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segunda-feira, 6 de maio de 2019

As Afinidades Electivas, de Johann Wolfgang Goethe


"As Afinidades Electivas" de Johann Wolfgang Goethe
Bertrand Editora, 2017
310 Páginas

Goethe escreveu esta história, pensando-a ao pormenor. Não há nada que aqui falhe. "As Afinidades Electivas" são efectivamente uma obra plena de Romantismo enquanto tendência literária do início ao fim. Com uma forte carga dramática, bem patente na forma como termina e que me fez recordar "Romeu e Julieta" de Shakespeare. Penso, de igual modo, que reflecte bem Goethe enquanto escritor. 

Gostei muito do livro, mas não do final (ainda que compreenda o seu enquadramento e se justifique pelas razões acima expostas). Sinto alguma afinidade com o Romantismo enquanto tendência literária, algo que não consigo muito bem explicar. Ou talvez consiga explicar, em parte, por causa do turbilhão de emoções que lhe está habitualmente associado, aquele sentir desmedido que extravasa o razoável com frequência, a saudade, o desejo, a impossibilidade e a vontade de se evadir/partir pelo mundo fora, o amor à arte e à natureza. 

Tudo isso está presente em "Afinidades Electivas". Uma história de adultério espiritual escrita com todo o cuidado e delicadeza e muita, muita sensibilidade e inteligência.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Aus dem Leben eines Taugenichts, de Joseph von Eichendorff

"Aus dem Leben eines Taugenichts" de Joseph von Eichendorff
Reclam, 2018
156 Páginas


Eichendorff conta em "Aus dem Leben eines Taugenichts" a vida de um jovem (o "Taugenichts", isto é, um "zero à esquerda") que acaba expulso de casa do pai, um moleiro, por este considerar que o filho  além de fracassado, não tem quaisquer outros objectivos na vida para além de tocar violino (e cantar). E é então que se inicia o percurso de busca pela sorte/felicidade deste jovem que chegado a Viena depressa se apaixona por uma jovem, mas sem sucesso. Decide, então, tentar a sua sorte em Itália, a terra das laranjas (e ao que parece também dos limões) e depressa se torna novamente a desiludir, regressando a Viena, sempre na companhia do seu violino. No fim tudo termina bem e ainda bem porque eu gosto de finais felizes. 

Escrito em prosa poética, o livro está salpicado de poemas. Eichendorff faz descrições belissimas dos espaços, sobretudo da paisagem natural, adoptando um estilo lírico e romântico (de Romantismo enquanto movimento artístico, entenda-se) que muito me agradou, apesar de nem sempre ser fácil compreender à primeira. 

Interessante é também a tensão que aqui está presente entre os filisteus e os artistas, sendo que os primeiros têm uma atitude que despreza o que é belo, o que é arte, o que é espiritual e intelectual. E isso verifica-se desde o início da história, quando o Taugenichts é expulso pelo pai de casa... O Taugenichts fica fascinado com a beleza, gosta de flores, por exemplo, e aproveita todos os momentos (independentemente de estar feliz ou infeliz) para tocar violino e cantar poesia. É, de facto, muito bonito. E é sobretudo porque no fim, apesar de todos os azares que ele conheceu até aí chegar, ele alcança a sua sorte/felicidade, sem deixar a sua arte de lado!


sábado, 31 de dezembro de 2016

Fausto, de Johann W. Goethe

"Fausto" de Johann W. Goethe
Relógio D' Água, 2013
470 Páginas

Agradável surpresa antes de tudo, o "Fausto" de Johann Wolfgang von Goethe não é propriamente um livro de leitura fácil. Não é prosa, é poesia e também não é poesia poesia. É uma tragédia. Num certo sentido, e para que se possa perceber o estilo, parece que estamos diante de uma espécie de "Os Lusíadas" de Camões.

A obra está dividida em duas partes, sendo que a segunda é composta por cinco actos. Destas duas partes, gostei muito mais de ler a primeira do que a segunda, quando Fausto decide vender a alma ao diabo e, cansado de levar uma vida de estudo longe dos prazeres da vida, decide envolver-se com Margarida, uma jovem inocente e ingénua. A segunda parte tem, a meu ver, muitas personagens (talvez demasiadas) e isso fez-me perder um pouco na história, deixando-me, por vezes, algo confusa. 

Consta que o Doutor Fausto foi um homem que viveu na Alemanha entre 1480 e 1540, mas esta informação é apenas uma das várias que existem acerca deste homem. Algumas são até conflituantes entre si. É, ao que parece, através de Goethe que a figura de Fausto se torna mais conhecida. A obra demorou quase sessenta anos a ser escrita, sendo que Goethe escreveu primeiro a primeira parte e alguns anos depois a segunda.

Gostei. Goethe, figura impar do Romantismo europeu, demonstra que se adapta bem a vários estilos literários, escrevendo com talento e mestria. E é fácil perceber porque é que "Fausto" é considerada a sua obra prima. "Fausto" reune em si como que um pedaço de cada uma das suas outras obras, como "Werther", "Viagem a Itália" e "O Jogo das Nuvens", só para dar alguns exemplos. Há algo comum entre estas quatro obras que vai muito para além do facto de terem sido escritas todas pela mesma pessoa... !

*
"A vergonha quando nasce vem/Ao Mundo no meio de segredos, / E o véu da noite lhe põem/ A cobrir cabeça e ouvidos;/ Bem gostaríamos de a matar, /Mas quando cresce e fica grande, /Nada impede que à luz do Sol ande, /Sem, porém, mais bela ficar./ Quanto mais é feia e impura, /Mais a claridade procura." (p.174)

https://www.goodreads.com/review/show/1853704366

terça-feira, 26 de abril de 2016

Werther, de J.W.Goethe


"Werther" de J.W.Goethe
Abril Controljornal/Biblioteca Visão, 2000
126 Páginas

Publicada pela primeira vez em 1774 e podendo ser assumida como uma obra autobiográfica, "Werther" (ou melhor "Os sofrimentos do jovem Werther", já que é isso mesmo que significa o título original da obra em língua alemã quando traduzido à letra, " Die Leiden des jungen Werther") conta a paixão de Werther por Carlota, impossível de concretizar, na medida em que esta se encontra prometida a outro homem. 

Constituida por duas partes, a obra de J. W. Goethe inspirou-se no amor impossível que teve por Charlotte Buff (1753-1828), que se viria a casar com um diplomata e coleccionador de arte, Johann Christian Kestner, tendo feito algumas alterações aos nomes dos lugares e das pessoas, bem como ao próprio desfecho. 

Efectivamente, e através de uma escrita veemente (sem ser complexa e dificil de compreender), o leitor pode acompanhar o nascimento, crescimento e "termo" deste sentimento (e do sofrimento daí decorrente) de Werther, que o mesmo vai dando a conhecer através das cartas que redige com frequência ao seu amigo, Guilherme. 

Tendo sido bem acolhida na época em que surgiu, o livro "Werther" e a história real na qual se baseia acabariam por dar origem, em 2010, ao filme "Goethe!", dirigido por Philipp Stölzl (o trailer oficial, legendado em inglês, poderá ser encontrado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=IqLvK... ). 

Ainda quanto ao livro, cumpre referir que o facto de ser uma obra com poucas páginas não reduz o mérito de Goethe. Pelo contrário. Goethe escreve muito em poucas palavras. Não é dificil colocarmo-nos na posição de Werther (ou Goethe) e, ao mesmo tempo, regressar à posição de observador de toda a "cena". O livro está também pleno de passagens intensas (ou melhor, profundas, porque parecem escritas com toda a alma) e, em alguns momentos, faz-nos pensar em "Romeu e Julieta" de William Shakespeare, sobretudo porque, embora com motivações diferentes, o que aqui está em causa é um amor impossível, platónico, que conduzirá também a um fim trágico. Recomendo, portanto, a sua leitura e voltarei, sem dúvida, a ler Goethe!
*
"Como a sua imagem me persegue! Acordado ou a sonhar é sempre ela que enche a minha alma! Aqui, quando fecho os olhos, aqui, no meu cérebro, aonde converge a força visual, tenho eu gravados os seus olhos negros! Aqui! Não posso exprimir-to... Basta que feche os olhos para ver os dela, sempre como um oceano, como um abismo; estão à minha frente, estão dentro de mim, enchem todo o meu cérebro, todos os meus sentidos." (Goethe, 2000, pp. 97 e 98).

https://www.goodreads.com/review/show/1618653365?book_show_action=false