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segunda-feira, 31 de maio de 2021

"Madame Curie und die Kraft zu träumen" de Susanna Leonard



"Madame Curie und die Kraft zu träumen" de Susanna Leonard
Ullstein, 2020
464 Páginas


Estamos no início de Outubro de 1926, véspera do dia de casamento da filha mais velha de Marie Curie, Irène que, tal como os pais, decide fazer carreira na ciência. A história começa no cemitério entre as sombras dos ciprestes, o que nos deixa antever o que depois se vem a confirmar: Madame Curie fala para Pierre, seu falecido marido. É aqui que a autora inicia a narrativa e é igualmente recordando, já no próprio dia do casamento de Irène (a 9 de Outubro), o acidente em que Pierre morre atropelado, num dia chuvoso em Paris que a mesma termina. 

Por isso, e apesar do título da obra ser "Madame Curie und die Kraft zu träumen" (Madame Curie e a força para sonhar) diria que a autora consegue transmitir na perfeição o alcance e o significado da presença de Pierre na vida de Marie. Depois da sua morte e pese embora toda a sua garra, inteligência e dedicação à ciência, a cientista não voltou a ser a mesma pessoa.

Entre estes início e fim é contada a história da vida de Madame Curie desde pequena, ainda antes de perder a mãe a irmã, passando pela falta de recursos da sua familia (por azares do destino) até ao esforço - trabalhando, por exemplo, como governanta - que faz para ajudar uma outra irmã, Bronia, a estudar medicina e a preparar a sua própria ida para Paris onde pretendia continuar a estudar. 

Marie Curie tem, para mim (desde os meus 13/14 anos quando a descobri), um significado muito especial pelo esforço, espírito de sacrificio, dedicação e obstinação com que sempre perseguiu a sua paixão pela ciência, mesmo nas condições mais adversas. E também pela forma com que viveu a sua vida com Pierre e se tentou manter firme perante tudo e todos quando, na verdade, estava completamente destroçada por ter perdido o seu grande "pilar" (termo seu) de forma tão trágica. Um exemplo real de como "as árvores morrem de pé"...

E este livro está escrito de uma forma muito bonita e especial, bem estruturada. Gostei mesmo. 


https://www.goodreads.com/review/show/3911266172

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Amor Entre Guerras, de Sofia Ferros


"Amor Entre Guerras" de Sofia Ferros
Casa das Letras, 2014
335 Páginas



Baseado numa história verídica, a dos bisavós da autora, "Amor Entre Guerras" passa-se na Primeira Guerra Mundial e ainda abrange o período pós Guerra e início da Segunda Guerra Mundial. A narrativa centra-se no jovem médico Miguel, que parte para França para integrar o Corpo Expedicionário Português (CEP), sendo aí que conhece a sua futura esposa, uma francesa defensora da liberdade e dos principios do Comunismo. Desde o momento em que se encontram, pelas circunstâncias da guerra, as suas vidas transformar-se-ão, mas é também a maneira de ser de Alexandrine e as consequências sofridas por um acidente, em Lisboa, que irão ditar o rumo da vida do casal em Lourenço Marques. 

Com efeito, "Amor Entre Guerras" foi uma surpresa para mim, do mesmo modo que o foi o excelente trabalho de pesquisa e redacção desta obra realizado por Sofia Ferros. Tanto quanto pude perceber, esta é a sua primeira obra e que primeira obra...! Irrepreensível. Não há momentos mortos, nem enfadonhos. Às vezes, muitas vezes para ser sincera, é dificil parar de ler porque a leitura é demasiado empolgante para fazer pausas. O modo como a obra termina deixa no ar a possibilidade de uma continuação, que aguardarei com atenção e expectativa. Porque, acreditem, a história promete!

Desde a forma viva como Alexandrine defende a liberdade e a emancipação das mulheres, o modo como se compreende a própria evolução escondida e algo recatada do Comunismo, as referências à cientista Marie Curie, ao modo mal preparado e equipado com que o CEP foi para a Guerra, o próprio clima de repressão e instabilidade vivido em Portugal, assim como o estilo de vida dos portugueses em Moçambique... Tudo torna a história interessante e bem construída em todos os sentidos. 

Além da obra nos permitir evadir, leva-nos igualmente a conhecer um pouco melhor alguns aspectos deste período histórico e a pensar de que modo é que eles poderão ter influenciado e condicionado as vidas das pessoas. Por outro lado, é fácil colocarmo-nos na posição das personagens e num ou noutro momento compreender o porquê de terem tomado esta ou aquela opção. 

Por tudo isto, só posso dizer que gostei muito de "Amor Entre Guerras"!


https://www.goodreads.com/review/show/1791070917


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Suite Francesa, de Irène Némirovsky

"Suite Francesa" de Irène Némirovsky
Publicações Dom Quixote, 2015
579 Páginas


"Suite Francesa" é um romance de Irène Némirovsky, inacabado, mas cuja mensagem passagem completa: os estados, os sentimentos e as angústias que a ocupação alemã de França durante a Segunda Guerra Mundial causou. 

Constituída por dois livros (“Tempestade em Junho”, relatando a fuga de vários franceses à chegada aos alemães, e “Dolce”, mais concentrado na vida de uma aldeia já na presença dos alemães e na relação estabelecida entre estes e os locais) em vez dos cinco idealizados, Némirovsky queria que esta sua obra tivesse cerca de 1000 páginas; ficou-se, todavia, pelas 500 e poucas, devido à sua prisão em Julho de 1942 e sua consequente morte, um mês depois, em Auschwitz. Ucraniana de origem judaica, Némirovsky vinha de uma família abastada que chegou a Paris, em 1919, para fugir às consequências da revolução de 1917 na Rússia Soviética. Trabalhou como escritora até ao momento da sua prisão, que não se conseguiu evitar. A obra acabaria por ser publicada posteriormente graças a uma das suas duas filhas, Denise Epstein (http://www.telegraph.co.uk/news/obituaries/10023679/Denise-Epstein.html  e http://www.express.co.uk/entertainment/films/563937/Suite-Francaise-author-Irene-Nemirovsky-Auschwitz-tragedy ), e receberia o Prémio Renaudot em 2004.

Em Portugal, várias das suas obras encontram-se publicadas pela Relógio D'Água, embora "Suite Francesa", entretanto adaptada para filme (ver trailer aqui: https://www.youtube.com/watch?v=azoDJwdhaWI ), tenha sido publicada pela Dom Quixote. Mais do que um romance histórico, esta obra é um romance escrito na e sobre a História, já que a autora vive no período abordado e ao que parece também teve de dar alojamento a militares alemães na sua casa. "Suite Francesa" é, por isso mesmo, uma história viva, porque ainda que ficcionada pela sua autora, baseia-se na experiência desta relativamente à ocupação nazi de França, estando plena de realismo. É escrita durante a Segunda Guerra Mundial e sobre ela, testemunhando os horrores da Guerra, sem os mitigar ou atenuar.

A sua escrita é completa, pensada, nada superficial. O leitor lê e consegue sentir o mesmo que as personagens, consegue colocar-se no lugar delas, pensar como elas e reflectir sobre isso. Némirovsky queria que "Suite Francesa" fosse cinematográfica e conseguiu. Toda a obra parece um filme, sendo que ainda que não tenha sido acabada, isso não impede a compreensão do que foi a chegada e a permanência dos alemães em França nos anos 40: chegavam e faziam-se hóspedes dos franceses sem mais nem mais, sendo que, muitas vezes, isso acabava por criar problemas entre os casais ao originar relacionamentos entre militares alemães e mulheres francesas (casadas ou não), que depois da Guerra terminar acabariam por sofrer nas mãos dos próprios franceses, acusadas de serem “colaboradoras horizontais” (alguns exemplos em imagem poderão ser encontrados aqui http://www.ideafixa.com/historia-as-colaboradoras-nazistas-da-segunda-guerra-mundial/ ). Penso, pois, que é por causa deste aspecto da ocupação alemã que a obra se chama “Suite Francesa”.

Face a tudo isto, só posso recomendar a leitura da obra…! 
*
"Sabemos muito bem que o ser humano é complexo, múltiplo, dividido, cheio de surpresas, mas é preciso o tempo da guerra ou grandes mudanças para o vermos. É o espectáculo mais apaixonante e terrível, pensou ainda; o mais terrível por ser o mais verdadeiro; não podemos gabar-nos de conhecer o mar sem o ter visto tanto em tempos de bonança como em tempos de tempestade. Só quem observou os homens e as mulheres numa época como esta é que os conhece verdadeiramente, pensou. Só esse se conhece a si próprio." (Némirovsky, 2015, p.508)

https://www.goodreads.com/review/show/1680084744?book_show_action=false


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Não terão o meu ódio, de Antoine Leiris


"Não terão o meu ódio" de Antoine Leiris
Objectiva, 2016
139 Páginas

"Não terão o meu ódio" é um livro escrito pelo marido de uma das vítimas, Hélène Muyal-Leiris (http://www.lemonde.fr/attaques-a-pari... ) do atentado de Paris, ocorrido a 13 de Novembro de 2015. 
Hélène morreu no Bataclan, deixando uma criança com um ano e meio, Melvil, e sobre os primeiros dias após a sua morte que Antoine Leiris escreve, na ânsia de se libertar da dor e para que o seu sofrimento fique domesticado, encerrado na jaula com grades de papel, como sublinhou quase nas últimas páginas do livro. 

Leiris começou a escrevê-lo depois de ter publicado na sua página de facebook o texto "Vous n'aurez pas ma haine" (https://www.facebook.com/antoine.leir... ), que se tornou conhecido pelos quatro cantos do mundo. É escrito com o coração, com todo o coração (ou com o que resta dele). É profundo, sensivel, carregando de sentido e de uma força brutal, a força do amor. O texto é belissimo, constrastando com a tristeza e carga da situação que lhe deu origem. O mesmo é válido para este livro...

Lê-se rápido, depressa, sem grandes vontades de pausa. E não se fica indiferente. Não se fica de todo. Dá vontade de recuar no tempo e munidos de poderes sobrenaturais trazer Hélène (e todas as outras vítimas deste atentado) de volta para a(s) sua(s) bonita(s) família(s) e deixar que sejam felizes no seu mundo para sempre, sem sofrerem com um ódio cego que não lhes pertence e que orienta este mal com cada vez mais peso nos nossos dias, o Terrorismo...!
*
"É claro que ter um culpado à mão, alguém sobre quem possamos despejar a nossa raiva, é uma porta entreaberta, uma oportunidade para nos esquivarmos ao sofrimento. E quanto mais detestável for o crime, mais o culpado é ideal, mais o ódio é legítimo. Pensamos nele para deixarmos de pensar em nós próprios, detestamo-lo a ele para não odiarmos a nossa vida, regozijamo-nos com a morte dele para não voltarmos a sorrir aos que cá ficaram." 
(Leiris,2016, p. 39)

https://www.goodreads.com/review/show/1679507542?book_show_action=false

terça-feira, 22 de março de 2016

Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi, de Hélène Berr


"Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi" de Hélène Berr
Publicações Dom Quixote, 2008
244 Páginas


Escrito por uma jovem francesa judia de vinte e poucos anos, esta obra encontra-se dividida em três anos: 1942, 1943 e 1944. Pelo meio, podemos encontrar várias fotografias de Hélène Berr, a autora deste diário que ambicionava vir a ser professora na Sorbonne onde havia estudado Literatura Inglesa (o que se acaba por reflectir na própria forma - por vezes, um tanto ao quanto, requintada - como o texto está escrito), bem como algumas notas de Mariette Job (responsável pela publicação), alguns dados sobre a família abastada de Hélène (talvez por isso mesmo apenas seria presa em 1944) e uma lista das leituras que fez e mencionou ao longo das várias entradas deste seu diário. 

"Diário. O Diário de uma Jovem Judia em Paris sob a Ocupação Nazi" sugere no primeiro ano, o de 1942, uma leitura algo irregular. A dada altura as entradas são telegráficas, denunciando, muito provavelmente, o dificil e complexo estado de alma que vive na altura. A leitura torna-se mais interessante e, no meu entender, mais complexa quando chegamos aos anos de 1943 e 1944. No ano de 1944, e cada vez mais próxima da prisão que suspeitava vir a acontecer, Hélène demonstra uma força incrivel através das suas palavras. Vivendo em Aubergenville, no Norte de França e não muito longe de Paris, quer Hélène quer a sua familia tiveram a possibilidade de fugir, mas não quiseram fazê-lo e ousaram permanecer corajosamente (com todas as implicações que isso poderia ter) no seu país até ao fim...

Comparativamente aos outros diários que tenho lido sobre o tema do Holocausto, este distingue-se por ter sido escrito por uma jovem adulta, com formação superior, e de nacionalidade francesa, possibilitando uma maior compreensão do modo como a França viveu a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, como lidou com a questão dos judeus, enviando-os primeiramente e com o apoio das próprias autoridades francesas para um campo de internamento localizado em Drancy (próximo de Paris) e, posteriormente, para Auschwitz. Recomendo, pois trata-se de uma visão diferente. Não é a mesma coisa ler o Holocausto e a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial pelos olhos de uma criança e pelos olhos de uma adulta! Por outro lado, afigura-se igualmente importante compreender os aspectos convergentes e divergentes consoante a nacionalidade (polaca, checa, francesa, ...) de quem os escreveu, de forma a conseguir ter uma visão tão ampla e profunda quanto possível do que se passou neste complexo período da História.


*

"«O que quer, minha senhora? Cumpro o meu dever!»
Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização. 
Os alemães, esses, há uma geração que se trabalha no seu reembrutecimento (é um retorno periódico). Neles toda a inteligência está morta. Mas podia esperar-se que, entre nós, isso fosse diferente. (...)" [Berr, 2008, p.176]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1580185589