terça-feira, 16 de abril de 2019

Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke


"Cartas a um Jovem Poeta" de Rainer Maria Rilke
Antígona, 2016
154 Páginas

Li "Cartas a um Jovem Poeta" de Rainer Maria Rilke rápido, é certo, mas é dificil ler mais devagar quando se está a gostar muito do que se está a ler e quando nos identificamos (!!!) com muitas das ideias que Rilke defende nas cartas que redige de resposta a Kappus. 

É profundo. É especial. É filosófico quanto ao modo como podemos viver a vida e a própria arte. E quando lemos este livro, diria que é fácil colocarmo-nos na posição de Kappus e ler os conselhos de Rilke como se fossem para nós leitores. A resposta às nossas dúvidas está em nós próprios, a solução para os nossos problemas deve ser procurada dentro de nós (e não no exterior), o artista é um criador que "tem de ser por si próprio um mundo", ... 

Rilke tece também algumas considerações interessantes acerca do amor, da doença (como libertação) e da solidão, nas quais vale a pena nos demorarmos porque resultam de um entendimento superior daquela que é (ou deveria ser ?) a existência humana. 

E fá-lo com humildade e amizade, sem qualquer espécie de arrogância ou prepotência. Pede-nos (ou melhor, pede a Kappus) que deixemos a vida acontecer, sem procurar demasiado... 

Vale a pena!

O Rapaz Selvagem, de Paolo Cognetti



"O Rapaz Selvagem" de Paolo Cognetti
Publicações Dom Quixote, 2018
159 Páginas

Citadino (de Milão, mais concretamente), mas habituado a passar uma parte das férias de Verão na montanha, o autor deste livro decidiu ir uma temporada sozinho e livre de amarras (sociais e não só) para uma cabana alpina. 

O seu grande objectivo é, um pouco na linha de Christopher McCandless, reencontrar-se consigo próprio e desafiar-se, sem, todavia, ser radical e levar a experiência ao limite. Terminado o Verão e já no inicio do Outono, Paolo Cognetti regressa ao "conforto" da sua vida, em Milão, são e salvo, trazendo consigo uma série de episódios, vivências e amizades da temporada passada no meio da natureza nos Alpes. 

"O Rapaz Selvagem" é o primeiro livro de Cognetti que leio e não será o único porque gostei bastante do estilo. Além de ter uma escrita leve (e não simplista, entenda-se) e agradável, recorre com frequência a citações e excertos de outros autores italianos e não italianos quando se refere à natureza existente na montanha, ao tema da solidão e da liberdade. 

Destaco, de igual modo, a referência que Cognetti faz a alguns aspectos da cultura e gastronomia italiana, mais característicos do Norte alpino, que fiquei a conhecer e com vontade de saber mais... 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Lobo das Estepes, de Hermann Hesse


"O Lobo das Estepes" de Hermann Hesse
Publicações Dom Quixote, 2014 
266 Páginas



Ler Hermann Hesse significa quase sempre mergulhar num outro universo, quase mágico, muitas vezes fantasioso. "O Lobo das Estepes" não é excepção. Aqui temos alguém que é meio homem, meio lobo, sendo que esta sua última característica se relaciona com a necessidade de se isolar e permanecer tranquilamente em desassossegada solidão. 

Sem entrar em mais detalhes acerca da história (e reflexão) que aqui podemos encontrar, gostava de notar que aqui também entram Mozart e Goethe e um jogo de Xadrez (porque a vida também se joga com várias e diferentes peças). E o resultado são algumas horas bem passadas a ler Hesse, Prémio Nobel da Literatura em 1946. 


A escrita é fluída e clara, filosófica que baste, e a história é bonita. Deixa-nos, de alguma forma, a pensar... tanto em nós próprios, como em alguém que conhecemos... Há mais lobos por aí do que se possa imaginar e isso não é assim tão mau e assustador quanto possa parecer à primeira vista. É... desafiante e, de uma maneira ou de outra, serve para aprendermos algo e crescermos como seres humanos. 


Por fim, "O Lobo das Estepes" deve ser igualmente lido, contextualizando-a no período histórico em que foi publicado pela primeira vez. Porque os homens e as suas obras são, por inevitabilidade, produto do contexto temporal (e não só) em que se desenvolvem... Hesse publicou-o em 1927, após a Primeira Guerra Mundial (e as marcas da Guerra sentem-se em várias partes do texto), numa altura em que na cena internacional se tentava comprometer a Alemanha com o objectivo de evitar um novo conflito armado, já se tinham experimentado os horrores da Guerra (a primeira Total com consequências nefastas que acabariam por levar à Segunda Guerra Mundial) e o desencantamento... O mesmo desencantamento que, por vezes, nos leva a procurar a solidão da nossa própria companhia e o "afastamento" ainda que provisório da realidade que se encontra lá fora e que, em certa medida, nos "feriu"...




História Natural da Destruição, de W.G. Sebald


"História Natural da Destruição" de W. G. Sebald
Quetzal, 2017
139 Páginas


Antes de mais, começo por dizer que não consigo compreender o porquê do título deste livro na sua edição portuguesa ser "História Natural da Destruição"... Até porque aquilo que aqui se aborda não é necessariamente uma história acerca da destruição e já explico seguidamente a minha ideia:

A edição original em língua alemã chama-se "Luftkrieg und Literatur", ou seja, guerra aérea e literatura. Neste livro o escritor alemão W.G.Sebald, nascido em plena Segunda Guerra Mundial (1944),  aborda o modo como os alemães recalcaram e continuaram silenciosamente as suas vidas após os bombardeamentos devastadores que atingiram as cidades alemãs durante a Grande Guerra. E, assim sendo, qual o sentido do título da edição portuguesa? 

É certo que se aborda a destruição, mas a verdade é que tudo o que envolva guerra/violência envolve destruição (independentemente da forma que ela adquira) e a existência da guerra/violência é anterior à Segunda Guerra Mundial. Portanto, se esta é uma História Natural da Destruição deveria recuar mais atrás e isso não se verifica. 

Mas... Focando-me no conteúdo do livro de Sebald, devo dizer que nele li uma das descrições mais impressionantes do modo como os alemães reagiram aos ataques aéreos realizados no Verão de 1943 à cidade de Hamburgo. Também me impressionou o modo como aqueles que levaram a cabo os ditos ataques os consideravam como "fogo de artificio". E Sebald não recorre a isto para desculpar os alemães... Pelo contrário! 

Creio que este livro colmata uma importante lacuna relacionada com a quase inexistência de literatura acerca da questão da destruição, através de bombardeamentos, das cidades alemãs, que importa conhecer para se compreender a Alemanha (e os alemães) do pós Guerra. 

terça-feira, 26 de março de 2019

Ensina-me a voar sobre o telhados, de João Tordo

"Ensina-me a voar sobre os telhados" de João Tordo
Companhia das Letras, 2018
487 Páginas



"Ensina-me a Voar sobre os Telhados" é o primeiro livro que leio de João Tordo. Decidi lê-lo porque queria ler algo deste autor, o título apela ao imaginário, uma parte da história passa-se no Liceu Camões onde estudei e passei uma fase marcante do meu desenvolvimento e, a par de outras "paixões", percebi que faço parte dos admiradores da cultura japonesa, aspecto também explorado neste livro. 

Não é um livro leve. Está longe de o ser. E também não é assim tão simples. Requer paciência e vontade. Vontade de perceber qual é o destino de tudo o que ali está escrito e a mensagem que Tordo pretende transmitir. Admito que tive momentos de arrependimento, de cansaço e tédio, apesar do livro estar bem escrito. Senti que, em algumas circunstâncias, o autor abusou da densidade e disponibilizou um pequeno-grande fardo ao leitor mais corajoso. A carga emocional da parte japonesa da história é qualquer coisa de... muito intenso e doloroso, embora essa parte da história seja para mim a mais bonita. A parte portuguesa da história teve alturas que me pareceu não levar a lado nenhum e só senti essa sensação desaparecer quando se dá o cruzamento desta parte com a parte japonesa. 

É um livro triste. Com histórias de sofrimento, vicio, obsessão e descontrolo. Com algumas personagens extremamente bem arquitectadas, sobretudo do lado japonês. Tordo aborda a questão do alcoolismo, da violência do pai para com o filho, da surdez e do suicidio. 

Gostei, mas não adorei. Tive uns momentos em que pensei se tinha escolhido o livro certo, e na dúvida talvez fosse melhor deixá-lo de lado, e outros momentos em que desejei ler o mais rápido possível para chegar ao fim e poder largar todas aquelas "dores"...!

quarta-feira, 20 de março de 2019

Tönio Kröger/Mario und der Zauberer, de Thomas Mann


"Tonio Kröger/Mario und der Zauberer" de Thomas Mann
Fischer Verlag, 2018
127 Páginas


Este é o estilo de Thomas Mann que eu mais aprecio. Lírico e inquietante, sem se perder em excessos para além daqueles que são próprios de algumas das suas personagens e da mensagem que as obras pretendem transmitir sobre determinado assunto. 

Neste caso em concreto, "Tonio Kröger" aborda o conflito entre a fria disciplina e a organização nórdica e a sensibilidade e sensualidade sulista, os olhos azuis e o cabelo loiro paternos e os olhos escuros e cabelo também escuro maternos, a pertença à burguesia sentindo-se tantas vezes posto "de lado", os amores platónicos e inalcansáveis próprios dos primeiros anos, a admiração pelo que é belo e a atração pelo que é diferente e oposto, a vontade de ser comum, simples e despreocupado em vez de estar constantemente a questionar a sua existência e a tentar compreender tudo...

Seria mais fácil ser burguês puro e duro, sem sofrer as paixões próprias daqueles que nascem toldados para o mundo da arte e que tudo sentem, até demais. Compreendo em parte Tonio e este seu dilema de tudo questionar, de tudo querer compreender, de tudo sentir.... Creio que temos isso em comum e, tal como ele, dou comigo várias vezes em conflito por ser assim... e não ser mais "leve"! 

Adorei.

terça-feira, 19 de março de 2019

Ho'oponopono, Mindfulness e Reiki, de Juliana De' Carli



"Ho’oponopono, Mindfulness e Reiki" de Juliana De' Carli
Nascente, 2018
224 Páginas




Este livro aborda três técnicas de transmutação de energia (de negativa em positiva): o Ho’oponopono,  o Mindfulness e o Reiki. Sobre a primeira, o Ho’oponopono, já li o outro livro da autora (e mais alguns artigos no Verão passado que encontrei por aí), que gostei e recomendo. Em relação às outras duas, esta é a primeira vez que leio sobre elas, tendo achado que o que podemos encontrar neste livro é essencialmente a demonstração da possibilidade de recorrer às três técnicas de forma articulada e complementar (fruto da experiência da autora, Juliana De' Carli, que parece trabalhar nesta área) por um lado. Por outro lado, senti que "Ho’oponopono, Mindfulness e Reiki" se constitui, acima de tudo, como uma obra introdutória, tendo ficado muito por explorar em particular no que respeita as estas duas últimas.

Apesar de ter gostado no geral da obra e de ter aprendido com ela, não senti grande utilidade/necessidade no capitulo acerca dos testemunhos acerca da eficácia das três técnicas, nem no capítulo relativo às perguntas que os alunos lhe costumam colocar, pois muitas das respostas li-as diluidas ao longo do livro, acabando por soar aqui a repetição e a um "mais do mesmo".



https://www.goodreads.com/review/show/2750973648