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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Descascando a Cebola, de Günter Grass


"Descascando a cebola" de Günter Grass
Casadas Letras, 2007
378 Páginas


Não dou cinco estrelas, mas são quatro estrelas e qualquer coisa. E não dou* apesar de considerar que, de todos os livros lidos de Günter Grass até à data (contei seis com este incluido), este é, sem sombra para dúvidas, o melhor. É declaradamente auto-biográfico. 

Neste livro Grass confessa-se. Confessa aquilo que muitos alemães, que viveram a Guerra, procuraram ocultar dos outros e de si próprios no pós Segunda Guerra Mundial por vergonha: pertenceu às SS. O seu papel não foi relevante nas SS, mas ainda assim integrou-as e isso foi o bastante para se sentir culpado, envergonhado com isso, sentimentos que o acompanharam toda a vida. Até ao último dia. 

Neste "Descascando a Cebola" ficamos também a compreender a relação existente entre as obras de Grass e a sua vida. Cada uma delas quase que tem, ou tem mesmo, algo de auto-biográfico. É uma leitura interessante, sobretudo para aqueles que pretendam conhecer um pouco da "psique" alemã mais recente. 

* - Porque tive momentos em que achei que o autor se esgotou em alguns temas, como a imperiosa necessidade de satisfação de desejo sexual do autor, uma vez terminada a Guerra. O tema podia ser abordado, sim -somos humanos de carne e osso - , mas creio que o foi de forma excessiva e isso tornou-se, para mim, aborrecido... E essa foi uma das críticas feitas aquando da publicação na Alemanha e é, no meu entender, justificada. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Neblina sobre Mannheim, de Bernhard Schlink e Walter Popp

"Neblina sobre Mannheim" de Bernhard Schlink e Walter Popp
Edições 70, 2002
303 Páginas

"Neblina sobre Mannheim" (em alemão "Selbs Justiz", título que em nada corresponde à versão portuguesa) corresponde ao livro de estreia de Bernhard Schlink, autor de "O Leitor". Trata-se de um livro escrito, nos anos oitenta, em parceria com Walter Popp. Foi inclusivamente este que trouxe Schlink, que sempre sonhara ser escritor (mas optou por uma carreira com juíz e professor de Direito), para o mundo da escrita. 

Trata-se de um romance policial, um estilo algo distinto daquele que seguirá posteriormente. Ainda assim, a linha temática é a mesma: há sempre alguém que sente culpa, culpa do seu passado  Nacional-Socialista e que tenta escondê-lo com vergonha e pudor; há sempre alguém ligado ao mundo das leis, isto é, um advogado, um juiz, um inspector, um procurador. E isto torna os seus livros extremamente interessantes; e com temas que são mesmo tempo objectivos e subjectivos. 

Embora não estando entre os meus livros preferidos de Schlink (tive momentos que me perdi), "Neblina sobre Mannheim" não deixa de valer a pena ser lido. Não só pelos temas abordados, como também porque foi daqui que Schlink partiu para a escrita.

Seria, agora, interessante que as Edições Asa - Grupo Leya decidissem publicar mais livros do autor, que a meu ver tão bem retrata muitos dos fantasmas que ainda persistem na Alemanha actual, como, por exemplo, "Die Frau auf der Treppe". Fica a sugestão!

https://www.goodreads.com/review/show/1888632930

domingo, 23 de outubro de 2016

Uma Espia na Casa do Amor, de Anaïs Nin

"Uma Espia na Casa do Amor" de Anaïs Nin
Vega, 2012
132 Páginas

"Uma Espia na Casa do Amor" deixou-me indecisa entre as 2 e as 3 estrelas... A verdade é que quando me questiono se gostei do livro não consigo dizer que não gostei, mas também não consigo dizer que gostei. 

A meu ver a obra tem um argumento com tudo para dar um livro interessante, no mínimo "agitante": uma mulher que apesar de viver com um homem que a ama decide ausentar-se, de vez em quando, alegando razões profissionais, mas tudo o que faz nesses períodos é experimentar o amor de outros homens, sem qualquer espécie de relação de qualquer tipo... 

No entanto, o interesse do argumento perde-se na sua concretização. A autora tem tiradas inteligentes, dotadas de grande profundidade e reflexão (que admirei bastante e tomei nota porque são dignas de leituras e releituras), mas ao mesmo tempo a forma como começa o livro é confusa, deixando o leitor cheio de dúvidas, e a forma como também apresenta os encontros ocasionais, se volta a referir aos sentimentos de Sabina e  ao modo como o marido a trata é feita atabalhoada, caótica e desorganizadamente. Nem sempre é fácil compreender que se passou de uma coisa à outra e, às vezes, essa transição é abrupta. Por outro lado, a obra não dispõe de capítulos, o que faz com que o leitor tenha de andar à procura do “tempo certo” para fazer uma pausa e isso acaba por cansar um pouco e constituir motivo de algum stress …!

No essencial, a obra concentra-se no desejo de liberdade e independência da personagem principal, que parece não querer amar ninguém, e que sendo infiel, por "necessidade", não sabe como lidar com a culpa (?) e a eventual e hipotética possibilidade de descoberta dessa vida paralela pelo marido. Ainda que a escrita de Anaïs Nin se foque no estado de alma de Sabina, com pouca ou nenhuma relevância dos cenários e a quase ausência de descrições, e seja nessa perspectiva riquissima, a verdade é que no geral o meu maior desejo foi sempre conseguir terminar o livro o mais rapidamente possível... Como se não conseguisse aguentar aquela leitura por mais tempo do que o apenas necessário! 

E é isto.
*
"Como ela aprendera a fazer desaparecer cartas de amor pelo lavabo, a não deixar cabelos no pente emprestado, a reunir os ganchos do cabelo, a apagar vestígios de baton em toda a parte, a sacudir nuvens de pó de arroz. 
Os seus olhos eram como os olhos de uma espia. 
Os seus hábitos eram como os hábitos de uma espia. Como ela punha todas as suas roupas numa cadeira, como se pudesse ser chamada de repente e não devesse deixar quaisquer vestígios da sua presença. (...)"[p. 58]

https://www.goodreads.com/review/show/1791070601

terça-feira, 15 de março de 2016

Na Montanha de Hitler, de Irmgard A. Hunt

"Na Montanha de Hitler" de Irmgard A. Hunt
Editorial Bizâncio, 2014
319 Páginas

Em "Na Montanha de Hitler" é contada a infância e adolescência de Irmgard, uma alemã ariana, passada em Berchtesgaden (situada nos Alpes Bávaros) perto do retiro de Hitler. A autora escreve igualmente sobre as origens da sua família materna e paterna, referindo-se igualmente às dificuldades que os seus pais e respectivas familias passaram durante a Primeira Guerra Mundial, de forma a que o leitor compreenda toda a evolução e contexto da Alemanha aquando da chegada de Adolf Hitler ao poder. É, contudo, sobretudo durante o período em que Hitler se encontra no poder e já sobre a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial que a obra mais incide. 


Perdas, desconhecimento, sofrimento em silêncio, fanatismo, obediência cega, culpa e desejo de recomeçar são abordados com mestria pela autora, que aqui se limita a escrever sobre o que viveu e o que sentiu na realidade. Irmgard viveu a infância e o inicio de adolescência numa paisagem perfeita, mas ensombrada pelo Nacional-Socialismo e, depois, também pela guerra que só numa fase final atinge a sua cidade.


Não tendo sido escrita na época, a obra está cheia de fotografias daqueles tempos, sobre os quais a autora escreve e descreve com todo o detalhe recorrendo às suas memórias, mas também às memórias de vários familiares que consigo viveram. "Na Montanha de Hitler" prima acima de tudo por retratar os primeiros anos de vida de uma alemã (não judia), perfeitamente comum, vividos mesmo ao lado de Hitler e da elite Nacional-Socialista. E leva-nos a pensar em como o sentimento de culpa pode ser, por vezes, profundamente injusto... Porque houve vitimas em ambas as partes: alemães e não alemães; arianos e judeus.

https://www.goodreads.com/review/show?id=1559985164

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Outro Homem e Outras Histórias, de Bernhard Schlink



"O Outro Homem e Outras Histórias" de Bernhard Schlink
Edições Asa, 2009
224 Páginas




Em "O Outro Homem e Outras Histórias", Bernhard Schlink coloca em evidência, através de sete histórias que têm sempre como base o amor, alguns dos tabus que ainda persistem na sociedade alemã do pós II Guerra Mundial, nomeadamente o desconforto alemão em relação aos judeus (que se pode, tornar num fardo ainda maior e mais pesado quando verificado num relacionamento amoroso) e a dificuldade em lidar (depois do fim da Guerra) com um passado ocorrido durante o III Reich alemão quando a Justiça se conseguia, por exemplo, com a punição de alguém que prestava ajuda aos judeus.
 

A culpa é, sem dúvida, algo que é transversal a todas as histórias, estando em alguns casos relacionada com o peso pesado que o Holocausto ainda continua a exercer para os alemães (enquanto culpa histórica), mas também na relação entre alemães e judeus ainda hoje...

*
https://www.goodreads.com/review/show/949732459?book_show_action=false