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quarta-feira, 20 de março de 2019

Tönio Kröger/Mario und der Zauberer, de Thomas Mann


"Tonio Kröger/Mario und der Zauberer" de Thomas Mann
Fischer Verlag, 2018
127 Páginas


Este é o estilo de Thomas Mann que eu mais aprecio. Lírico e inquietante, sem se perder em excessos para além daqueles que são próprios de algumas das suas personagens e da mensagem que as obras pretendem transmitir sobre determinado assunto. 

Neste caso em concreto, "Tonio Kröger" aborda o conflito entre a fria disciplina e a organização nórdica e a sensibilidade e sensualidade sulista, os olhos azuis e o cabelo loiro paternos e os olhos escuros e cabelo também escuro maternos, a pertença à burguesia sentindo-se tantas vezes posto "de lado", os amores platónicos e inalcansáveis próprios dos primeiros anos, a admiração pelo que é belo e a atração pelo que é diferente e oposto, a vontade de ser comum, simples e despreocupado em vez de estar constantemente a questionar a sua existência e a tentar compreender tudo...

Seria mais fácil ser burguês puro e duro, sem sofrer as paixões próprias daqueles que nascem toldados para o mundo da arte e que tudo sentem, até demais. Compreendo em parte Tonio e este seu dilema de tudo questionar, de tudo querer compreender, de tudo sentir.... Creio que temos isso em comum e, tal como ele, dou comigo várias vezes em conflito por ser assim... e não ser mais "leve"! 

Adorei.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Os Buddenbrook, de Thomas Mann

"Os Buddenbrook" de Thomas Mann
Publicações Dom Quixote, 2011 
638 Páginas


Esta foi a minha segunda experiência com Thomas Mann, mas a primeira sob o ponto de vista ficcional. A história conquistou-me aos poucos, devagar, de forma incisiva. A partir das quatrocentas e tal páginas ansiei por chegar ao fim, sobretudo porque começava de algum modo a antever a queda/decadência da familia a aproximar-se. A verdade, porém, é que quando cheguei ao fim, senti-me como que órfã e desamparada... Os Buddenbrook já faziam (e fazem) parte de mim. E devo dizer que gostei muito. 

Não se lê rapidamente, lê-se demorada e pensadamente, sendo que reflectiremos sobre a obra durante e após a sua leitura. Uma das razões para isto acontecer relaciona-se como facto dos temas abordados, ainda que relativos ao século XIX, se manterem actuais. 

Refiro-me à questão da disputa de uma herança entre irmãos feita de forma mesquinha e destruidora, o desbaratamento ao fim de duas/três gerações de um negócio de familia importante e de peso, com impacto na vida política de então. Digno de nota é igualmente o papel da mulher neste período que, para mim, é um dos aspectos mais interessantes na obra. A sociedade aqui retratada é patriarcal até à exaustão.

A mulher devia casar-se antes dos trinta anos (para não ficar solteirona - termo que sempre me enojou e, sim, quero mesmo dizer enojar - e a viver com os pais e, mais tarde, após a morte destes, com os irmãos, tornando-se uma presença quase indesejada) e fazê-lo com um homem que a sustente, permitindo-lhe "aumentar" a sua posição social, bem como "juntar" riquezas entre empresas-familias. Recorde-se que neste período a mulher tinha um dote, algo mais comum entre as camadas mais ricas da sociedade, o "preço" que a familia desta pagava para o/pelo noivo se casar com ela e que a colocava a mulher numa posição de vulnerabilidade e fragilidade. Ademais, a mulher era vista como "uma criança" até ao casamento e, findo o mesmo (apenas sob condições muito especificas), caía numa espécie de decadência e infortúnio... Hoje incompreensiveis para mim. Porque a mulher tem o direito e a capacidade de ser tão independente quanto o homem. O que é que o homem tem a mais que a mulher?! São seres humanos, ambos!

Por outro lado, outra das razões que justificam o interesse pela obra prendem-se com o retrato que nos é oferecido, por um alemão, sobre a Alemanha (que não é o país que hoje conhecemos; era um conjunto de vários Estados diferentes e independentes entre si) do século XIX, sobre a revolução de 1848 (conhecida como a Primavera dos povos), de Lübeck (uma cidade pertencente à Liga Hanseática. 

Do ponto de vista da escrita de Thomas Mann o estilo é soberbo. Talvez não seja o tipo de leitura indicada para quem prefere algo mais leve ou para quem não goste mesmo de ler a sério. Para quem tem na leitura uma verdadeira paixão e gosta de literatura a sério, este é um clássico digno desse mesmo nome (e não é maçudo, acreditem). As descrições dos espaços, das personagens, ... é tão bem feita que o leitor quase que se sente a observar o desenrolar da história "em directo". 

Além disso, esta foi, tanto quanto pude apurar, a obra que valeu a Thomas Mann a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1929. E quando se termina a sua leitura percebe-se bem porquê...! Gostei e muito.


https://www.goodreads.com/review/show/1940406105