Mostrar mensagens com a etiqueta Segunda Guerra Mundial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Segunda Guerra Mundial. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

"A Guardiã" de Yael van der Wouden



"A Guardiã" de Yael van der Wouden
Edições Asa, 2024
304 Páginas

"A Guardiã" de Yael van der Wouden pareceu-me uma história algo estranha de uma relação que se desenvolve entre duas mulheres, de forma inesperada e só porque sim... Julgava eu. Uma, intitula-se de "guardiã" da casa e a outra será sua hóspede, mas... nem tudo é o que parece. 

Tendo como fundo profundo as consequências da Segunda Grande Guerra, há donos e ex-donos da casa, judeus à mistura na Holanda. A guardiã da casa talvez não seja quem parece ser à primeira vista. Vários segredos se cruzam e entrecruzam nesta história, envolvendo várias pessoas, e inclusivamente as quatro paredes daquela morada. 

Para mim, a "magia" desta leitura está na descoberta desses segredos e na compreensão da poderosa teia que finamente os esconde e relaciona.  

Gostei, embora não tenha adorado! 


https://www.goodreads.com/review/show/7911027392

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O Inverno do Mundo, de Ken Follett

"O Inverno do Mundo" de Ken Follett
Editorial Presença, 2012
832 Páginas


Comparativamente ao primeiro livro "A Queda dos Gigantes", "O Inverno do Mundo" continua a ser um vício viciante desde o início... Ken Follett "prendeu-me" tanto a atenção que tive de ler este segundo volume da trilogia de forma ainda mais rápida!

Neste livro, o autor concentra-se na Segunda Guerra Mundial e no aparecimento do fascismo no mundo inglês e alemão, abordando igualmente toda a transformação sofrida pela URSS. Extremamente interessante é também o papel que a espionagem assume na narrativa. Está novamente um trabalho de mestre. 

Relativamente à realidade alemã, considero que Follett aborda a mesma na medida certa, sem exagerar nada, sem ser tendencioso (devo dizer que admiro muito esta sua capacidade). Não acho que devesse ter insistido mais na questão do Holocausto até porque o faz de forma suficiente e além disso esta não é uma história situada apenas na Alemanha nazi. E a provar isto mesmo, Follett refere "de forma separada da questão do Holocausto" um programa de "eutanásia" destinado a matar pessoas com doenças mentais e físicas, o Aktion T4. 

As famílias inglesa (e galesa), alemã, norte-americana e russa continuam a evoluir neste volume, agora mais centrado nos filhos das personagens criadas no anterior volume. Muitas mudam de país e associam-se a outras realidades, outras cruzam países por razões privadas ou profissionais e regressam à base. E vale a pena acompanhar esta evolução porque dá para reflectir bastante acerca dos relacionamentos e da própria natureza humana sem floreados, sem melodramas. 

"O Inverno do Mundo" é, tal como o primeiro livro, um romance histórico indicado sobretudo para quem gosta de História, destacando-se aqui a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial (as partes relativas a Pearl Harbor e à invasão alemã da URSS são de salientar, bem como o papel fundamental assumido pela Guerra Aérea). 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Rumo à Liberdade, de Slavomir Rawicz



"Rumo à Liberdade" de Slavomir Rawicz
Editorial Presença, 2012
283 Páginas

Que grande história! Que grande aventura! Que grande coragem!

Gostei muito deste "Rumo à Liberdade" e, uma vez iniciada a fuga, dei comigo a "vivê-la" intensamente e a torcer para que a mesma terminasse bem. 

Há quem duvide da veracidade desta história, mas a verdade é que só quem a escreveu é que sabe efectivamente se algo se passou de facto, o que se passou e como se passou. Algum fundo de verdade haverá sempre. Por outro lado, em ficção (e esteve livro não se encontra catalogado como tal), muito do que se conta e inventa tem como base algo que se conhece ou que se viveu directa ou indirectamente na realidade. 

O homem só sabe verdadeiramente aquilo de que é capaz quando posto à prova e quando sabe que desistir, ao invés de persistir e lutar, significa colocar em causa a sua sobrevivência e... pode significar morrer. É perante o desconhecido da vida que brota, no meu entender, a verdadeira coragem. Neste caso, arriscar uma fuga para a liberdade poderia também ser sinónimo de uma ameaça à sobrevivência não só fruto da potencial ameaça humana (ser outra vez "apanhado" pelos russos), como também da ameaça natural decorrente de condições geográficas especialmente exigentes neste espaço da Terra (da Sibéria à Mongólia terminando nos Himalaias). E, assim sendo, entre poder morrer preso e poder morrer em fuga pela liberdade, Rawicz optou pela última possibilidade e tentou a sua sorte...

Gosto de livros que me inquietam e que me deixam a pensar... Este foi um deles. Desde há uma semana (quando terminei de o ler) que ando a interrogar-me até que ponto a ideia de liberdade não poderá ser em si mesma uma prisão? Até que ponto não se é mais livre preso do que nessa busca, por vezes sedenta e faminta, pela liberdade? Essa perseguição pela liberdade é um esforço de sobrevivência (a vida em "prisão" acaba também por sê-lo, mas sob outras condições)... E a sobrevivência, quando em condições adversas (humanas e geográficas), pode chegar mesmo a ser uma pesada prisão de risco mortal (?!). Tudo se pode perder ali... Numa má escolha, na falta de sorte... Ao mesmo tempo, não será a liberdade uma espécie de ave em relação à qual corremos, corremos e corremos atrás sem nunca a conseguir "agarrar", conquistar? Não será o desejo de liberdade uma insatisfação permanente?! 

Volto ao principio: Que grande história! Que grande aventura! Que grande coragem! E acrescento: que grande livro!

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Die Entdeckung der Currywurst, de Uwe Timm



"Die Entdeckung der Currywurst" de Uwe Timm
DTV, 2018
187 Páginas


Não se deixem enganar pelo título porque, na verdade, esta novela tem pouco de "Die Entdeckung der Currywurst" [A Descoberta do Currywurst]. Se isso é mau? Não, mas Uwe Timm troca-nos as voltas apresentando-nos uma história essencialmente focada na cidade de Hamburgo durante a Segunda Guerra Mundial e na vida de Lena Brücker, a mulher a quem atribui a descoberta deste "prato", durante esse mesmo período. 

A história é interessante porque permite visitar e (re)visitar o horror do bombardeamento a esta cidade - sobre o qual li recentemente em "História Natural da Destruição" de W.G.Sebald -, e o modo silencioso e recalcado como os alemães reagiram ao mesmo, bem como aborda a fragilidade das relações humanas em tempo de Guerra. E no que respeita à fragilidade das relações humanas refiro-me à questão da traição cometida por alguém que fiel aos seus ideais nacional-socialistas denuncia os vizinhos e os "amigos" quando sente, de algum modo, que estes se encontram a "pisar o risco". Refiro-me, de igual modo, àqueles que ao serviço (caso de um militar) desses mesmos ideais decidem abandonar o barco e partir em retirada, fugindo e escondendo-se até que a poeira assente. Refiro-me ainda àquelas situações em que as mulheres comprometidas se acabavam por envolver com outros homens na ausência daquele que amavam e perante a incerteza do seu regresso com vida a casa. Até que ponto cada uma destas situações é na prática uma traição? Até que ponto em que a lealdade a si próprios e aos outros é colocada em causa? Uwe Timm leva-nos a pensar nisto e no modo como a Guerra consegue volver e revolver tudo. 

O livro não é de leitura fácil, sobretudo porque surgem palavras abreviadas próprias do alemão falado e nem sempre conhecidas por aqueles que não são nativos nesta mesma língua. Este foi o grande desafio com que me deparei ao longo das suas páginas, mas a experiência acabou por ser positiva; consegui aprender outras coisas e isso vale sempre a pena. 

Relativamente ao Currywurst, não fiquei a saber muito, muito mais daquilo que já sabia. Não há consenso quanto à identidade de quem o terá produzido pela primeira vez. Da minha parte, tenho a certeza de que a primeira vez que provei este prato de "fast-food" alemão foi em Berlim, há uns 9 anos atrás. Primeiro olhei com desconfiança, e estranheza, mas depois de provar prometi a mim mesma que voltaria outra vez à cidade e que quando o fizesse voltaria a comer aquilo. E eu não sou propriamente fã daqueles molhos... que não como habitualmente, mas comer Currywurst significa saborear um pouco da cultura alemã e "experimentar" Berlim.


terça-feira, 30 de maio de 2017

A Passo de Caranguejo, de Günter Grass


"A Passo de Caranguejo" de Günter Grass
Casa das Letras, 2003
221 Páginas

Já li alguns livros de Günter Grass (talvez quase, senão mesmo, metade daqueles que publicou) e confesso que nunca fui muito sua fã. Parece-me que tem muito ódio, raiva e outros sentimentos mal resolvidos. E sempre fiquei com a sensação de que a sua relação com a Alemanha está envolta em grande ressentimento. Mas que a Alemanha? Pois, a actual. 

Então e que problema tem isso? O problema é que Grass tem um passado nas SS, ou seja, participou na Alemanha de Hitler, essa Alemanha do passado, de que ainda há culpa e medo. Daí que eu sinta uma certa contrariedade em Günter Grass. Aliás, isso encontra-se igualmente presente em "A Passo de Caranguejo", obra que ultrapassou as minhas expectativas de forma positiva.

A história concentra-se no afundamento do navio, "Wilhelm Gustloff", por um submarino russo em 1945, ainda na Segunda Guerra Mundial, e na vida de Paul (um jornalista e o narrador da história que nasce no mesmo dia em que Adolf Hitler subiu ao poder, em 1933, sentindo-se muito mal com isso), cuja mãe viajava neste navio e que, segundo percebi, nasceu aquando deste naufrágio, que terá levado à morte cerca de 10.000 passageiros. Melhor dizendo: concentra-se em Paul, na sua mãe e no filho de Paul. 
A obra leva-nos a pensar também na questão judaica, na culpa por inevitabilidade, na situação da Polónia "ensanduichada" entre a Alemanha e a Rússia, entre o Nacional-Socialismo e o Comunismo, ... 

É uma leitura interessante. Deixa-nos a pensar no passado recente da História europeia. E ajudou-me, de algum modo, a reconciliar-me, por um lado, com Günter Grass (estou a ler a sua auto-biografia, "Descascando a cebola" e ainda estou a gostar mais) e a sua obra e, pelo outro, com o próprio acto de ler como um acto de gostar, que com o cansaço, saturação e alguma desmotivação, me visitou umas quantas vezes no passado mês de Maio...! Por isso, valeu a pena a sua espera prolongada, desde 2013, na minha estante. Chegou a altura certa. Chegou a altura dele (para mim).

https://www.goodreads.com/review/show/2009782977

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich

"A Guerra não tem rosto de mulher" de Svetlana Alexievich
Elsinore, 2016
392 Páginas



Em "A guerra não tem rosto de mulher", Svetlana Alexievich aborda a guerra do ponto de vista das mulheres. Mulheres russas que, na Segunda Guerra Mundial, foram combater os alemães, aquando da invasão da União Soviética em 1941, deixando de lado os vestidos femininos, os sapatos de salto, as tranças que tiveram de cortar e a maquilhagem. Mulheres que, tantas vezes, nem maiores de idade eram e partiam para a guerra porque queriam a Vitória, queriam defender e ajudar a mãe, o pai e os irmãos e as irmãs. 

Este é um livro de vozes. Um livro de testemunhos. Pleno de emoções. Pleno de sensibilidade. Pleno de força. Pleno dos horrores de quem participou directamente na guerra, sem intermediários. Muitas destas vidas ficaram condicionadas para sempre depois da guerra: fisicamente, psicologicamente e até do ponto de vista familiar. Há quem nunca recupere das feridas deixadas por todo o sofrimento passado e lhe custe falar, testemunhar. Há quem tenha ultrapassado tudo isso. Há de tudo. 

Gostei muito de ler este livro. Além de estar extremamente bem escrito e justificar sem qualquer dúvida a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Svetlana Alexievich em 2015, este livro trouxe-me algo de novo: a leitura da guerra pelas mulheres. E note-se que eu leio bastante sobre a guerra (faz parte do meu trabalho), pelo que não tenho qualquer dúvida em dizer que quem quiser compreender o que foram as duas grandes guerras totais do século XX (a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais) tem de ler este livro, a par de "A Guerra como Experiência Interior" de Ernst Jünger e "Os Órgãos de Estaline" de Gert Ledig. 

https://www.goodreads.com/review/show/1865955098


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

[Apresentação] Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX, de Marisa Fernandes

"Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX" de Marisa Fernandes
Instituto Universitário Militar/ Fronteira do Caos Editores, 2016
164 Páginas

Lançado no passado dia 24 de Novembro, no Instituto Universitário Militar, este é o primeiro livro em que sou a única autora. E, por razões óbvias, as linhas que se seguem não fazem parte de uma crítica, como as que habitualmente costumo aqui escrever, mas antes de uma apresentação da obra "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX".

Antes de mais, e embora partindo da Dissertação de Mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, defendida em 2010 na Universidade Nova de Lisboa, este livro seguiu agora um rumo independente e adquiriu uma vida própria, tendo já muito pouco do texto original. O tema é o mesmo (as relações entre o Espaço e o Poder na Alemanha entre 1871 e 1945), é certo; o conteúdo, porém, foi completamente reformulado, reflectindo muito do trabalho que tenho vindo a desenvolver desde 2011 (até agora), quando ingressei no Doutoramento em Estudos Estratégicos na Universidade de Lisboa.

Com efeito, a obra associa a História, as Relações Internacionais, a Guerra, a Geopolítica, os Estudos Estratégicos e a Literatura, áreas que, além de me fascinarem, têm requerido muito da minha atenção e dedicação nos últimos anos. Por outro lado, procurei escrevê-lo de forma a poder ser lido por qualquer pessoa, com ou sem formação nestas áreas, sem com isso deixar de lado o rigor e o cuidado necessários e exigidos num trabalho destes.

No que respeita à sua organização, "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX" encontra-se dividido em cinco partes. Exceptuando a introdução, correspondente à primeira parte, e a conclusão, correspondente à quinta parte, o livro tem uma segunda parte intitulada "Em direcção à Geopolítica", uma terceira intitulada  "Friedrich Ratzel, a Alemanha de Wilhelm II e a Primeira Guerra Mundial" e uma quarta intitulada "Karl Haushofer, a Alemanha de Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial", que é também a mais extensa porque é efectivamente depois da Primeira Grande Guerra que se pode falar da Geopolítica (só nascida nos anos vinte do século XX).

*

Na segunda parte ("Em direcção à Geopolítica") abordo não só a complexidade inerente ao acto de definir a Geopolítica, como também apresento uma definição de Geopolítica (partindo da relação entre o Espaço e o Poder, essenciais para este saber, seguindo para o conhecimento do Espaço e depois para a disputa do Poder pelo Espaço, originando a Guerra).

Na terceira parte ("Friedrich Ratzel, a Alemanha de Wilhelm II e a Primeira Guerra Mundial"), começo por abordar a Kleindeutschland [pequena Alemanha] de Otto von Bismarck, uma opção de unificação da Alemanha que, colocando na liderança a Prússia, deixa de lado a Áustria-Hungria. Seguidamente, analiso o pensamento de Friedrich Ratzel e da sua Geografia Política na passagem da Alemanha de Otto von Bismarck para a de Wilhelm II, bem como a Weltpolitik [política mundial] de Wilhelm II, o último Imperador da Alemanha. É de referir que esta parte termina com a Primeira Guerra Mundial e a identificação das convergências e divergências existentes entre as perspectivas de Ratzel e de Wilhelm II para a Alemanha.

Na quarta parte ("Karl Haushofer, a Alemanha de Adolf Hitler e a Segunda Guerra Mundial"), começo por me referir à República de Weimar na Alemanha do Pós Primeira Guerra Mundial, abordando os momentos-chave que caracterizaram este período nas relações entre o Espaço e o Poder alemães, a começar pelo Tratado de Versailles, o Diktat.

Depois, debruço-me sobre o nascimento da Zeitschrift für Geopolitik [revista de Geopolítica] e, em seguida, sobre o pensamento de Karl Haushofer  e da sua Geopolítica para a Alemanha. Existe igualmente um capítulo sobre a emergência da Cartografia Sugestiva, antes de entrar na Alemanha de Adolf Hitler.

A partir de 1933, tudo muda: a Escola de Geopolítica passa a ser um instrumento de propaganda ao serviço do Nacional-Socialismo e a Cartografia Sugestiva também, sendo que cada uma destas é objecto de um capítulo próprio. Entretanto, inicia-se a expansão militar da Alemanha que trato no capítulo seguinte e a promoção do caminho para a Guerra, a eliminação e proibição do que o contraria, matéria de outro capítulo ainda.

Com a Segunda Guerra Mundial, os mapas tornaram-se um elemento de justificação da Guerra, como procuro demonstrar em capítulo próprio, sendo que no decorrer do conflito se verifica a extinção da Zeitschrift für Geopolitik (um capítulo) e o afastamento de Karl Haushofer e da familia (outro capítulo). Porque este se trata de um livro de Geopolítica o penúltimo capítulo desta parte é dedicado à concretização espacial (e não só) do Lebensraum [espaço vital] de Hitler. Termino, pois, na linha da lógica adoptada para a terceira parte, com a identificação de convergências e divergências entre as perspectivas de Karl Haushofer e de Adolf Hitler para a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

  *
Efectivamente, este estudo tem como objectivo "conferir maior clareza às relações entre o pensamento, acerca das relações entre o espaço e o poder, e a acção política alemãs, (...), visando uma maior aproximação à realidade da Alemanha do período entre as Grandes Guerras do século XX. Por outro lado, procura-se também contribuir para uma melhor compreensão do que é a Geopolítica, qual a sua importância, e em que contexto é que esta surgiu na Alemanha, almejando, deste modo, quebrar a mística e o tabu que parece estar associada à Geopolítica alemã na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais" (p.4). 

Sem me querer alongar mais, sublinho que a "Geopolítica da Alemanha: Ratzel, Haushofer e as duas Guerras Mundiais do Século XX" se inicia com as seguintes palavras de Stefan Zweig, escritor austríaco de origem judia (que acabou por se suicidar durante a Segunda Guerra Mundial no Brasil), que, no meu entender, reflectem no essencial o que foram as relações entre o Espaço e o Poder da Alemanha entre 1871 e 1945:

“O sol brilhava em toda a sua força e plenitude. Ao regressar a casa, reparei de repente na minha própria sombra que me precedia, tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente. Durante todo este tempo, ela nunca mais saiu do meu lado, aquela sombra, pairando, dia e noite, sobre cada um dos meus pensamentos; talvez os seus escuros contornos apareçam também em alguma destas páginas. Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido”
(Stefan Zweig, 2014, pp.507-508).

Boas leituras!

***
Para adquirir o livro:
O livro vai estar à venda no Instituto Universitário Militar - IUM (na Rua de Pedrouços, 1449-027 Lisboa) e há duas formas de o obterem:
1) telefonando, antes de lá irem,para os serviços financeiros (213 002 174) e dizendo que querem ir lá buscar um exemplar (o preço é de 15 euros);
2) ou enviando um e-mail para o sr. Comandante Santos Madureira (madureira.cas@ium.pt), solicitando o envio de um exemplar para a vossa morada. Esse envio será feito à cobrança (no valor de 15 euros + portes).

Se tiverem alguma dúvida ou dificuldade, sintam-se à vontade para me enviar uma mensagem pessoal para marisaasfernandes@gmail.com

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque


"Uma Noite em Lisboa" de Erich Maria Remarque
Edições Saída de Emergência, 2010
218 Páginas


Erich Maria Remarque dá-nos em "Uma Noite em Lisboa" um retrato exímio do que é ser refugiado, mas sobretudo do que é ser refugiado no período do Nacional-Socialismo, do que é ser perseguido pelas forças do poder e ser despojado dos seus direitos de cidadão. 

A obra escrita nos anos sessenta por um autor alemão, acusado de ser descendente de judeus franceses e tendo tido os seus livros queimados e banidos pelo regime, constitui-se como um inolvidável testemunho da época a que se refere, a da Segunda Guerra Mundial e do desejo de muitos perseguidos (judeus e não judeus) de chegarem a Lisboa e partirem para os EUA, terra da liberdade, mantendo a sua actualidade ainda hoje. 

Esta obra, em que parte da história ocorre e termina mesmo em Lisboa (o que sublinha a importância da cidade portuguesa neste período), é daquelas que têm mesmo de ser lidas não só para se compreender um passado mais recente, como também o presente, sem perder de vista o futuro que está para chegar...! 

*
"De dia Lisboa tem uma qualidade ingénua e teatral que encanta e cativa, mas à noite é uma cidade de conto de fadas, descendo em terraços iluminados até ao mar, como uma senhora de vestes festivas a ir ao encontro do seu misterioso amante." (p.98)

https://www.goodreads.com/review/show/1803123928

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Gosto Proibido do Gengibre, de Jamie Ford


"O Gosto Proibido do Gengibre" de Jamie Ford
Porto Editora, 2012
316 Páginas

"O Gosto Proibido do Gengibre" é um livro com uma história muito bonita... 

O autor, Jamie Ford, alterna dois momentos distintos da história ao longo do livro: o passado, aquando da Segunda Guerra Mundial, e o presente, relativo ao ano de 1986, sendo que esta alternância confere ritmo e aumenta, na minha perspectiva, o interesse na história, que remonta a um período algo conturbado da história mundial, da história norte-americana e da história japonesa. 

Um jovem americano de origem chinesa (mas que o pai faz questão que não esqueça jamais o facto de que é chinês, obrigando-o a exibir um crachá diariamente), Henry, conhece uma jovem americana de origem japonesa, Keiko, de quem se torna amigo e com quem desenvolve o gosto pela audição de música jazz. 

Após o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, situada no Pacífico, os japoneses - nos quais se encontram Keiko - foram enviados para campos de internamento, desapossados dos seus bens, dos seus amigos (não japoneses) e das suas rotinas.

Este livro conta, assim, um episódio pouco conhecido da história dos EUA, mas negro e incompreensível... O que é que os japoneses (entre os quais se contavam crianças, note-se) que viviam nos EUA, muitos dos quais desde sempre, outros tendo aí nascido tinham a ver com o ataque a Pearl Harbor...? Para se verem impedidos de viver a sua vida livremente? O mundo aponta sempre o dedo às atrocidades que os alemães (nazis) cometeram contra os judeus, mas infelizmente o mundo também está salpicado de histórias destas... Um pouco diferentes é certo, mas igualmente tristes, lamentáveis, condenáveis, vergonhosas...! 

Isto irá implicar com a relação de Henry e Keiko, tendo consequências para o seu futuro, para o qual a intervenção fanática do pai de Henry também irá contribuir de forma determinante. Esta história é, como disse, muito bonita e apesar de toda a odisseia (que não é forçada e é perfeitamente enquadrada no contexto) tem um final doce, digamos assim, levando-nos a pensar mesmo que "depois da tempestade vem a bonança". 

*
https://www.goodreads.com/review/show/1802420822

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Um Percurso Político, de Thomas Mann



"Um Percurso Político. Da Primeira Guerra Mundial ao Exílio Americano" de Thomas Mann
Bertrand Editora, 2016
205 Páginas



"Um Percurso Político. Da Primeira Guerra Mundial ao Exílio Americano" trata-se de uma selecção de textos políticos de Thomas Mann, cuja organização foi apoiada pelo Goethe-Institut e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão. 

A obra compõe-se de cinco textos, ensaios: "Pensamentos em tempo de Guerra" (1914), "Pensamentos a Propósito da Guerra" (1915), "Da República Alemã" (1922), "Alocução Alemã. Um Apelo à Razão" (1930), "O Meu Irmão Hitler" (1933) e "A Alemanha e os Alemães" (1945), através dos quais Thomas Mann dá o seu testemunho sobre o que entende ser o carácter alemão, a germanidade, as razões do apoio alemão a Adolf Hitler (que ele crítica de toda a forma e feitio, abominando-o sem rondeios e dando origem a uma das partes mais espantosas de "Um Percurso Político"), sem esquecer, claro, o modo como encara a Primeira Grande Guerra e o Tratado de Versailles e a Segunda Grande Guerra.

Com efeito, este livro permite-nos pensar a partir da pena do alemão, Prémio Nobel da Literatura de 1929, aspectos marcantes da História europeia e, sobretudo, alemã, o que é bastante enriquecedor porque é algo que nos falta com frequência... Conhecer como é que os alemães se pensam a si próprios e pensam o mundo!

*
"E é por isso que o afirmo: a melhor, a verdadeira segurança da França é a saúde de alma do povo alemão. O mundo vê bem como a crise geral política e económica afectou esta saúde que, para a Alemanha, se agravou perigosamente com condições de paz insensatas. (...)" [pp. 135 e 136]

https://www.goodreads.com/review/show/1792031358

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Suite Francesa, de Irène Némirovsky

"Suite Francesa" de Irène Némirovsky
Publicações Dom Quixote, 2015
579 Páginas


"Suite Francesa" é um romance de Irène Némirovsky, inacabado, mas cuja mensagem passagem completa: os estados, os sentimentos e as angústias que a ocupação alemã de França durante a Segunda Guerra Mundial causou. 

Constituída por dois livros (“Tempestade em Junho”, relatando a fuga de vários franceses à chegada aos alemães, e “Dolce”, mais concentrado na vida de uma aldeia já na presença dos alemães e na relação estabelecida entre estes e os locais) em vez dos cinco idealizados, Némirovsky queria que esta sua obra tivesse cerca de 1000 páginas; ficou-se, todavia, pelas 500 e poucas, devido à sua prisão em Julho de 1942 e sua consequente morte, um mês depois, em Auschwitz. Ucraniana de origem judaica, Némirovsky vinha de uma família abastada que chegou a Paris, em 1919, para fugir às consequências da revolução de 1917 na Rússia Soviética. Trabalhou como escritora até ao momento da sua prisão, que não se conseguiu evitar. A obra acabaria por ser publicada posteriormente graças a uma das suas duas filhas, Denise Epstein (http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/10023679/Denise-Epstein.html  e http://www.express.co.uk/entertainment/films/563937/Suite-Francaise-author-Irene-Nemirovsky-Auschwitz-tragedy ), e receberia o Prémio Renaudot em 2004.

Em Portugal, várias das suas obras encontram-se publicadas pela Relógio D'Água, embora "Suite Francesa", entretanto adaptada para filme (ver trailer aqui: https://www.youtube.com/watch?v=azoDJwdhaWI ), tenha sido publicada pela Dom Quixote. Mais do que um romance histórico, esta obra é um romance escrito na e sobre a História, já que a autora vive no período abordado e ao que parece também teve de dar alojamento a militares alemães na sua casa. "Suite Francesa" é, por isso mesmo, uma história viva, porque ainda que ficcionada pela sua autora, baseia-se na experiência desta relativamente à ocupação nazi de França, estando plena de realismo. É escrita durante a Segunda Guerra Mundial e sobre ela, testemunhando os horrores da Guerra, sem os mitigar ou atenuar.

A sua escrita é completa, pensada, nada superficial. O leitor lê e consegue sentir o mesmo que as personagens, consegue colocar-se no lugar delas, pensar como elas e reflectir sobre isso. Némirovsky queria que "Suite Francesa" fosse cinematográfica e conseguiu. Toda a obra parece um filme, sendo que ainda que não tenha sido acabada, isso não impede a compreensão do que foi a chegada e a permanência dos alemães em França nos anos 40: chegavam e faziam-se hóspedes dos franceses sem mais nem mais, sendo que, muitas vezes, isso acabava por criar problemas entre os casais ao originar relacionamentos entre militares alemães e mulheres francesas (casadas ou não), que depois da Guerra terminar acabariam por sofrer nas mãos dos próprios franceses, acusadas de serem “colaboradoras horizontais” (alguns exemplos em imagem poderão ser encontrados aqui http://www.ideafixa.com/historia-as-colaboradoras-nazistas-da-segunda-guerra-mundial/ ). Penso, pois, que é por causa deste aspecto da ocupação alemã que a obra se chama “Suite Francesa”.

Face a tudo isto, só posso recomendar a leitura da obra…! 
*
"Sabemos muito bem que o ser humano é complexo, múltiplo, dividido, cheio de surpresas, mas é preciso o tempo da guerra ou grandes mudanças para o vermos. É o espectáculo mais apaixonante e terrível, pensou ainda; o mais terrível por ser o mais verdadeiro; não podemos gabar-nos de conhecer o mar sem o ter visto tanto em tempos de bonança como em tempos de tempestade. Só quem observou os homens e as mulheres numa época como esta é que os conhece verdadeiramente, pensou. Só esse se conhece a si próprio." (Némirovsky, 2015, p.508)

https://www.goodreads.com/review/show/1680084744?book_show_action=false


quinta-feira, 24 de março de 2016

Os Órgãos de Estaline, de Gert Ledig

"Os Órgãos de Estaline" de Gert Ledig
Ulisseia, 2005
168 Páginas


"Os Órgãos de Estaline" corresponde a um romance do autor alemão, Gert Ledig, sobre o cerco de Leninegrado, ocorrido entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944 (ao longo de 900 dias) durante a Segunda Guerra Mundial. Ledig participou neste cerco, tendo sido ferido em 1942, e é com base nesta sua experiência que decidiu escrever a presente obra. Ainda relativamente a Leninegrado importa referir que o cerco se enquadrou no âmbito da Operação alemã Barbarossa, destinada à invasão da União Soviética, onde se encontrava para Adolf Hitler o perigo bolchevique e, também, a questão por resolver dos judeus. Leninegrado, outrora denominada de São Petersburgo (até 1924, quando teve o seu nome alterado pelo regime bolchevique), fora uma sede de "esplendor imperial", capital do Império Russo, simbolo da vitalidade política, administrativa e cultural russa, bem como sendo o centro militar mais importante, característica que conservava aquando da Segunda Guerra Mundial. Era em Leninegrado que se encontravam as maiores fábricas de armamento e também o suporte da importante Frota do Báltico. Por outro lado, esta era igualmente um centro de revolução política e o berço do bolchevismo, sendo um alvo essencial para Hitler.


Apesar das suas 168 páginas, a leitura de "Os Órgãos de Estaline" é densa, como densas são as descrições do que se passa no campo de batalha, do que pensam e sentem aqueles homens que matam outros homens e perdem camaradas que tinham tudo para ter uma vida longa pela frente senão estivessem mandados pela cegueira política e ideológica. Ledig tem momentos que lembra a obra do também alemão Ernest Jünger, intitulada "Der Kampf als inneres Erlebnis"["A Guerra como Experiência Interior"], por escrever e descrever de forma tão realista e vivida a Guerra, mas também pela referência frequente que faz às trincheiras; depois fala dos tanques, as "panelas de aço sujas" (Ledig, 2005, p.52), tipicos da "Blitzkrieg" alemã e sublinha o fanatismo cego e mesquinho com que os alemães tentam avançar, bem mais caracteristico da Segunda Guerra Mundial do que da Primeira Guerra Mundial. A burocracia bloqueadora também não é esquecida e surge presente em plena Guerra, quando o que está em causa se pode resumir fundamentalmente a uma questão de vida ou de morte. 


Há, porém, alturas em que o leitor se sente meio perdido na narrativa, já que Ledig salta do lado russo para o lado alemão de uma forma algo confusa, avançando de uma personagem para a outra sem que isso compreenda devidamente. De igual modo, parece que há personagens cujo desfecho de vida não se conhecerá... E que aparecem e desaparecem, como um relâmpago num dia de temporal, na história.


No geral, a obra é interessante, sendo um clássico da Literatura Contemporânea e da Literatura de Guerra alemã. Ainda que se trate de um romance, "Os Órgãos de Estaline" acaba por se constituir, devido à experiência do seu autor, num testemunho contra a ideia e a realidade da Guerra!


*
"E foi andando cada vez mais devagar. Valia a pena renegar o medo. Agora, que sabia o suficiente, já não precisava de correr para salvar a vida. Quer lhe fossem concedidos alguns anos ou um só dia... para que serviria isso?
Finalmente, chegou a bala. Não lhe fez doer. Somente uma ligeira pancada nas costas. O outeiro, o poste desfeito pelas explosões, o vermelho do céu mergulharam nas trevas. Ele caiu para dentro de uma cratera, com a cara voltada para a terra. Correu-lhe água para a boca. O seu último pensamento foi: É isto a justiça?" [Ledig, 2005, p. 152]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1589261836

terça-feira, 22 de março de 2016

Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi, de Hélène Berr


"Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi" de Hélène Berr
Publicações Dom Quixote, 2008
244 Páginas


Escrito por uma jovem francesa judia de vinte e poucos anos, esta obra encontra-se dividida em três anos: 1942, 1943 e 1944. Pelo meio, podemos encontrar várias fotografias de Hélène Berr, a autora deste diário que ambicionava vir a ser professora na Sorbonne onde havia estudado Literatura Inglesa (o que se acaba por reflectir na própria forma - por vezes, um tanto ao quanto, requintada - como o texto está escrito), bem como algumas notas de Mariette Job (responsável pela publicação), alguns dados sobre a família abastada de Hélène (talvez por isso mesmo apenas seria presa em 1944) e uma lista das leituras que fez e mencionou ao longo das várias entradas deste seu diário. 

"Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi" sugere no primeiro ano, o de 1942, uma leitura algo irregular. A dada altura as entradas são telegráficas, denunciando, muito provavelmente, o dificil e complexo estado de alma que vive na altura. A leitura torna-se mais interessante e, no meu entender, mais complexa quando chegamos aos anos de 1943 e 1944. No ano de 1944, e cada vez mais próxima da prisão que suspeitava vir a acontecer, Hélène demonstra uma força incrivel através das suas palavras. Vivendo em Aubergenville, no Norte de França e não muito longe de Paris, quer Hélène quer a sua familia tiveram a possibilidade de fugir, mas não quiseram fazê-lo e ousaram permanecer corajosamente (com todas as implicações que isso poderia ter) no seu país até ao fim...

Comparativamente aos outros diários que tenho lido sobre o tema do Holocausto, este distingue-se por ter sido escrito por uma jovem adulta, com formação superior, e de nacionalidade francesa, possibilitando uma maior compreensão do modo como a França viveu a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, como lidou com a questão dos judeus, enviando-os primeiramente e com o apoio das próprias autoridades francesas para um campo de internamento localizado em Drancy (próximo de Paris) e, posteriormente, para Auschwitz. Recomendo, pois trata-se de uma visão diferente. Não é a mesma coisa ler o Holocausto e a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial pelos olhos de uma criança e pelos olhos de uma adulta! Por outro lado, afigura-se igualmente importante compreender os aspectos convergentes e divergentes consoante a nacionalidade (polaca, checa, francesa, ...) de quem os escreveu, de forma a conseguir ter uma visão tão ampla e profunda quanto possível do que se passou neste complexo período da História.


*

"«O que quer, minha senhora? Cumpro o meu dever!»
Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização. 
Os alemães, esses, há uma geração que se trabalha no seu reembrutecimento (é um retorno periódico). Neles toda a inteligência está morta. Mas podia esperar-se que, entre nós, isso fosse diferente. (...)" [Berr, 2008, p.176]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1580185589

segunda-feira, 21 de março de 2016

Lição de Tango, de Sveva Casati Modignani



"Lição de Tango" de Sveva Casati Modignani
Edições Asa, 2009
448 Páginas

Dos quatro livros (nos quais este se inclui), que já li de Sveva Casati Modignani, este é sem dúvida o melhor. O mais bonito. O mais intenso. E, no meu entender, o mais completo. Desde à forma como está escrito e estruturado até à própria história em si mesma. Ou histórias porque aquilo a que o leitor assiste é ao cruzamento de duas histórias diferentes: a de Matilde, uma idosa que vive sozinha e que não aceita abandonar o sotão onde vive, e a de Giovanna, uma mulher na casa dos quarenta anos, antiquária, casada e mãe de uma filha adolescente. 

Aparentemente sem nada em comum, estas duas vidas partilham na verdade um ponto muito importante entre si, a perda de uma mãe e o abuso sexual na infância, capaz de originar dois modos diferentes de encarar a vida, o amor e a relação entre um homem e uma mulher depois disso. E é o encontro de Matilde com Giovanna que vai fazer esta última redescobrir-se, metamorfosear-se e olhar para o sentido da vida com outros olhos, sobretudo depois de conhecer a belíssima história de vida de Matilde. No meio, percebe-se o porquê do título da obra ser "Lição de Tango" e ainda se conhece uma imagem da Itália pobre, da Itália sob Benito Mussolini e sob a Segunda Guerra Mundial, e da Itália da Máfia. 

Este é daqueles livros que se devora rapidamente, isto é, as páginas passam-se com a pressa de conhecer todos os contornos da história da vida passada de Matilde e da vida passada e presente de Giovanna, mas não e nunca porque a história seja desinteressante. E chega-se ao fim a pensar: e agora? Não há mais? Como assim?! Recomendo, portanto, vivamente!

*
"- O Tango é violência- afirmou ele. - Um homem e uma mulher procuram-se aflitivamente e, assim que se encontram, fogem um do outro. Voltam a juntar-se e deixam-se de novo. É a dança de um amor sem fim." [Modignani, 2009, p. 359]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1580179963

terça-feira, 15 de março de 2016

Na Montanha de Hitler, de Irmgard A. Hunt

"Na Montanha de Hitler" de Irmgard A. Hunt
Editorial Bizâncio, 2014
319 Páginas

Em "Na Montanha de Hitler" é contada a infância e adolescência de Irmgard, uma alemã ariana, passada em Berchtesgaden (situada nos Alpes Bávaros) perto do retiro de Hitler. A autora escreve igualmente sobre as origens da sua família materna e paterna, referindo-se igualmente às dificuldades que os seus pais e respectivas familias passaram durante a Primeira Guerra Mundial, de forma a que o leitor compreenda toda a evolução e contexto da Alemanha aquando da chegada de Adolf Hitler ao poder. É, contudo, sobretudo durante o período em que Hitler se encontra no poder e já sobre a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial que a obra mais incide. 


Perdas, desconhecimento, sofrimento em silêncio, fanatismo, obediência cega, culpa e desejo de recomeçar são abordados com mestria pela autora, que aqui se limita a escrever sobre o que viveu e o que sentiu na realidade. Irmgard viveu a infância e o inicio de adolescência numa paisagem perfeita, mas ensombrada pelo Nacional-Socialismo e, depois, também pela guerra que só numa fase final atinge a sua cidade.


Não tendo sido escrita na época, a obra está cheia de fotografias daqueles tempos, sobre os quais a autora escreve e descreve com todo o detalhe recorrendo às suas memórias, mas também às memórias de vários familiares que consigo viveram. "Na Montanha de Hitler" prima acima de tudo por retratar os primeiros anos de vida de uma alemã (não judia), perfeitamente comum, vividos mesmo ao lado de Hitler e da elite Nacional-Socialista. E leva-nos a pensar em como o sentimento de culpa pode ser, por vezes, profundamente injusto... Porque houve vitimas em ambas as partes: alemães e não alemães; arianos e judeus.

https://www.goodreads.com/review/show?id=1559985164

segunda-feira, 7 de março de 2016

O Diário de Helga, de Helga Weiss



"O Diário de Helga" de Helga Weiss
Bertrand Editora, 2013
215 Páginas

"O Diário de Helga" corresponde a uma obra surgida a partir dos caderninhos que Helga Weiss utilizou para descrever os seus dias durante a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, o que sofreu na pele sendo judia na sequência da ocupação da Checoslováquia pelo III Reich alemão em 1939. 

A obra encontra-se dividida em três partes: uma sobre a vida de Helga quando ainda vivia em Praga com o pai que trabalhava num banco e a mãe modista; uma relativa ao período em que esteve em Terezín, uma cidade também localizada na Checoslováquia; e uma em que se refere à sua passagem por Auschwitz, Freiberg e Mauthausen, onde passa o período mais negro da sua existência enquanto judia perseguida e com a ameaça sempre em mente da morte nas câmaras de gás. 

Tratando-se de um relato verídico, o diário de Helga começa quando esta tem ainda cerca de 9 anos e terminará já quando esta está com cerca de 16 anos em 1945, a tão desejada e dificil paz chega finalmente e ela consegue regressar com vida à sua cidade natal, Praga. Algumas páginas estão salpicadas de desenhos (uns a preto e branco e outros a cores) que Helga fez durante o tempo em que esteve presa nestes campos, mas sobretudo em Terezín, onde apesar de tudo ainda conseguiu (graças ao pai) ter melhores condições. Helga relatou aquilo por que passou pela escrita e pelos desenhos sempre muito esclarecedores sobre a realidade que experimentava. 

Enfim, um testemunho vivido cuja leitura recomendo vivamente porque continua a ser importante conhecer a História e, acima de tudo, tendo a possibilidade de o fazer a partir de uma experiência real sobre um período tão negro da História da Humanidade, que importa não esquecer para que não se repita...


Para quem tiver curiosidade em conhecer a autora, poderá assistir a uma entrevista dela aqui:

*
https://www.goodreads.com/review/show?id=1568675796

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, de Stefan Zweig



"O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu" de Stefan Zweig
Assírio & Alvim, 2014
508 Páginas


"O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu" trata-se de uma autobiografia da autoria do austriaco Stefan Zweig, versando sobre a sua vida antes da Primeira Guerra Mundial, durante e após a Primeira Guerra Mundial, antes da Segunda Guerra Mundial e durante a mesma. E, por isso mesmo, altamente recomendável por quem se interesse por conhecer um pouco mais sobre este "grande" período histórico, o das Guerras Mundiais.

Zweig fala da mudança de valores que a sociedade atravessa ao longo deste tempo, do quão odiosa é a guerra e, ao mesmo tempo, da sua experiência pessoal no meio disto tudo. Dos seus estados de espírito, das suas amizades com nomes como Sigmund Freud, das suas viagens e, finalmente, do seu sentimento de não pertença a lugar nenhum com a Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos judeus (ele era judeu). Um sentimento que o levaria, mais tarde, a cometer suicidio já no Brasil, terra que o acolheu de braços abertos e que ele muito estimava (afinal, escreveu mesmo um livro sobre o Brasil, "Brasil, país de futuro"). 

A obra termina com as seguintes palavras que, na minha perspectiva, sintetizam na perfeição o seu conteúdo e a vida de Zweig: 
"Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido". 

https://www.goodreads.com/review/show/1236636954