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domingo, 23 de agosto de 2026

"Sympathy Tower Tokyo" de Rie Qudan



"Sympathy Tower Tokyo" de Rie Qudan
Casa das Letras, 2026
192 Páginas

Cinco por cento deste livro foi escrito com recurso ao uso de inteligência artificial (ChatGPT), o que desde logo me chamou à atenção para a necessidade de o ler. 

A autora apresenta, em "Sympathy Tower Tokyo", uma sociedade distópica que considera os criminosos como vítimas da sociedade merecendo compaixão ao invés de castigo. 

Há aqui interessantes reflexões sobre a arquitectura e, em particular, Zara Hadid, verificando-se o mesmo quanto ao papel da linguagem e da inteligência artificial. 

Não foi dos livros que mais gostei, mas ainda assim gostei porque faz o leitor olhar para alguns problemas actuais, em que a sociedade caiu e está a cair, um dos quais que me incomoda bastante: ter um texto alterado porque foi usada uma palavra que poderia não ser a mais politicamente correcta para os dias que correm, quando a palavra sempre foi usada em língua portuguesa e naquele contexto percebia-se nitidamente o seu uso de forma neutra. É triste quando temos de amordaçar a nossa própria língua porque a palavra x ou y passou a ser passível de ser conotada/associada a determinado preconceito/ideologia que, entretanto, surgiu... e está em quem lê, não em quem escreve.


https://www.goodreads.com/review/show/8881709604

sábado, 11 de fevereiro de 2023

"Fahrenheit 451" de Ray Bradbury


"Fahrenheit 451" de Ray Bradbury
11x17, 2020
238 Páginas 


Em "Fahrenheit 451" queimam-se livros para não pensar, para não questionar. Vive-se do instante, da superficialidade, da televisão manipuladora. Livre-se de quem seja apanhado a ler... Ler é coisa do demo e está proibido. 

O fogo destrói "a responsabilidade e a consequência. Se um problema se nos torna demasiado complicado, fogo com ele" (p.153). Os bombeiros aqui... não apagam fogos, queimam livros e eventualmente casas se necessário. 

Até um dia em que Montag - um bombeiro queimador de livros - se começa a questionar... E aí sim, temos livro... Um grande livro sobre a destruição de livros que nos faz pensar no poder dos livros e em como a nossa sociedade se está a auto-destruir grandemente... quando se concentra mais no prazer imediato e instantâneo, quando se reescrevem clássicos porque ofendem este e aquele direito desvirtuando completamente o sentido, o contexto e o argumento das obras, quando se proibem certos livros porque são considerados extremistas (e refiro-me a autores como Tolkien, Huxley, Orwell, Shakespeare, Kipling...)?! 

Ray Bradbury brinda-nos, pois, com uma grande obra... Daquelas que não envelhecem e que são autênticos gritos no meio da da corredoria dos dias e do imediatismo superficial. A ler! 

https://www.goodreads.com/review/show/5328211557

quinta-feira, 16 de abril de 2020

1984, de George Orwell


"1984" de George Orwell
Antígona, 2015
327 Páginas




Costuma dizer-se que à terceira é de vez e parece ter sido o caso. Foi a terceira vez que peguei em "1984" para o ler e desta li-o mesmo todo. Parece que estava na hora...

É um livro extremamente interessante. Porém, devo dizer que muito do que ali está escrito não é nem foi novo para mim... Houve um grande sentimento de "já vi isto", "isto é-me familiar", porventura motivado pelo facto de me terem falado vários vezes nele e/ou pelo facto de estar directamente relacionado com a minha área de formação. 

Num certo sentido, e mesmo que com outros contornos, "1984" é agora (no tempo), sim (e esta ideia não é minha, mas eu concordo com ela). Basta pensarmos por instantes em todo o controlo, e em certa medida falta de privacidade, que o uso das tecnologias de informação/comunicação de forma massiva nos pode proporcionar...

Discordo, todavia, da perspectiva que a dada altura Orwell parece sugerir quando, de alguma forma, defende a ideia de que nem o pensamento é livre. O pensamento é, no meu entender, composto por uma parte relativa àquilo que eu penso (na minha cabeça e que pode incluir aquilo que os outros pensam e aquilo que eu penso efectivamente) e aquilo que eu exprimo, sendo que aquilo que eu exprimo pode incluir ou não aquilo que penso. E havendo um auto-bloqueio em exprimir aquilo que se pensa, não há nem pode haver controlo total sobre o pensamento. Será que nessa circunstância se pode considerar que o pensamento é livre? Uma parte sim, outra não. Posso pensar o que quiser, mas não posso exprimir o que quiser. ["Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos no interior do nosso crânio" (p.30).]

Sem me querer alongar mais, até porque considero que o melhor mesmo é lerem "1984" e tirarem as vossas próprias conclusões (vale a pena), saliento a repetição sucessiva desta ideia com a qual não poderei estar mais de acordo:
"Guerra é Paz. 
Liberdade é Escravidão.
Ignorância é Força."