terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Meu Século, de Günter Grass


"O Meu Século" de Günter Grass
Casa das Letras, 2006
287 Páginas


"O Meu Século" de Günter Grass é daqueles livros díficeis de nos agarrar... E a mim, não me conseguiu agarrar. Não me conseguiu sequer prender. Li-o porque tinha de o ler!

Para além do tempo, os tais cem anos (o livro começa em 1900 e termina em 1999), e o espaço, entenda-se a Alemanha, não se percebe qual o fim condutor da obra. O narrador assume, por vezes. o papel de uma mulher, outras vezes, de um casal e parece-me (porque a escrita nem sempre é muito clara, o que não nos permite ter certezas de nada) também que o próprio autor se coloca nessa posição.


Por cada ano, o leitor é presenteado com duas a três páginas totalmente inesperadas. Nunca sabe se bem o que se irá encontrar a seguir. Há momentos em que Grass consegue dar uma ideia dos principais acontecimentos desse ano, mas há outros em que um conhecedor de História alemã (nomeadamente do século XX e XXI) se questiona o porquê de ele escrever sobre o tipo de pequeno almoço tomado e uma conversa totalmente banal que o narrador teve com a esposa, parecendo que se está diante do excerto de um diário. 


Há, contudo, partes que saliento porque me conseguiram chamar à atenção para caracteristicas do período histórico a que se referem, como uma transcrição de uma conversa com Remarque ou Jünger a respeito da Primeira Guerra, o cenário de lascas de tijolos por toda a parte em que a Alemanha se vê logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, a descrição das lojas com montras a abarrotar quando a moeda da Alemanha Ocidental começa a ser o D-Mark, uma carta de reclamação à Volkswagen (porque o carocha não chega à RDA), o problema das florestas alemães que começam a sofrer os efeitos das chuvas ácidas nos anos oitenta e até a própria venda de armas alemãs ao regime de Saddam Hussein.... 


Face ao exposto, julgo que o mais proveitoso para aqueles que se decidirem a ler esta obra será lerem um ou dois textos por dia. Não adianta tentar ler este livro como um romance, nem tão pouco o leitor deverá temer não se lembrar do que Grass escreveu no texto do ano anterior àquele (texto) que se encontra a ler no presente momento. "O Meu Século" é, na verdade, um conjunto de textos de vários temas (sempre relacionados com a Alemanha, mas muito dispersos entre si) que se vão encaixando em cada ano, entre 1900 e 1999.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O Despertar do Mundo, de Rhidian Brook

"O Despertar do Mundo" de Rhidian Brook
Edições Asa, 2014
328 Páginas

Baseado na experiência do avô do autor, "O Despertar do Mundo" retrata a Alemanha saída da Segunda Guerra Mundial, em 1946, quando derrotada e dividida se encontra em ruínas, faminta e a carecer de uma complexa reconstrução da sua sociedade e das vidas individuais dos alemães.

A história passa-se no sector inglês (recorde-se que a Alemanha havia sido dividida em quatro sectores, cada qual ao cargo de uma das quatro potências vencedoras: EUA, Grã-Bretanha, França e URSS), entre uma família inglesa (a do coronel Lewis Morgan) que vai ocupar uma casa de uma família alemã (Lubert), sem a desalojar, o que não era muito comum, na cidade de Hamburg. 

Numa Alemanha a tentar recuperar a paz, cada um dos elementos de cada uma destas duas famílias está também a viver um conflito interno. Ambas sofreram e sofrem com a perda de familiares chegados por causa da Guerra, estando inconformadas com a realidade. No meio de tudo isto, há também lugar para uma paixão proibida e traição, motes para a libertação de algumas personagens e para o virar da página ao passado recente. Há igualmente a rebeldia e a solidão e a esperança que nasce inesperada dos escombros, dando um rumo surpreendente à história.

Gostei muito deste livro, bem escrito e articulado, e ainda mais por saber que se baseia em factos reais. O tema da Alemanha no pós Guerra é-me querido e o modo como este militar defende a importância da convivência com respeito entre vencedores e vencidos de uma Guerra parece-me particularmente feliz e inteligente (embora tudo tenha os seus prós e contras no que respeita à vida de cada um). Na minha opinião, esta trata-se de uma interessante lição de vida, sendo que o argumento desta história dava, sem dúvida nenhuma, um excelente filme! 

*
"Raramente falamos das coisas que realmente importam. Andamos à volta delas em bicos de pés. Penso que é o espirito desta era. Uma ressaca dos vitorianos. Ou por causa de demasiadas guerras. Não sei. Se o futuro pudesse ser qualquer coisa, gostaria que fosse um futuro em que as pessoas pudessem falar daquilo que importa." [Rhidian Brook, 2014, p.244]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O Fim de Semana, de Bernhard Schlink



"O Fim de Semana" de Bernhard Schlink
Edições Asa, 2010,
192 Páginas


A história que Bernhard Schlink nos traz passa-se como o próprio título indica num fim-de-semana: Sexta-feira, Sábado e Domingo, quando um grupo de amigos outrora revolucionários e cheios de ideais se decidem reencontrar para festejar a libertação de um deles (após vinte e três anos de prisão), em tempos membro da "Rote Armee Fraktion" (RAF), uma organização terrorista alemã de extrema-esquerda operante entre 1970 e 1998 na Alemanha ocidental. 

Agora, todos eles estão perfeitamente integrados na sociedade contra a qual lutaram, desempenhando papeis perfeitamente normais. Temos um advogado, um jornalista, um empresário, uma pastora, uma professora e uma médica, entre outras personagens que vão surgindo na história para esmiuçar o sentido da verdade e o alcance dos sonhos da juventude. 

O autor explora aqui a culpa e o peso da memória que se quer esquecer, algo que lhe é caracteristico de outras obras, que muito se encontra relacionado com os complexos da sociedade alemã saída da Segunda Guerra Mundial, e que é particularmente evidente na geração de que o autor (nascido em 1944) faz parte. 

Schlink não escreve uma história ao nível de "O Leitor", obra também existente em filme e de sucesso inigualável, mas leva-nos uma vez mais a pensar na psicologia do que é ser alemão e do que é confrontar o passado histórico da Alemanha (questão do Nazismo e da sua relação com o Holocausto) com a realidade do Terrorismo. E esse Terrorismo aqui é não só próprio de uma circunstância própria do país (com o aparecimento da RAF nos anos 70), como também se relaciona com o 11 de Setembro e as mudanças daí decorrentes. 

Gostei de "O Fim de Semana" e recomendo a sua leitura, considerando, no entanto, que a sinopse do livro deveria ser reescrita, de forma a tornar o livro mais apelativo para qualquer leitor (e não apenas para os mais curiosos e conhecedores da História da Alemanha). Por outro lado, entendo que algumas personagens mereciam que o autor lhes tivesse dado maior profundidade e solidez, o que teria facilitado a passagem da mensagem que Schlink quer fazer e a que já me referi. 

*
"Perdemos o que éramos e o que queríamos ser e talvez até aquilo que estávamos destinados a ser. Em troca, encontrámos outras coisas. (...)" [Bernhard Schlink, 2010, p.132]


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Praia Roubada, de Joanne Harris

"A Praia Roubada" de Joanne Harris

Edições Asa, 2002
398 Páginas
*



Em "A Praia Roubada" somos levados até à ilha de Les Salants, onde a protagonista mais conhecida por Mado decide voltar (após a morte da sua mãe com quem vivia em Paris) e acaba por dar um novo rumo à sua vida (regressando ao contacto com o pai) e também à própria ilha onde nasceu e cresceu. O reencontro com a irmã Adrienne, algum tempo depois, e o conhecimento que trava com um irlandês, Flynn, acabarão por influenciar de forma significativa a história. 


Convém salientar igualmente a existência de uma interessante animosidade e rivalidade da ilha de Les Salants (a prejudicada) com a de La Houssinière (a privilegiada) e o estranho mistério da areia que desaparece sem motivo aparente, aspectos centrais numa história muito marítima e onde todas as sensações são, por isso mesmo, sinónimo de mar, água e sal, praia, areia, navegar, barcos, temporal e vento. 


Joanne Harris mantém-se fiel ao estilo que já habituou os seus leitores e não os desilude. Misteriosa e rebelde e complexa que baste, a sua escrita e a história que criou conseguem cativar o leitor desde o início até ao fim, sem que se sinta um esforço exagerado. Aliás, este parece ser um dos seus talentos, que se manifesta de forma tão natural como o tipo de sensações que desperta!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Desamparo, de Inês Pedrosa


"Desamparo" de Inês Pedrosa
Publicações Dom Quixote, 2015
315 Páginas

"Desamparo" passa-se, por um lado, em torno das viagens mais ou menos duradouras (algumas tendo nascido em Portugal vivem no Brasil durante boa parte da vida e depois regressam a Portugal, outras naturais do Brasil vem para Portugal viver e mais tarde regressam à origem) das personagens entre Portugal e o Brasil e, pelo outro, no contexto da crise económico-financeira iniciada em 2008 em Portugal. Este último tema não me causa grande simpatia porque a distância que tenho em relação a este é demasiado próxima! Aqui quase todas as personagens sofrem de desamparo, tendo sido abandonadas por alguém de que muito gostavam ou vivendo sem recursos suficientes, quase no limite. 

Ao contrário dos outros livros que já li da autora, notei que, neste livro, Inês Pedrosa brinca talvez menos do que o habitual com as palavras. Senti alguma falta da presença, do início ao fim, do seu modo de escrever as histórias a cantar. E, por vezes, admito que tive alguma dificuldade em compreender as várias personagens. A história centra-se essencialmente em duas personagens e depois a partir destas há várias outras. Mas esta ligação nem sempre me pareceu muito clara.

Convém também sublinhar o empenho da autora em recorrer a expressões de Português do Brasil, quando as personagens são originárias do Brasil ou aí permaneceram muito tempo, bem como as aspectos mais característicos da cultura brasileira. 

Não estando entre as obras que mais gostei da autora, recomendo-a, ainda assim, sobretudo para aqueles que quiserem revisitar o impacto desta crise nas vidas individuais de cada um e (re)conhecer a realidade que se vive no interior do país entre os mais velhos (a solidão e a falta de amparo).

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, de Stefan Zweig



"O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu" de Stefan Zweig
Assírio & Alvim, 2014
508 Páginas


"O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu" trata-se de uma autobiografia da autoria do austriaco Stefan Zweig, versando sobre a sua vida antes da Primeira Guerra Mundial, durante e após a Primeira Guerra Mundial, antes da Segunda Guerra Mundial e durante a mesma. E, por isso mesmo, altamente recomendável por quem se interesse por conhecer um pouco mais sobre este "grande" período histórico, o das Guerras Mundiais.

Zweig fala da mudança de valores que a sociedade atravessa ao longo deste tempo, do quão odiosa é a guerra e, ao mesmo tempo, da sua experiência pessoal no meio disto tudo. Dos seus estados de espírito, das suas amizades com nomes como Sigmund Freud, das suas viagens e, finalmente, do seu sentimento de não pertença a lugar nenhum com a Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos judeus (ele era judeu). Um sentimento que o levaria, mais tarde, a cometer suicidio já no Brasil, terra que o acolheu de braços abertos e que ele muito estimava (afinal, escreveu mesmo um livro sobre o Brasil, "Brasil, país de futuro"). 

A obra termina com as seguintes palavras que, na minha perspectiva, sintetizam na perfeição o seu conteúdo e a vida de Zweig: 
"Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, a guerra e a paz, a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido". 

https://www.goodreads.com/review/show/1236636954

sábado, 24 de janeiro de 2015

Não se encontra o que se procura, de Miguel Sousa Tavares

"Não se encontra o que se procura" de Miguel Sousa Tavares
Clube do Autor, 2014
266 Páginas

"Não se encontra o que se procura" é um livro de histórias, memórias/diário e viagens. É um livro de experiências, de gostos, de saudades e de observação/vivência de outras vidas.

São crónicas, pois são, mas por isso mesmo, é dificil não gostar, é dificil parar de as ler. Especialmente porque a seguir, a uma que se gosta muito, vem outra ainda melhor e se, por acaso, surge uma crónica que não se gosta tanto (o que é raro), vem imediatamente a seguir uma outra que compensa... E vale muito a pena. 

Quanto ao estilo da escrita, a escrita de Miguel Sousa Tavares oscila entre o mordaz e o irónico, e o sincero e intimista. E é, com frequência, muito natural... Muito dado ao viajar-olhar, às paisagens mediterrânicas (o sol e o mar são constantes) e a um tão amado Brasil (onde a língua parece quase cantada), ao Algarve (às grutas de Lagos) e ao Alentejo. E nostálgico, pois são várias as referências à sua mãe, Sophia. Referências ternas (pelos olhos de um filho que sente a sua falta e a recorda com todo o carinho e saudade) e curiosas para quem como eu admira Sophia de Mello Breyner Andresen como pessoa e como escritora! 

Gostei muito.


*
"A cada Verão que começa, lembro-me sempre do que dizia Rilke: "Só o Verão merece ser vivido". Eu sempre pensei o mesmo, mas o Verão, para mim, é o do Sul, do calor sem tréguas, das sombras das árvores ou das esquinas das casas caiadas, do azul translúcido do mar, do grito das cigarras durante o dia ou das rãs durante a noite, das sombras que o luar deixa nos jardins, quando é lua cheia e toda a vida parece uma promessa de felicidade. "

https://www.goodreads.com/review/show/1173875350