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quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Mártir" de Kaveh Akbar



"Mártir" de Kaveh Akbar
Relógio D' Água, 2024
360 Páginas

"Mártir" é um romance sobre a procura de sentido na morte e a ideia de mártir/martírio, algo que, na minha perspectiva, está intimamente relacionado com a cultura iraniana pós revolução islâmica dos anos 70.

 A história está muito bem construída em torno da dependência relativamente ao álcool (e drogas) de Cyrus, da morte da mãe num voo quando o avião comercial em que seguia foi abatido por engano pelos EUA e deixou o marido (e pai de Cyrus) viúvo e Cyrus órfão (de mãe), da incompreensão de Cyrus relativamente à morte da mãe e do consequente desgosto irremediável do pai de Cyrus face ao sucedido à esposa. 

E a verdade é que "Mártir" está igualmente muito bem escrito, sendo que, no final, a história acaba por nos conseguir surpreender: há algo que parece ser, sem o ser! Excelente.


https://www.goodreads.com/review/show/8583603499

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

"A Ridicula Ideia de Não Voltar a Ver-te" de Rosa Montero



"A Ridicula Ideia de Não Voltar a Ver-te" de Rosa Montero
Porto Editora, 2015,
176 Páginas


"A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te" foi uma excelente forma de conhecer uma escrita bonita, profunda e em que as palavras parecem dançar e estar mergulhadas em música. É assim a escrita de Rosa Montero que eu desconhecia até retirar este livro do seu sono na minha estante... Onde estava desde 2018!!!

O tema central aqui é a morte e longe de ser uma leitura mórbida, é muitissimo reflexiva, mas também "fora da caixa". É um estilo com vários estilos em que Rosa Montero parte da relação de Marie Curie com a morte de Pierre Curie e vai-se debruçando sobre as várias nuances e particularidades da mesma, estabelecendo um paralelismo entre esta e a relação da autora com a morte do seu marido. 

Gostei muito!

https://www.goodreads.com/review/show/6873004303

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sobre o Amor e a Morte, de Patrick Süskind


"Sobre o Amor e a Morte" de Patrick Süskind
Editorial Presença, 2006
61 Páginas

Patrick Süskind oferece aos seus leitores na obra "Sobre o Amor e a Morte" um interessante e conciso ensaio sobre o que é o amor, sobre a morte e o modo como o amor e a morte se relacionam. 

A sua escrita segue na linha do que o autor nos tem vindo a habituar... Directo, sem demasiados rondeios, por vezes um pouco crítico e mordaz. Lê-se fluentemente, sem grande vontade de fazer pausa.

E no decorrer da exposição das suas ideias vai buscar inúmeras vezes J. W.Goethe, que eu tanto gosto, e Heinrich von Kleist, que eu vou querer conhecer um pouco melhor. Traz-nos Platão, Santo Agostinho, Orfeu e a sua Eurídice e ainda recorre, de forma muito subtil e na medida certa, para justificar o seu argumento a uma ou outra passagem dos Evangelhos. 

Gostei deste "apanhado"/"revisão"/"lufada de ar fresco" cultural! 

*
"estar apaixonado é uma embriaguez, uma doença, um delírio. Não é uma embriaguez má, acrescenta ele, é precisamente a melhor das embriaguezes; não é uma doença nociva nem uma loucura humana no sentido patológico; é antes uma mania inspirada pelo divino, uma loucura sagrada que dá asas à alma confinada ao que é terrestre." (p.12)

https://www.goodreads.com/review/show/1902335505

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A Última Estação, de Jay Parini




"A Última Estação" de Jay Parini
Editorial Presença, 2007
266 Páginas


"A Última Estação" de Jay Parini romanceia o último ano de vida do escritor russo Leo Tolstói (1828-1910), que morreu com cerca de oitenta e dois anos de idade, e, portanto, a obra foca-se essencialmente na relação algo tempestuosa com a mulher Sofia, com quem teve treze filhos, e no desejo inabalável de Tolstói levar uma livre simples e pacata, tal como um camponês, longe das luzes da ribalta. 

Tendo inclusivamente dado origem a um filme com o mesmo nome (o trailer pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=2woUBZLxa4o ) dirigido por Michael Hoffman, Jay Parini dá-nos a conhecer também as linhas principais do pensamento do escritor russo, fornecendo-nos aqui e ali algumas informações sobre a concepção da obra "Anna Karenina", por exemplo. Convém, neste sentido, sublinhar o trabalho de pesquisa que o autor fez recorrendo a biografias, bem como a cartas e diários pertencentes aos envolvidos na história. 

Relativamente à leitura, esta flui em alguns momentos com maior profundidade (quase que espiritual, sobretudo quando aborda a questão da relação entre a alma e o corpo), sendo apresentadas as perspectivas de seis personagens diferentes em alternância: dois tolstoianos, o médico de Tolstói, uma das filhas de Tolstói (Sacha), a mulher e o próprio Tolstói, o que acaba por facilitar a compreensão da história de uma forma natural e fazer com que o leitor se sinta mais presente, quase como se também fosse parte desta, até porque essas perspectivas surgem escritas na primeira pessoa. 

No geral, gostei da obra e recomendo-a acima de tudo a quem desejar conhecer como foi a fase final da vida de Leo Tolstói, mas confesso que os últimos três capítulos relativos à sua morte me custaram um pouco a ler. Não sei se pelo acontecimento da morte em si mesmo, se pela escrita de Jay Parini, se por meu mero estado de espírito...

*
"A última estação estava deserta àquela hora. Ao sentar-me sozinho na plataforma, estudei os carris prateados que seguiam até ao infinito. Ocorreu-me que a vida do corpo e a vida da alma são como estes carris: correm paralelas em direcção ao futuro visível. Gostamos de imaginar um ponto de encontro, um cruzamento onde o corpo terrestre se junta ao corpo celestial. Mas isso é uma ilusão. O carril do corpo, em determinado lugar, numa altura específica, pára. O carril do espírito continua, talvez até ao infinito." (Parini, 2007, p. 238).

https://www.goodreads.com/review/show/1642054293?book_show_action=false

terça-feira, 10 de maio de 2016

A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom




"A Cura de Schopenhauer" de Irvin D. Yalom
Saída de Emergência, 2009
320 Páginas


"A Cura de Schopenhauer" consiste numa (muito) feliz mistura de filosofia com psiquiatria/psicoterapia e literatura, permitindo-nos uma viagem ao pensamento do filósofo alemão, Arthur Schopenhauer (1788-1860), sem esquecer as passagens ainda que breves por Immanuel Kant (1724-1804) e por Friedrich Nietzsche (1844-1900). Trata-se acima de tudo de um romance de ideias em que o autor, Irvin D. Yalom, consegue a fantástica proeza de nos oferecer umas quantas sessões de psicoterapia à distância.

Yalom centra a obra na relação que o homem tem por um lado, com a morte, e por outro, com o sexo, levando-nos a reflectir sobre o sentido e o significado destas na nossa vida. De forma inconsciente, o leitor entra em psicoterapia, vendo-se a repensar e a questionar algumas das suas crenças muito naturalmente e determinados rumos que a vida, por vezes, segue quando nos relacionamos com os outros. É um livro que quebra as amarras do pensamento, desfaz os nós e que consegue deixar o leitor de alma lavada.

Não é a primeira vez que leio Yalom e parece-me que também não será a última. Até à data "Quando Nietzsche chorou" era o meu livro preferido deste autor. Continua a sê-lo, mas "A Cura de Schopenhauer" também passará a integrar essa categoria especial, apenas reservada àqueles livros cuja leitura e mensagem, passe o tempo que passar, jamais se esquecerá...! Excelente.
*

"Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça. (...) No fim, ela vence, pois desde o nascimento é esse o nosso destino e ela brinca um pouco com a sua presa antes de a comer. Mas continuamos a viver com grande interesse e inquietação durante o máximo tempo possível, do mesmo modo que sopramos uma bola de sabão até que esta ficar bastante grande, embora tenhamos a certeza absoluta que vai rebentar. (...)" (Yalom, 2009, p.11)

https://www.goodreads.com/review/show/1618679106?book_show_action=false

quinta-feira, 3 de março de 2016

A Peregrinação do Rapaz Sem Cor, de Haruki Murakami

"A Peregrinação do Rapaz Sem Cor" de Haruki Murakami
Casa das Letras, 2014
362 Páginas


"A Peregrinação do Rapaz Sem Cor" relata a viagem que Tsukuru Tazaki, com 36 anos, faz de regresso às suas amizades de adolescência e, sobretudo, ao modo como estas terminaram. Algo que sempre o perturbou e que em certo sentido lhe aprisionou a existência.


Introvertido e solitário, Tsukuru conseguiu fazer da paixão que tinha, por se sentar nas estações de comboios e ficar a vê-los passar, a sua profissão, tendo-se tornado num engenheiro especialista na projecção e remodelação de estações.


A história que Murakami nos traz desta vez é, em boa medida, kafkiana. Sentem-se ecos de Kafka volta e meia, sem que se note um esforço excessivo da parte do autor nesse sentido. É algo natural e é-o de tal forma que o leitor se conhecer "A Metamorfose" de Kafka experimentará uma sensação interessante de familiaridade, mas com contornos diferentes. Aqui temos mais cor, mais cores, e mais vida. E assistimos a uma metamorfose da personagem de Tsukuru, cujo objectivo será levá-lo a libertar-se de um passado que deixou de compreender e com reflexos no presente e a entender melhor o mundo que o rodeia. 


Recomendo a obra não só aos fãs de Kafka e aos de Murakami, como também a todos aqueles que não são fãs de Kafka, ou ainda àqueles que nunca leram nem Kafka nem o próprio Murakami. É uma leitura que vale a pena!

*
"As pessoas aproximavam-se dele, mas depois, no fim, acabavam sempre por partir. Vinham ter com ele à procura de alguma coisa e, ou porque se mostravam incapazes de encontrar o que pretendiam, ou por ficarem desencantadas com o que encontravam, davam-se por vencidas e desapareciam. Um dia, subitamente, volatilizavam-se. Sem uma palavra de despedida, sem grandes explicações. Como se um machado afiado cortasse de um só golpe os vínculos que os uniam, pelos quais ainda continuava a correr o sangue quente que fazia palpitar as veias. " [Murakami, 2014, p. 125]

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Kafka à Beira-Mar, de Haruki Murakami




"Kafka à Beira-Mar" de Haruki Murakami
Casa das Letras, 2014
589 Páginas


Imprevisivel. Misterioso. Troca-nos as voltas. Profundo.

Esta é a primeira vez que leio um livro de Haruki Murakami e devo dizer que o recomendo e muito. São 589 páginas que não têm o peso de 589 páginas. O livro lê-se com uma leveza e ao mesmo tempo profundidade curiosas.

Assim, e constituido por três histórias diferentes, o livro "Kafka à Beira-Mar" tem duas (destas três) histórias que se cruzarão a dada altura na história e que se encaixarão de uma forma perfeitamente lógica. E quase mágica. Também mágica é a forma como Haruki Murakami aborda a Liberdade e o Destino, a Vida e a Morte, fazendo-o de uma forma que nos leva a "mergulhar" suavemente nestes temas (nem sempre simples e consensuais) e sem medos...

Finalmente, de sublinhar também é a forma natural com que este autor japonês recorre a muitos elementos culturais (literários e musicais) da cultura dita de ocidental. Simplesmente fantástico! O que torna este livro ainda mais rico!

*
"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestadepersegue-te, seguindo o teu encalço. Isto acontece uma vez e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está "dentro" de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar natempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra".


https://www.goodreads.com/review/show/1071591868?book_show_action=false

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Rapariga que Roubava Livros, de Markus Zusak


"A Rapariga que Roubava Livros" de Markus Zusak
Editorial Presença, 2008
463 Páginas


"A Rapariga que roubava livros" é narrada pela Morte, a mesma Morte que andando de mão dada com a Guerra (aqui a II Guerra Mundial), demonstrando uma certa compaixão por quem leva e por quem fica a chorar os que partem.

A história começa em 1939 e termina em 1943 (do início da Guerra até à perda de Estalinegrado), centrando-se na Alemanha e em particular num subúrbio perto de Munique. Sente-se na sociedade as mudanças impostas pelo III Reich. Conta-se o martírio dos judeus. Conta-se também o martírio das bombas. Há quem seja obrigado a partir para a Guerra e isso faz com que se sinta mais esse sentimento de caos e de ansiedade pelo que se segue... E não se controla de todo. Porque se a Vida é imprevisível, a Guerra (enquanto sinónimo de Morte e Destruição) ainda o pode ser mais.

Conhece-se roubo dos livros que a personagem principal vai fazendo ao longo da história. E é com as palavras roubadas desses livros furtados que ela sobrevive às alterações da sua situação familiar e à própria Guerra.É assim que aprenderá a ler e a escrever.

Em síntese, este é um livro bem escrito e, por isso mesmo, a leitura flui através das suas 462 páginas; quando o leitor se dá conta já chegou ao fim!

https://www.goodreads.com/review/show/832967610?book_show_action=false