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terça-feira, 30 de maio de 2017

A Passo de Caranguejo, de Günter Grass


"A Passo de Caranguejo" de Günter Grass
Casa das Letras, 2003
221 Páginas

Já li alguns livros de Günter Grass (talvez quase, senão mesmo, metade daqueles que publicou) e confesso que nunca fui muito sua fã. Parece-me que tem muito ódio, raiva e outros sentimentos mal resolvidos. E sempre fiquei com a sensação de que a sua relação com a Alemanha está envolta em grande ressentimento. Mas que a Alemanha? Pois, a actual. 

Então e que problema tem isso? O problema é que Grass tem um passado nas SS, ou seja, participou na Alemanha de Hitler, essa Alemanha do passado, de que ainda há culpa e medo. Daí que eu sinta uma certa contrariedade em Günter Grass. Aliás, isso encontra-se igualmente presente em "A Passo de Caranguejo", obra que ultrapassou as minhas expectativas de forma positiva.

A história concentra-se no afundamento do navio, "Wilhelm Gustloff", por um submarino russo em 1945, ainda na Segunda Guerra Mundial, e na vida de Paul (um jornalista e o narrador da história que nasce no mesmo dia em que Adolf Hitler subiu ao poder, em 1933, sentindo-se muito mal com isso), cuja mãe viajava neste navio e que, segundo percebi, nasceu aquando deste naufrágio, que terá levado à morte cerca de 10.000 passageiros. Melhor dizendo: concentra-se em Paul, na sua mãe e no filho de Paul. 
A obra leva-nos a pensar também na questão judaica, na culpa por inevitabilidade, na situação da Polónia "ensanduichada" entre a Alemanha e a Rússia, entre o Nacional-Socialismo e o Comunismo, ... 

É uma leitura interessante. Deixa-nos a pensar no passado recente da História europeia. E ajudou-me, de algum modo, a reconciliar-me, por um lado, com Günter Grass (estou a ler a sua auto-biografia, "Descascando a cebola" e ainda estou a gostar mais) e a sua obra e, pelo outro, com o próprio acto de ler como um acto de gostar, que com o cansaço, saturação e alguma desmotivação, me visitou umas quantas vezes no passado mês de Maio...! Por isso, valeu a pena a sua espera prolongada, desde 2013, na minha estante. Chegou a altura certa. Chegou a altura dele (para mim).

https://www.goodreads.com/review/show/2009782977

segunda-feira, 28 de março de 2016

Bilhar às Nove e Meia, de Heinrich Böll

"Bilhar às Nove e Meia" de Heinrich Böll
Ulisseia, 2011
303 Páginas


Da leitura de "Bilhar às Nove e Meia", publicada pela primeira vez em 1959 e transformada no filme "Nicht versöhnt oder Es hilft nur Gewalt, wo Gewalt herrscht" (https://www.youtube.com/watch?v=CvC-J... ) em 1965, fiquei com uma sensação estranha de confusão e, num certo sentido, de incompreensão. Embora, a obra pertença a um autor que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1972, Heinrich Böll, e a temática seja complexa na medida certa para ser interessante, a verdade é que, ao contrário de "A Honra Perdida de Katharina Blum" tive dificuldade em encontrar o norte da história muito bem escrita, mas de estrutura "torcida"... 

A obra é constituida pelas perspectivas e relatos dos vários membros da família Faehmel, que inclui três gerações de arquitectos (uns constroem antes do Nacional-Socialismo estar no poder, outros destroem, já com o Nacional-Socialismo no poder, aquilo que os outros construiram), reportando-se ao período compreendido entre o início do século XIX e o ano de 1958 do século XX. Toda a narrativa decorre durante um único dia, em 1958, e passa-se fundamentalmente na cidade alemã de Köln, onde Robert, a personagem principal, se dedica ao jogo do bilhar numa base diária e sempre às nove e meia (na ânsia de construir uma rotina) - daí o título da obra -. 


A temática da história relaciona-se com o conflito existente na sociedade alemã do pós Segunda Guerra Mundial entre aqueles que se mantêm como livres pensadores/pacifistas e aqueles que se subjugaram ao Nacional-Socialismo e ao Totalitarismo/belicistas. É aqui que se centra a crítica do autor, nascido em Köln, capital cultural da Alemanha e cidade totalmente destruida pela Guerra em bens materiais e em vidas humanas. 


*
"Nessa altura, vivíamos todos no atelier do avô, porque a nossa casa estava inabitável, e na parede do atelier estava um enorme mapa da cidade pendurado; tudo o que havia sido destruído estava riscado com um grosso giz preto, e, muitas vezes, (...) ouvíamos o pai e o avô outros homens a conversar em frente ao mapa. Havia muitas vezes discussão, porque o pai dizia sempre: «Fora com isso - dinamitar.» - e desenhava um X junto a uma mancha negra e os outros diziam: «Por amor de Deus, não podemos fazer isso!» (...)" [Böll, 2011,pp.219-220]

https://www.goodreads.com/review/show/1590312825?book_show_action=false

terça-feira, 22 de março de 2016

Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi, de Hélène Berr


"Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi" de Hélène Berr
Publicações Dom Quixote, 2008
244 Páginas


Escrito por uma jovem francesa judia de vinte e poucos anos, esta obra encontra-se dividida em três anos: 1942, 1943 e 1944. Pelo meio, podemos encontrar várias fotografias de Hélène Berr, a autora deste diário que ambicionava vir a ser professora na Sorbonne onde havia estudado Literatura Inglesa (o que se acaba por reflectir na própria forma - por vezes, um tanto ao quanto, requintada - como o texto está escrito), bem como algumas notas de Mariette Job (responsável pela publicação), alguns dados sobre a família abastada de Hélène (talvez por isso mesmo apenas seria presa em 1944) e uma lista das leituras que fez e mencionou ao longo das várias entradas deste seu diário. 

"Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi" sugere no primeiro ano, o de 1942, uma leitura algo irregular. A dada altura as entradas são telegráficas, denunciando, muito provavelmente, o dificil e complexo estado de alma que vive na altura. A leitura torna-se mais interessante e, no meu entender, mais complexa quando chegamos aos anos de 1943 e 1944. No ano de 1944, e cada vez mais próxima da prisão que suspeitava vir a acontecer, Hélène demonstra uma força incrivel através das suas palavras. Vivendo em Aubergenville, no Norte de França e não muito longe de Paris, quer Hélène quer a sua familia tiveram a possibilidade de fugir, mas não quiseram fazê-lo e ousaram permanecer corajosamente (com todas as implicações que isso poderia ter) no seu país até ao fim...

Comparativamente aos outros diários que tenho lido sobre o tema do Holocausto, este distingue-se por ter sido escrito por uma jovem adulta, com formação superior, e de nacionalidade francesa, possibilitando uma maior compreensão do modo como a França viveu a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, como lidou com a questão dos judeus, enviando-os primeiramente e com o apoio das próprias autoridades francesas para um campo de internamento localizado em Drancy (próximo de Paris) e, posteriormente, para Auschwitz. Recomendo, pois trata-se de uma visão diferente. Não é a mesma coisa ler o Holocausto e a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial pelos olhos de uma criança e pelos olhos de uma adulta! Por outro lado, afigura-se igualmente importante compreender os aspectos convergentes e divergentes consoante a nacionalidade (polaca, checa, francesa, ...) de quem os escreveu, de forma a conseguir ter uma visão tão ampla e profunda quanto possível do que se passou neste complexo período da História.


*

"«O que quer, minha senhora? Cumpro o meu dever!»
Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização. 
Os alemães, esses, há uma geração que se trabalha no seu reembrutecimento (é um retorno periódico). Neles toda a inteligência está morta. Mas podia esperar-se que, entre nós, isso fosse diferente. (...)" [Berr, 2008, p.176]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1580185589

terça-feira, 15 de março de 2016

Na Montanha de Hitler, de Irmgard A. Hunt

"Na Montanha de Hitler" de Irmgard A. Hunt
Editorial Bizâncio, 2014
319 Páginas

Em "Na Montanha de Hitler" é contada a infância e adolescência de Irmgard, uma alemã ariana, passada em Berchtesgaden (situada nos Alpes Bávaros) perto do retiro de Hitler. A autora escreve igualmente sobre as origens da sua família materna e paterna, referindo-se igualmente às dificuldades que os seus pais e respectivas familias passaram durante a Primeira Guerra Mundial, de forma a que o leitor compreenda toda a evolução e contexto da Alemanha aquando da chegada de Adolf Hitler ao poder. É, contudo, sobretudo durante o período em que Hitler se encontra no poder e já sobre a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial que a obra mais incide. 


Perdas, desconhecimento, sofrimento em silêncio, fanatismo, obediência cega, culpa e desejo de recomeçar são abordados com mestria pela autora, que aqui se limita a escrever sobre o que viveu e o que sentiu na realidade. Irmgard viveu a infância e o inicio de adolescência numa paisagem perfeita, mas ensombrada pelo Nacional-Socialismo e, depois, também pela guerra que só numa fase final atinge a sua cidade.


Não tendo sido escrita na época, a obra está cheia de fotografias daqueles tempos, sobre os quais a autora escreve e descreve com todo o detalhe recorrendo às suas memórias, mas também às memórias de vários familiares que consigo viveram. "Na Montanha de Hitler" prima acima de tudo por retratar os primeiros anos de vida de uma alemã (não judia), perfeitamente comum, vividos mesmo ao lado de Hitler e da elite Nacional-Socialista. E leva-nos a pensar em como o sentimento de culpa pode ser, por vezes, profundamente injusto... Porque houve vitimas em ambas as partes: alemães e não alemães; arianos e judeus.

https://www.goodreads.com/review/show?id=1559985164

sexta-feira, 11 de março de 2016

A Lição de Alemão, de Siegfried Lenz

"A Lição de Alemão" de Siegfried Lenz
Publicações Dom Quixote, 1991
371 Páginas

A história passa-se junto ao Mar, perto do Mar do Norte, na Alemanha durante o III Reich e já depois do fim deste. E gira em torno de um polícia que faz tudo para fazer cumprir o seu dever, mesmo quando tal deixa de ser necessário, e impedir o pintor Max Ludwig Nasen de pintar por ser considerado pelo regime como um pintor degenerado (do estilo Expressionista). É o filho do polícia, Siggi Jepsen, quem nos conta tudo (na redacção que tem de fazer para a escola em que se encontra) e recrimina a atitude do pai, tentando ajudar a proteger as obras do pintor e, consequentemente, sofrendo as consequências disso mesmo porque mal interpretado! Há quem defenda que, ainda que indirectamente, a figura do pintor Nasen pode querer sugerir a de Emil Nolde, um artista igualmente perseguido pelos nazis...

Com efeito, "A Lição de Alemão" trata-se de um romance longo, apesar das suas 371 páginas, e o seu tempo é lento. O tamanho da letra é pequeno e o espaçamento também, o que chega a cansar. A história passa devagar, devagarinho, com calma. Sigfried Lenz deixa-nos saborear bem as suas palavras, brindando-nos com inúmeras e detalhadas descrições que fazem o leitor sentir-se como se estivesse em cena. E escreve bem, muito bem. Diria, contudo, que a história se esgota no seu argumento (importante, porque foi o cumprimento cego do dever que levou a Alemanha à destruição com o Nacional-Socialismo) e, nesse sentido, este podia ser perfeitamente um livro menos longo e mais vivo!


Por fim, será de referir que a obra de Lenz se encontra esgotada, sendo que caso a editora pense em voltar a editar este livro seria interessante se fizesse um espaçamento e utilizasse um tipo de letra maiores, de forma a tornar a leitura da obra mais agradável. 

*

"O teu pai, Siggi, como polícia, tinha que zelar por uma proibição de pintar, em serviço. E quando acabou o tempo de pintar, dizes tu, ele continuou a vigiar o pintor. Eu: Por fim ele tinha uma tara - assim como têm uma tara todos aqueles que não querem fazer nada a não ser o dever." [Lenz, 1991, p.357]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1559978294

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Rapariga que Roubava Livros, de Markus Zusak


"A Rapariga que Roubava Livros" de Markus Zusak
Editorial Presença, 2008
463 Páginas


"A Rapariga que roubava livros" é narrada pela Morte, a mesma Morte que andando de mão dada com a Guerra (aqui a II Guerra Mundial), demonstrando uma certa compaixão por quem leva e por quem fica a chorar os que partem.

A história começa em 1939 e termina em 1943 (do início da Guerra até à perda de Estalinegrado), centrando-se na Alemanha e em particular num subúrbio perto de Munique. Sente-se na sociedade as mudanças impostas pelo III Reich. Conta-se o martírio dos judeus. Conta-se também o martírio das bombas. Há quem seja obrigado a partir para a Guerra e isso faz com que se sinta mais esse sentimento de caos e de ansiedade pelo que se segue... E não se controla de todo. Porque se a Vida é imprevisível, a Guerra (enquanto sinónimo de Morte e Destruição) ainda o pode ser mais.

Conhece-se roubo dos livros que a personagem principal vai fazendo ao longo da história. E é com as palavras roubadas desses livros furtados que ela sobrevive às alterações da sua situação familiar e à própria Guerra.É assim que aprenderá a ler e a escrever.

Em síntese, este é um livro bem escrito e, por isso mesmo, a leitura flui através das suas 462 páginas; quando o leitor se dá conta já chegou ao fim!

https://www.goodreads.com/review/show/832967610?book_show_action=false