de querer conhecer tudo, saber o que se passa, o que se passou e o que se passará e perceber em que sentido se desenrola e desenrolará a acção, mas, ao mesmo tempo, dá vontade de saboreá-lo lenta e vagarosamente, sem pressa de chegar demasiado rápido ao fim. 

Várias foram as vezes que dei por mim com sono a querer fechar os olhos, porque a morrer de cansaço e a não querer descansar, porque queria ler mais e mais e não me apetecia parar. Também várias foram as vezes que me custou largar a leitura, e pousar o livro, porque o dever me chamava. Fiquei presa a "A Sombra do Vento" sem me dar conta disso. Terminei de o ler ontem à noite e, preparando-me para ler "O Jogo do Anjo" que se segue, já me questionei o que será feito de Daniel Sampere? Vai voltar em alguns dos livros que seguem a colecção? E o seu fiel amigo Fermín também? Palavra que gostei imenso daqueles dois e da curiosa e estreita relação de amizade que se desenvolveu entre ambos. E o modo como Daniel sente os livros? É maravilhoso. 

"A Sombra do Vento" fez-me aquilo que nem todos os livros me conseguem provocar... Conseguiu fazer-me desligar do aqui e do agora totalmente. Deixe de ser a Marisa. E durante o tempo que li senti-me muitas vezes, Daniel Sampere, Beatriz, Penélope, Fermín, Julian Caráx, ... Viajei até Barcelona do pós Segunda Guerra Mundial e fui livre. Sonhei com outras vidas. Vivi outras vidas. Adorei.

E vou já começar "O Jogo do Anjo" daqui a pouco...!

https://www.goodreads.com/review/show/1912479458

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Terra de Ana, de Jostein Gaarder


"A Terra de Ana" de Jostein Gaarder
Editorial Presença, 2017
182 Páginas


Na linha da tradição norte-europeia, Jostein Gaarder serve-se do tema do clima e em particular das alterações climáticas para escrever este seu livro, cruzando o presente e o futuro como passado e como presente respectivamente. 

A grande mensagem que penso que Gaarder aqui pretende transmitir relaciona-se com o facto de todos sermos responsáveis por aquilo que está a acontecer no nosso planeta e com as espécies animais e vegetais. E seremos tão responsáveis por aquilo que deixaremos às gerações vindouras quanto o são as gerações passadas por aquilo que nos deixaram a nós. Vale a pena pensar nisto!

Gostei de "A Terra de Ana", mas estava à espera de qualquer coisa menos leve... Qualquer coisa ao estilo de "A Rapariga das Laranjas", "O Enigma e Espelho", só para dar alguns exemplos. A verdade, porém, é que, tanto quanto percebi, este livro enquadra-se na colecção juvenil e, portanto, isso justifica o facto de ser muito mais leve do que é habitual neste autor, caracterizado por ter como temáticas a relação entre a vida e a morte e recorrer ao pensamento dos filósofos com frequência nos seus livros. 

https://www.goodreads.com/review/show/1912482287

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Um Arbusto no Olhar, de Álvaro Giesta



"Um Arbusto no Olhar" de Álvaro Giesta
Calçada das Letras, 2015
85 Páginas


"Um Arbusto no Olhar" foi uma feliz incursão ao mundo da poesia. Ainda não tinha lido nada de Álvaro Giesta antes desta obra e posso dizer que gostei muito do que li. É exactamente deste tipo de poesia que eu gosto...

E que poesia é esta? 

O autor escreve sobre a natureza. São frequentes as referências ao rio, ao sol, às pedras, à paisagem verdejante; aos quatro elementos (terra, ar, fogo e água). Álvaro Giesta escreve sobre fazer poesia, sobre a vida. Recorre ao corpo da mulher (e em alguns casos ao do homem) para falar do nascimento do rio que corre. 

O resultado é uma leitura que transmite paz, tranquilidade e que nos transporta para fora das quatro paredes sem mais demoras, recordando-nos o porquê de gostarmos de poesia. É a beleza da simplicidade, o prazer da intensidade... que as palavras nos permitem experimentar quando usadas na exacta medida e no momento certo...!

*

"Parai/
e dizei-me o que há de mais puro/
no coração ávido que anseia a água da vida/
e o ser; /
senão a poesia" (p.81)


https://www.goodreads.com/review/show/1912486799

O Jogador, de Fiódor Dostoiévski



"O Jogador" de Fiódor Dostoiévski
Editorial Presença, 2016
165 Páginas


Como o próprio título da obra indica,  a história de "O Jogador" centra-se em torno do jogo e do desejo, por vezes, quase cego de obter dinheiro, muito dinheiro, sem grande esforço. Enriquecer por apostas na roleta, viciados na possibilidade de ganhar tudo e mais alguma coisa e/ou ficar sem nada porque se apostou tudo e a sorte foi-se. 

A obra é pequena, mas a mensagem passa. Sente-se a ganância, a paixão, o interesse e a sua ausência, o amor e o desamor entre as personagens a olho nu. É interessante ver desfilar ao longo desta breve e não menos intensa história (ao contrário do que sucede muitas vezes com os livros mais pequenos) algumas caracteristicas bem feias da nossa sociedade...!

Gostei da escrita e do estilo de Dostoiévski, sendo que fiquei com interesse de ler mais obras deste autor russo. 

https://www.goodreads.com/review/show/1902333717