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segunda-feira, 27 de março de 2023

"The Dumas Club" de Arturo Pérez-Reverte



"The Dumas Club" de Arturo Pérez-Reverte
Vintage, 1993
323 Páginas

Arturo Pérez-Reverte é considerado um dos maiores escritores espanhóis da actualidade, tal como Carlos Ruiz Zafón, e apenas tenho a lamentar o facto de só ter lido algo seu agora... Porque é genial!

Um livro sobre outros livros, "The Dumas Club" passa-se essencialmente entre três grandes locais: Toledo, Sintra e Paris. Tudo por causa de um livro ou, melhor três cópias de um livro, sobre o diabo. Qual é a verdadeira? Serão todas? Não é nenhuma? O que as distingue? É isso que Lucas Corso irá procurar descobrir ao longo de uma série de peripécias que, com frequência, colocarão a sua própria vida em risco. A sorte é que pelo meio... há sempre alguém que aparece para o proteger e "salvar", uma jovem de olhos verdes, com quem ele se cruza vezes sem fim em acasos que são curiosas coincidências. Com ela, Corso tem diálogos absolutamente maravilhosos. É a minha personagem preferida, Irene Adler como se apresenta, um anjo caído conta o autor. 

Não darei mais pormenores sobre a história, mas o nome do livro... é uma clara referência a Alexandre Dumas e, em especial, à sua obra "Os Três Mosqueteiros". Várias vezes no decorrer da leitura há referências e paralelismos que são estabelecidos entre esta "nossa história" e aquela outra de Dumas. Todas elas muito curiosas e acertadas! 

Gostei muito do livro. Li-o depois de ter visto o filme "The Ninth Gate" com Johnny Deep (grandes recomendações) e valeu mesmo a pena! Uma coisa não ofusca a outra e o facto de ter lido o livro após ter visto o filme tornou a experiência da leitura mais rica e diferente.

https://www.goodreads.com/review/show/5397289334

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Das Fräulein von Scuderi, de E.T.A. Hoffmann

"Das Fräulein von Scuderi" de E.T.A. Hoffmann
Reclam, 2017
80 páginas


Disponível também em língua inglesa, " Das Fräulein von Scuderi" de E.T.A. Hoffmann foi o primeiro policial alemão e, tanto quanto sei, o primeiro europeu. Muitas das personagens aqui apresentadas existiram na realidade, tendo sofrido da realidade para a ficção algumas adaptações que não serão objecto da minha opinião sob pena de apresentar "spoilers"... Mas uma delas é a senhora Scuderi, uma figura extremamente interessante (uma das coisas mais curiosas é que nunca se casou por considerar que tal colocava em causa a independência/liberdade da mulher) e culta do século XVII-XVIII. 

O escritor, E.T.A. Hoffmann era jurista de profissão, sendo também compositor, pintor, cenógrafo, ... E a verdade é que parece usar a sua experiência como jurista na elaboração desta história passada em Paris do século XVII, quando as noites eram escuras e a iluminação eléctrica ainda não existia potenciando roubos e mortes em grande número. É este o "palco" da história de "Das Fräulein von Scuderi". 

A narrativa é dinâmica, sem grandes pausas (nem sequer há capítulos), e a dada altura dei comigo a querer ler tudo sem parar para perceber quem é que era o assassino e se aquele que era declarado como culpado o era ou não. 

Gosto de policiais (filmes), mas livros policiais não são, até à data, o meu forte... Portanto, apesar de ter gostado do que li, continuo a preferir outros géneros literários. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Neun Tage in Lissabon


"Neun Tage in Lissabon" de Hervé Le Tellier
DTV, 2015
277 Páginas

"Neun Tage in Lissabon" é um passeio pelas ruas de Lisboa, mas também por uma parte da história e cultura portuguesas. E aqui reside, no meu entender, a maior beleza deste livro. É extremamente agradável ler sobre autores portugueses conhecidos e menos conhecidos nas palavras de um autor estrangeiro; ler no meio da escrita em alemão algumas palavras portuguesas de um poema pertencente a Fernando Pessoa... Aquece a alma!

Sem entrar em detalhes acerca da história (não me apetece fazer spoiler), este livro centra-se na história de dois amigos, cada qual, com a sua história de insucesso na relação com as mulheres. Esta foi a parte que menos me fascinou porque estou cansada de histórias que não correm bem... Mas, vá, isso é um problema meu. 

Por outro lado, a descoberta da namorada (dos tempos de adolescência/juventude vividos aquando do Estado Novo) e mãe do filho de um deles, conhecida como Pata, mesmo no fim da história tem um sabor agridoce, sendo simultaneamente um aspecto agradável para quem a descobre, mas desagradável para quem é descoberto. O que deixa o leitor a pensar... em como o ser humano tudo complica quando se "mete onde não é chamado" e/ou quando tudo compromete quando se acobarda assistindo impávido, sereno e em silêncio ao desmoronamento da(s) relação (ções) em que está metido. Ambas as situações estão presentes em "Neun Tage in Lissabon". 

Repito, porém, novamente: a maior beleza deste livro está nos dias passados em Lisboa pelos dois amigos luso-franceses, um jornalista e outro fotógrafo, e na descoberta que vão fazendo da cultura portuguesa, dos anos do Estado Novo e da década de oitenta em Portugal. Gostei bastante disso!

https://www.goodreads.com/review/show/2631353478

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Deutschland. Ein Wintermärchen, de Heinrich Heine

"Deutschland. Ein Wintermärchen" de Heinrich Heine
Insel Verlag, 2015
130 Páginas



Se tivesse de encontrar uma palavra apenas para "Deutschland. Ein Wintermärchen" de Heinrich Heine, escolheria satírico...!

Sob a forma de poema, Heine conta a sua viagem de regresso a Hamburg, em 1843, para ir visitar a mãe depois de 13 anos passados a viver em Paris. Pelo caminho, vai falando numa futura unidade da Alemanha, começada com a Zollverein sob direcção do Estado da Prússia, bem como em alguns dos simbolos que estarão na base daquilo que significará "ser alemão". Uma parte, para mim, particularmente engraçada é quando o autor salienta o facto dos franceses andarem a estudar os autores alemães como Kant, Fichte e Hegel, tendo deixado de lado Voltaire.

Gostei. 

https://www.goodreads.com/review/show/2629675410

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Caminhar no Gelo, de Werner Herzog


"Caminhar no Gelo" de Werner Herzog
Tinta-da-China, 2011
124 Páginas

Werner Herzog decide fazer uma caminhada, entre o final de Novembro e o início de Dezembro de 1974 (demorou três semanas), de Munique a Paris, quando fica a saber que a sua mentora no mundo do cinema, Lotte Eisner (alemã que viveu o período do Terceiro Reich e que por ser judia teve de fugir para França), se encontra muito doente e, muito provavelmente, à beira da morte. 

Pelo caminho, Herzog vai dormindo aqui e ali, onde calha, descrevendo sem se perder em detalhes excessivos o que vai vendo, ao mesmo tempo que num momento ou noutro vai tomando mais sentido à solidão que o acompanha. 

Gostei do que li, mas fiquei a achar que a caminhada para "prolongar" a vida de Eisner foi apenas um pretexto para o autor (com um valente espirito aventureiro) fazer esta viagem em pleno Inverno e, mais tarde, escrever este livro. Até porque ele só fala de Eisner no início e praticamente no fim...!

*
"À volta das árvores, no chão enlameado, estão caídas maçãs podres que ninguém apanhou. Misteriosamente, uma das árvores, que de longe parecia ser a única com folhas ainda estava carregada de maçãs. Apanhei uma, era bastante amarga, mas boa para a sede. Atirei o caroço contra a árvore e as maçãs caíram como chuva. Quando pararam de rolar, transmitindo uma imagem de sossego assim caídas, pensei para mim: ninguém pode imaginar esta ausência total de pessoas. Este é o dia mais desolado, mais solitário de todos os dias. Aproximei-me então e sacudi a árvore até ela ficar nua. As maçãs caíram ao chão, engolidas pelo silêncio. Quando tudo chegou ao fim, abateu-se sobre mim um silêncio imenso, e olhei à volta, e não havia ninguém. Ali estava eu sozinho."
[p.91]

https://www.goodreads.com/review/show/1847562325?book_show_action=false&from_review_page=1

domingo, 11 de dezembro de 2016

Viagem a Tralalá, de Wladimir Kaminer

"Viagem a Tralalá" de Wladimir Kaminer
Tinta da China, 2012
157 Páginas


Wladimir Kaminer, um russo tornado posteriormente cidadão alemão (vive em Berlim, actualmente), conta em "Viagem a Tralalá", que fica na Crimeia (a Sul da Ucrânia), cinco episódios de viagens distintos decorridos ainda durante o tempo da Guerra Fria: "desencontro de Paris"; "desencanto da América", "desaparecido da Crimeia"; "desviado na Dinamarca" e "desencaminhado na Sibéria". 

Através de uma escrita leve (Kaminer tem outros livros escritos e publicados e trabalha como DJ), ficamos a conhecer alguns aspectos culturais bastante interessantes não só dos russos, como também dos alemães e dos locais por estes visitados. 

Assim, de todos os episódios, os que gostei mais foram: o "desaparecido da Crimeia", porque dá para compreender qual a importância que esta região tem desde sempre para os russos e o modo como estes encaram a Ucrânia enquanto país, um tema muito actual; o "desviado na Dinamarca", porque já tendo tido oportunidade de visitar este país (que adorei) e conhecer um pouco da sua cultura, senti-me a revisitá-lo, senti-me como que em casa; e o "desencaminhado na Sibéria", porque o autor "brinca" com a ideia da Sibéria como desterro opondo-a à Sibéria como destino de uma viagem de bicicleta, um local onde se podem travar conhecimentos com a população local e conhecer russas que, ao que parece, apreciam muito o homem alemão (comparativamente ao finlandês, por exemplo).

No essencial, o melhor deste livro é mesmo o facto do autor já não escrever apenas como um russo, mas como um russo germanizado porque vive desde há vários anos na Alemanha...!  

*
"Quer em São Petersburgo quer em Moscovo, ao passar pelas ruas pensava repetidamente: «Sim, o Martin ia gostar disso». De facto, nunca vi em Berlim tantas pessoas felizes como nas ruas de Moscovo quando fazia vinte graus negativos. E com vinte e cinco graus negativos os meus compatriotas pareciam ainda mais felizes. Depois de observar cuidadosamente o fenómeno, cheguei à conclusão de que, em caso de temperaturas extremamente baixas, a afabilidade russa não se deve apenas ao prazer de enfrentar dificuldades, mas também em grande parte a um elevado consumo de álcool."
[pp. 151 e 152]

https://www.goodreads.com/review/show/1832769775

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Não terão o meu ódio, de Antoine Leiris


"Não terão o meu ódio" de Antoine Leiris
Objectiva, 2016
139 Páginas

"Não terão o meu ódio" é um livro escrito pelo marido de uma das vítimas, Hélène Muyal-Leiris (http://www.lemonde.fr/attaques-a-pari... ) do atentado de Paris, ocorrido a 13 de Novembro de 2015. 
Hélène morreu no Bataclan, deixando uma criança com um ano e meio, Melvil, e sobre os primeiros dias após a sua morte que Antoine Leiris escreve, na ânsia de se libertar da dor e para que o seu sofrimento fique domesticado, encerrado na jaula com grades de papel, como sublinhou quase nas últimas páginas do livro. 

Leiris começou a escrevê-lo depois de ter publicado na sua página de facebook o texto "Vous n'aurez pas ma haine" (https://www.facebook.com/antoine.leir... ), que se tornou conhecido pelos quatro cantos do mundo. É escrito com o coração, com todo o coração (ou com o que resta dele). É profundo, sensivel, carregando de sentido e de uma força brutal, a força do amor. O texto é belissimo, constrastando com a tristeza e carga da situação que lhe deu origem. O mesmo é válido para este livro...

Lê-se rápido, depressa, sem grandes vontades de pausa. E não se fica indiferente. Não se fica de todo. Dá vontade de recuar no tempo e munidos de poderes sobrenaturais trazer Hélène (e todas as outras vítimas deste atentado) de volta para a(s) sua(s) bonita(s) família(s) e deixar que sejam felizes no seu mundo para sempre, sem sofrerem com um ódio cego que não lhes pertence e que orienta este mal com cada vez mais peso nos nossos dias, o Terrorismo...!
*
"É claro que ter um culpado à mão, alguém sobre quem possamos despejar a nossa raiva, é uma porta entreaberta, uma oportunidade para nos esquivarmos ao sofrimento. E quanto mais detestável for o crime, mais o culpado é ideal, mais o ódio é legítimo. Pensamos nele para deixarmos de pensar em nós próprios, detestamo-lo a ele para não odiarmos a nossa vida, regozijamo-nos com a morte dele para não voltarmos a sorrir aos que cá ficaram." 
(Leiris,2016, p. 39)

https://www.goodreads.com/review/show/1679507542?book_show_action=false

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Minha Viagem pela Europa, de Charlie Chaplin



"A Minha Viagem pela Europa" de Charlie Chaplin
Edições Matéria-Prima, 2011
251 Páginas

"A minha viagem pela Europa" refere-se, como o próprio título indica, à viagem realizada por Charlie Chaplin, em 1922, com o intuito de vir passar férias à Europa e visitar Londres, após sete anos de intenso trabalho em Hollywood. 

Procurando passar despercebido e no anonimato, coisa que só poucas vezes consegue atingir com sucesso, Chaplin conta-nos o que vê, faz, com quem se encontra e que sente quando regressa à cidade de Londres e ao local onde nasceu, fazendo o mesmo relativamente à sua passagem por Paris e Berlim. Nestas três cidades o autor consegue sempre identificar a presença das consequências da Primeira Guerra Mundial, quatro anos depois desta ter terminado e revela-se extremamente observador da realidade, sobretudo no caso da Alemanha, onde sublinha algo, também já destacado por Aquilino Ribeiro na "Alemanha Ensanguentada", como seja a miséria (os pedintes), os soldados sem perna e de uniforme gasto do tempo e do uso, e a amargura/irritação quando o assunto é o desfecho da Guerra para a Alemanha. 

Por outro lado, e para além destas referências às cidades no pós Guerra, Chaplin oferece-nos um interessante relato sobre o modo como gosta de sentir o seu trabalho reconhecido e ser acarinhado pelo público que o acompanha em multidões para todo o lado. E ele dá sempre o melhor de si, o seu sorriso mais genuíno na hora de lhe deixar tirar mais uma fotografia. Isto para não falar na forma genuína e sensível com que demonstra compaixão por aqueles que vivem em condições mais desfavorecidas, procurando, sempre que possível, ajudá-los de alguma forma.

Enfim, "A minha viagem pela Europa" revela-nos o lado humano escondido atrás do "boneco" engraçado de bengala, chapéu e sapatos grandes, que muitas gargalhadas e momentos de descontração conseguiu arrancar a todos os fãs do admirável mundo do cinema e, não é recomendável, mas sim altamente recomendável!
*
"Olho para a lua e para as estrelas e diz-me quão estúpida é a festa, qualquer festa, comparada com a beleza da noite. O silêncio é um dom universal e do qual poucos de nós desfrutam. Talvez porque não possa ser comprado. Os homens ricos compram ruído. As almas deliciam-se com os silêncio da natureza." [Chaplin, 2011, pp.38 e 39]

https://www.goodreads.com/review/show?id=1590301461