"O Estrangeiro" de Alberto Camus
Livros do Brasil, 2015
96 Páginas
"O Estrangeiro" de Alberto Camus faz parte daquele grupo de livros "estranhos" (e estou a pensar também, por exemplo, em "A Metamorfose" de Kafka) que têm qualquer coisa de genial e, ao mesmo tempo, de bizarro porque uma vez lidos nunca mais saem de nós... e deixam inclusivamente em nós uma certa incredulidade aquando e após a leitura. Dá a sensação de que nos dão até um murro no estômago com aquilo que nos apresentam... Parece que nos oferecem uma espécie de absurdo que, muito embora, pareça à primeira vista algo despropositado, acaba por não o ser.
Aqui o foco é a indiferença da personagem principal Meursault perante a morte, um crime que é cometido só porque sim, e a aceitação inquestionável do seu destino porque nada sente. Ou será que sente? Ou será que essa indiferença é apenas a manifestação de uma terrível solidão num mundo que se apresenta tantas vezes frio e caótico e indiferente ao que se sente?
O que eu mais apreciei neste livro foi deixar-me a pensar em tudo isto... em vários momentos... vários dias depois da leitura. E isso, para mim, é sinónimo de um grande livro... Não em tamanho, porque falamos de um livro de poucas páginas, mas todo ele carregado de significado muito para lá do aparente e da superficialidade. Daí ser um clássico, sem qualquer sombra para dúvidas. Um "incómodo" clássico.
Para terminar, e sem me querer alongar mais, deixo-vos com um excerto final da obra:
"(...)Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido liberta e pronta para tudo reviver. (...) diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio. (...)"
https://www.goodreads.com/review/show/8699795390

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