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terça-feira, 23 de julho de 2019

A Queda dos Gigantes, de Ken Follett

"A Queda dos Gigantes" de Ken Follett
Editorial Presença, 2013
917 Páginas


Perfeito. 

Tem tudo nas doses certas, o que faz com que as suas novecentas e tal páginas estejam longe de ser um fardo. Admito que a primeira impressão quando se olha para a dimensão do calhamaço seja algo assustador, mas a partir do momento em que nos deixamos cativar por tudo o que seu interior nos oferece... Torna-se um vicio (viciante) daqueles bem dificeis de largar!

Tenho lido bons livros nos últimos tempos, sim. Porém, talvez nenhum que me tenham absorvido tão totalmente como este ao ponto de me libertar por inteiro (com excepção da minha presença física, naturalmente) da minha própria realidade... e me fazer prender por cada uma das diferentes vidas com que aqui me fui cruzando. 

Estudar o período histórico da Primeira Guerra Mundial tem sido uma das minhas tarefas desde há cerca de dez anos atrás e, por isso mesmo, não me cruzei do ponto de vista histórico com nada de novo. Revi e quase que "vivi" em tudo o que se passou na época uma vez mais. Follett fez, de facto, desse ponto de vista um trabalho exímio. Até porque sendo inglês narra com isenção e ao sabor da mentalidade da época os acontecimentos e as quezílias que se desenvolvem entre as "nações". Está de mestre! 

Por outro lado, achei profundamente fascinante as relações entre as personagens inglesas e alemãs, por exemplo, e o impacto que a entrada na Primeira Grande Guerra tem na vida individual e pessoal de um casal anglo-germânico. Porque isto aconteceu efectivamente, embora aqui estejamos diante de um livro-romance. 

É também interessante o modo como as famílias inglesa (e galesa), alemã, norte-americana e russa vão evoluindo antes, durante e imediatamente após o conflito quanto a amizades, casamentos, relações extraconjugais, filhos legítimos e ilegítimos, ... É fácil compreender o impacto que aquilo que se verifica na relações internacionais e aquilo que sucede com a realidade interna dos próprios países (económica, política e culturalmente) tem na vida individual e privada dos seus cidadãos. Considero, assim, que este é outra qualidade digna de nota presente neste romance e que me parece passar com frequência ao lado do comum dos mortais... 

Por fim, e isto não me saiu da cabeça durante alguns dias, talvez este romance ganhasse mais ainda se tivesse uma familia italiana implicada... No volume que se segue a "A Queda dos Gigantes", relativo à Segunda Guerra Mundial e intitulado "O Inverno do Mundo" acredito que isso teria um forte impacto na narrativa. 

"A Queda dos Gigantes" é um romance histórico indicado sobretudo para quem gosta de História e, em particular, para aqueles que se interessam pela temática da Primeira Guerra Mundial sem se importarem que a história resvale para o campo de batalha... Para quem "gosta" do que acabei de referir, é perfeito (mesmo sabendo que a perfeição é algo inexistente)!!!



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Crepúsculo em Itália, de D.H. Lawrence



"Crepúsculo em Itália" de D.H.Lawrence
Tinta da China, 2016
286 Páginas

Apesar do título do livro ser "Crepúsculo em Itália", D. H. Lawrence não fala assim tanto acerca de Itália. Melhor ainda, fala, mas foca-se essencialmente nas impressões com que vai ficando durante a viagem que faz do Sul da Alemanha ao Norte de Itália.

O livro é composto por um conjunto de ensaios, escritos por volta da Primeira Guerra Mundial, possibilitando ao leitor captar um pouco do espírito da época. E, nesse sentido, senti algum tipo de preconceito inicial em relação ao modo como fala dos italianos por comparação aos alemães, por exemplo. (Note-se que o autor é inglês.) Porém, esse preconceito acaba por desaparecer à medida que o autor toma contacto com o meio envolvente e o que sucede é que acaba em muito fascinado sempre que viaja para sul... 

Convém também referir que "Crepúsculo em Itália" foca-se mais na paisagem humana, digamos assim, do que propriamente na paisagem física. O que, no meu entender, se trata de um aspecto particularmente interessante porque nos permite apreender melhor e reconstruir a realidade destes países na época.

Gostei, embora admita que estivesse à espera de um pouco mais...


https://www.goodreads.com/review/show/2612109105


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

[Apresentação] Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX, de Marisa Fernandes

"Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX" de Marisa Fernandes
Instituto Universitário Militar/ Fronteira do Caos Editores, 2016
164 Páginas

Lançado no passado dia 24 de Novembro, no Instituto Universitário Militar, este é o primeiro livro em que sou a única autora. E, por razões óbvias, as linhas que se seguem não fazem parte de uma crítica, como as que habitualmente costumo aqui escrever, mas antes de uma apresentação da obra "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX".

Antes de mais, e embora partindo da Dissertação de Mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, defendida em 2010 na Universidade Nova de Lisboa, este livro seguiu agora um rumo independente e adquiriu uma vida própria, tendo já muito pouco do texto original. O tema é o mesmo (as relações entre o Espaço e o Poder na Alemanha entre 1871 e 1945), é certo; o conteúdo, porém, foi completamente reformulado, reflectindo muito do trabalho que tenho vindo a desenvolver desde 2011 (até agora), quando ingressei no Doutoramento em Estudos Estratégicos na Universidade de Lisboa.

Com efeito, a obra associa a História, as Relações Internacionais, a Guerra, a Geopolítica, os Estudos Estratégicos e a Literatura, áreas que, além de me fascinarem, têm requerido muito da minha atenção e dedicação nos últimos anos. Por outro lado, procurei escrevê-lo de forma a poder ser lido por qualquer pessoa, com ou sem formação nestas áreas, sem com isso deixar de lado o rigor e o cuidado necessários e exigidos num trabalho destes.

No que respeita à sua organização, "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX" encontra-se dividido em cinco partes. Exceptuando a introdução, correspondente à primeira parte, e a conclusão, correspondente à quinta parte, o livro tem uma segunda parte intitulada "Em direcção à Geopolítica", uma terceira intitulada  "Friedrich Ratzel, a Alemanha de Wilhelm II e a Primeira Guerra Mundial" e uma quarta intitulada "Karl Haushofer, a Alemanha de Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial", que é também a mais extensa porque é efectivamente depois da Primeira Grande Guerra que se pode falar da Geopolítica (só nascida nos anos vinte do século XX).

*

Na segunda parte ("Em direcção à Geopolítica") abordo não só a complexidade inerente ao acto de definir a Geopolítica, como também apresento uma definição de Geopolítica (partindo da relação entre o Espaço e o Poder, essenciais para este saber, seguindo para o conhecimento do Espaço e depois para a disputa do Poder pelo Espaço, originando a Guerra).

Na terceira parte ("Friedrich Ratzel, a Alemanha de Wilhelm II e a Primeira Guerra Mundial"), começo por abordar a Kleindeutschland [pequena Alemanha] de Otto von Bismarck, uma opção de unificação da Alemanha que, colocando na liderança a Prússia, deixa de lado a Áustria-Hungria. Seguidamente, analiso o pensamento de Friedrich Ratzel e da sua Geografia Política na passagem da Alemanha de Otto von Bismarck para a de Wilhelm II, bem como a Weltpolitik [política mundial] de Wilhelm II, o último Imperador da Alemanha. É de referir que esta parte termina com a Primeira Guerra Mundial e a identificação das convergências e divergências existentes entre as perspectivas de Ratzel e de Wilhelm II para a Alemanha.

Na quarta parte ("Karl Haushofer, a Alemanha de Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial"), começo por me referir à República de Weimar na Alemanha do Pós Primeira Guerra Mundial, abordando os momentos-chave que caracterizaram este período nas relações entre o Espaço e o Poder alemães, a começar pelo Tratado de Versailles, o Diktat.

Depois, debruço-me sobre o nascimento da Zeitschrift für Geopolitik [revista de Geopolítica] e, em seguida, sobre o pensamento de Karl Haushofer  e da sua Geopolítica para a Alemanha. Existe igualmente um capítulo sobre a emergência da Cartografia Sugestiva, antes de entrar na Alemanha de Adolf Hitler.

A partir de 1933, tudo muda: a Escola de Geopolítica passa a ser um instrumento de propaganda ao serviço do Nacional-Socialismo e a Cartografia Sugestiva também, sendo que cada uma destas é objecto de um capítulo próprio. Entretanto, inicia-se a expansão militar da Alemanha que trato no capítulo seguinte e a promoção do caminho para a Guerra, a eliminação e proibição do que o contraria, matéria de outro capítulo ainda.

Com a Segunda Guerra Mundial, os mapas tornaram-se um elemento de justificação da Guerra, como procuro demonstrar em capítulo próprio, sendo que no decorrer do conflito se verifica a extinção da Zeitschrift für Geopolitik (um capítulo) e o afastamento de Karl Haushofer e da familia (outro capítulo). Porque este se trata de um livro de Geopolítica o penúltimo capítulo desta parte é dedicado à concretização espacial (e não só) do Lebensraum [espaço vital] de Hitler. Termino, pois, na linha da lógica adoptada para a terceira parte, com a identificação de convergências e divergências entre as perspectivas de Karl Haushofer e de Adolf Hitler para a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

  *
Efectivamente, este estudo tem como objectivo "conferir maior clareza às relações entre o pensamento, acerca das relações entre o espaço e o poder, e a acção política alemãs, (...), visando uma maior aproximação à realidade da Alemanha do período entre as Grandes Guerras do século XX. Por outro lado, procura-se também contribuir para uma melhor compreensão do que é a Geopolítica, qual a sua importância, e em que contexto é que esta surgiu na Alemanha, almejando, deste modo, quebrar a mística e o tabu que parece estar associada à Geopolítica alemã na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais" (p.4). 

Sem me querer alongar mais, sublinho que a "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX" se inicia com as seguintes palavras de Stefan Zweig, escritor austríaco de origem judia (que acabou por se suicidar durante a Segunda Guerra Mundial no Brasil), que, no meu entender, reflectem no essencial o que foram as relações entre o Espaço e o Poder da Alemanha entre 1871 e 1945:

“O sol brilhava em toda a sua força e plenitude. Ao regressar a casa, reparei de repente na minha própria sombra que me precedia, tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente. Durante todo este tempo, ela nunca mais saiu do meu lado, aquela sombra, pairando, dia e noite, sobre cada um dos meus pensamentos; talvez os seus escuros contornos apareçam também em alguma destas páginas. Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido”
(Stefan Zweig, 2014, pp.507-508).

Boas leituras!

***
Para adquirir o livro:
O livro vai estar à venda no Instituto Universitário Militar - IUM (na Rua de Pedrouços, 1449-027 Lisboa) e há duas formas de o obterem:
1) telefonando, antes de lá irem,para os serviços financeiros (213 002 174) e dizendo que querem ir lá buscar um exemplar (o preço é de 15 euros);
2) ou enviando um e-mail para o sr. Comandante Santos Madureira (madureira.cas@ium.pt), solicitando o envio de um exemplar para a vossa morada. Esse envio será feito à cobrança (no valor de 15 euros + portes).

Se tiverem alguma dúvida ou dificuldade, sintam-se à vontade para me enviar uma mensagem pessoal para marisaasfernandes@gmail.com

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Um Percurso Político, de Thomas Mann



"Um Percurso Político. Da Primeira Guerra Mundial ao Exílio Americano" de Thomas Mann
Bertrand Editora, 2016
205 Páginas



"Um Percurso Político. Da Primeira Guerra Mundial ao Exílio Americano" trata-se de uma selecção de textos políticos de Thomas Mann, cuja organização foi apoiada pelo Goethe-Institut e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão. 

A obra compõe-se de cinco textos, ensaios: "Pensamentos em tempo de Guerra" (1914), "Pensamentos a Propósito da Guerra" (1915), "Da República Alemã" (1922), "Alocução Alemã. Um Apelo à Razão" (1930), "O Meu Irmão Hitler" (1933) e "A Alemanha e os Alemães" (1945), através dos quais Thomas Mann dá o seu testemunho sobre o que entende ser o carácter alemão, a germanidade, as razões do apoio alemão a Adolf Hitler (que ele crítica de toda a forma e feitio, abominando-o sem rondeios e dando origem a uma das partes mais espantosas de "Um Percurso Político"), sem esquecer, claro, o modo como encara a Primeira Grande Guerra e o Tratado de Versailles e a Segunda Grande Guerra.

Com efeito, este livro permite-nos pensar a partir da pena do alemão, Prémio Nobel da Literatura de 1929, aspectos marcantes da História europeia e, sobretudo, alemã, o que é bastante enriquecedor porque é algo que nos falta com frequência... Conhecer como é que os alemães se pensam a si próprios e pensam o mundo!

*
"E é por isso que o afirmo: a melhor, a verdadeira segurança da França é a saúde de alma do povo alemão. O mundo vê bem como a crise geral política e económica afectou esta saúde que, para a Alemanha, se agravou perigosamente com condições de paz insensatas. (...)" [pp. 135 e 136]

https://www.goodreads.com/review/show/1792031358

Amor Entre Guerras, de Sofia Ferros


"Amor Entre Guerras" de Sofia Ferros
Casa das Letras, 2014
335 Páginas



Baseado numa história verídica, a dos bisavós da autora, "Amor Entre Guerras" passa-se na Primeira Guerra Mundial e ainda abrange o período pós Guerra e início da Segunda Guerra Mundial. A narrativa centra-se no jovem médico Miguel, que parte para França para integrar o Corpo Expedicionário Português (CEP), sendo aí que conhece a sua futura esposa, uma francesa defensora da liberdade e dos principios do Comunismo. Desde o momento em que se encontram, pelas circunstâncias da guerra, as suas vidas transformar-se-ão, mas é também a maneira de ser de Alexandrine e as consequências sofridas por um acidente, em Lisboa, que irão ditar o rumo da vida do casal em Lourenço Marques. 

Com efeito, "Amor Entre Guerras" foi uma surpresa para mim, do mesmo modo que o foi o excelente trabalho de pesquisa e redacção desta obra realizado por Sofia Ferros. Tanto quanto pude perceber, esta é a sua primeira obra e que primeira obra...! Irrepreensível. Não há momentos mortos, nem enfadonhos. Às vezes, muitas vezes para ser sincera, é dificil parar de ler porque a leitura é demasiado empolgante para fazer pausas. O modo como a obra termina deixa no ar a possibilidade de uma continuação, que aguardarei com atenção e expectativa. Porque, acreditem, a história promete!

Desde a forma viva como Alexandrine defende a liberdade e a emancipação das mulheres, o modo como se compreende a própria evolução escondida e algo recatada do Comunismo, as referências à cientista Marie Curie, ao modo mal preparado e equipado com que o CEP foi para a Guerra, o próprio clima de repressão e instabilidade vivido em Portugal, assim como o estilo de vida dos portugueses em Moçambique... Tudo torna a história interessante e bem construída em todos os sentidos. 

Além da obra nos permitir evadir, leva-nos igualmente a conhecer um pouco melhor alguns aspectos deste período histórico e a pensar de que modo é que eles poderão ter influenciado e condicionado as vidas das pessoas. Por outro lado, é fácil colocarmo-nos na posição das personagens e num ou noutro momento compreender o porquê de terem tomado esta ou aquela opção. 

Por tudo isto, só posso dizer que gostei muito de "Amor Entre Guerras"!


https://www.goodreads.com/review/show/1791070917


terça-feira, 18 de outubro de 2016

É a Guerra, de Aquilino Ribeiro

"É a Guerra" de Aquilino Ribeiro
Bertrand Editora, 2014
230 Páginas



"É a Guerra" trata-se de um diário escrito por Aquilino Ribeiro, que na época vivia em França já casado com uma alemã (Grete Tiedemann), durante os meses de Agosto e Setembro de 1914, iniciada a Primeira Guerra Mundial. 

Assumindo-se como germanófilo, o autor português observa com olhar crítico não só o comportamento da França em relação à Guerra, como também o modo como os franceses fomentam o ódio contra os alemães e até a forma como as outras nações se comportam umas relativamente às outras. Esta é uma guerra em que os nacionalismos se incendeiam, se confrontam e se ferem sem qualquer cuidado. A ordem e a felicidade está na destruição, no aniquilamento sem mais demoras, como Aquilino faz questão de sublinhar diversas vezes ao longo da obra. 

Interessante também é a leitura que o autor faz da participação portuguesa, do corpo diplomático português em França (e no geral) e dos governantes portugueses, permitindo que compreendamos um dos porquês de ter emigrado e também que conheçamos melhor o seu modo de pensar o mundo, a política e as suas relações. 

Em relação à escrita, a sua leitura não é simples, até porque é caracteristica de Aquilino Ribeiro recorrer com frequência ao uso de regionalismos, sobretudo da Beira Alta, sendo que nesta obra, para além destes, encontramos várias vezes pequenas partes escritas em francês. O seu estilo é irónico, crítico, sarcástico. A língua portuguesa surge, assim, mais trabalhada do que o habitual na maior parte das obras, mas sem exageros. A meu ver é um livro para quem gosta de ler na nossa língua.

Este é o terceiro livro que leio do autor e que mais uma vez gosto. O facto de se tratar de um diário, à semelhança de "Alemanha Ensanguentada", enriquece ainda mais a sua leitura. Trata-se de um testemunho vivo, histórico do início da Primeira Guerra em França, e vale a pena!
*
"Se o homem já era ruim com o semelhante, refinou para tigre, dado que tal bicho ocupe o lugar de honra na escada da ferocidade. Como proclama Clausewitz, a guerra apenas reconhece um meio: a violência. Tudo o que puder empreender de mais fero, de mais inumano, de mais devastador, é recomendável e legítimo. O seu ideal de perfeição reside na hetacombe generalizada. Numa palavra, quanto mais e melhor mata e destrói, mais e melhor está integrada na sua ética. Limitá-la, condicioná-la, é empresa de poetas, quando não de impostores, comparável à de amarrar com cordéis a tempestade na atmosfera. "
[p.144] 
https://www.goodreads.com/review/show/1708584240

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway




"O Adeus às Armas" de Ernest Hemingway
Editora Livros do Brasil, 2011
312 Páginas


"O Adeus às Armas" é uma obra que se pode considerar autobiográfica, na medida que se baseia na experiência de Ernest Hemingway durante a Primeira Guerra Mundial enquanto condutor de ambulâncias, à semelhança do que se verifica com a personagem principal, Frederic Henry. Do mesmo modo, Catherine, a enfermeira que terá uma relação amorosa com Frederic, é inspirada em Agnes von Kurowsky, uma paixão que o autor teve durante a sua permanência em Itália. E é nesta relação e na sua relação com a Grande Guerra que se desenvolve toda a história. 

Apesar de Ernest Hemingway ter recebido o Prémio Nobel da Literatura em 1954, reconheço que só ganhei coragem para pegar neste livro à terceira vez. Não que já o tivesse começado a ler antes, mas porque de todas as vezes que olhava para ele achava que ainda não tinha chegado a sua hora... E o problema residia não na sinopse, que sempre me atraiu, mas na memória que tinha da leitura de "Paris é uma festa"... Que gostei... Com reservas!

A verdade é que a história cativou-me quando a comecei a ler com maior velocidade. Ainda não percebi se sou uma fã da escrita de Hemingway, mas o argumento interessou-me. Grande Guerra, fuga para a Liberdade e, portanto, fuga à Guerra, o Amor e a influência da Guerra neste... E a sua leitura revelou-se uma excelente companhia (e terapia) nestes dias. Tive realmente gosto em ler, ler e ler mais e mais páginas e perceber qual o desfecho daquela relação que se tinha construido na Guerra e por causa dela...!

Para quem também gostar de cinema, aproveito para acrescentar que existe um filme de 1996, de Henry Villard e James Nagel, contando com Chris O'Donnell e Sandra Bullock nos principais papeis, criado a partir da obra e chamado "In Love and War". O trailer pode ser visto aqui:https://www.youtube.com/watch?v=DVEUG...

*
- Eu entendo que temos de levar a guerra até ao fim - disse eu. - Não acabaria pelo facto de um dos lados deixar de combater. Se deixássemos de combater ainda era pior. 
- Pior não podia ser - disse Passini respeitosamente - Não há nada pior que a guerra.
- A derrota é pior. (...)"[p.52]


https://www.goodreads.com/review/show/1759510847?book_show_action=false&from_review_page=1

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A Vida Secreta de Stella Bain, de Anita Shreve




"A Vida Secreta de Stella Bain" de Anita Shreve
Clube do Autor, 2014
256 Páginas


"A Vida Secreta de Stella Bain" de Anita Shreve tem um bom argumento, potencial para ser um muito bom livro, mas na minha perspectiva falha em algumas coisas, nomeadamente nas transições entre capítulos (o último capítulo do livro, por exemplo, parece que nos cai de paraquedas e é demasiado breve, curto, dando a sensação de que a autora quer terminar a história depressa) e na ausência de profundidade/intensidade da história (o passado amoroso da personagem principal parece passar por ela na história, como se nada fosse, dando a sensação de que não terá sido assim tão importante como o leitor poderá ser levado a pensar numa fase inicial, sendo que o próprio desfecho amoroso também parece algo superficial, como se a autora tivesse a necessidade de "arrumar" a vida da personagem de repente). 

Por outro lado, achei muito interessante a forma como a autora, Anita Shreve, aborda o papel do trauma de guerra nas gerações que estiveram directamente envolvidas no combate na Grande Guerra, das mulheres no conflito (trabalhando como pacifistas, quer como enfermeiras/auxiliares de enfermagem, quer ainda como condutoras de ambulâncias) e o modo como as suas vontades/desejos/manifestações eram até aí desconsideradas (vivendo "forçosamente" na dependência das famílias e dos maridos), e da psicanálise/terapia verbal/desenho terapêutico. 


Quanto à escrita em si mesma, Shreve escreve de uma forma bastante acessível e consegue captar a atenção do leitor desde o início sem grande dificuldade... No geral, gostei do que li, mas lá está... Podia ter gostado mais!


*
"«Em Inglaterra, esforçamo-nos por compreender as vítimas de trauma de guerra. No início da guerra, os homens afectados por esta perturbação eram acusados de simular doenças e enviados de volta para o mesmo ambiente que eram incapazes de suportar. Hoje em dia, temos hospitais preparados para estes homens, onde recebem várias formas de tratamento. A perda de memória não é um sintoma invulgar do trauma de guerra; na verdade, estes homens registam perdas de memória que se estendem por dois anos, ou possivelmente mais, uma vez que os homens referidos não a recuperaram ainda. (...)" (Shreve, 2014, p. 200).

https://www.goodreads.com/review/show/1680075934?book_show_action=false

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, de Stefan Zweig



"O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu" de Stefan Zweig
Assírio & Alvim, 2014
508 Páginas


"O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu" trata-se de uma autobiografia da autoria do austriaco Stefan Zweig, versando sobre a sua vida antes da Primeira Guerra Mundial, durante e após a Primeira Guerra Mundial, antes da Segunda Guerra Mundial e durante a mesma. E, por isso mesmo, altamente recomendável por quem se interesse por conhecer um pouco mais sobre este "grande" período histórico, o das Guerras Mundiais.

Zweig fala da mudança de valores que a sociedade atravessa ao longo deste tempo, do quão odiosa é a guerra e, ao mesmo tempo, da sua experiência pessoal no meio disto tudo. Dos seus estados de espírito, das suas amizades com nomes como Sigmund Freud, das suas viagens e, finalmente, do seu sentimento de não pertença a lugar nenhum com a Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos judeus (ele era judeu). Um sentimento que o levaria, mais tarde, a cometer suicidio já no Brasil, terra que o acolheu de braços abertos e que ele muito estimava (afinal, escreveu mesmo um livro sobre o Brasil, "Brasil, país de futuro"). 

A obra termina com as seguintes palavras que, na minha perspectiva, sintetizam na perfeição o seu conteúdo e a vida de Zweig: 
"Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido". 

https://www.goodreads.com/review/show/1236636954