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terça-feira, 23 de maio de 2017

Equador, de Miguel Sousa Tavares

"Equador" de Miguel Sousa Tavares
Clube do Autor, 2016
510 Páginas



Gosto de Miguel Sousa Tavares, o escritor. Gosto mesmo. E gosto ainda mais quando escreve livros de crónicas (o que não é o caso)...!

Li um quase romance,"No teu Deserto", e este "Equador", romance, ficar-me-á na memória sobretudo e acima de tudo pelas características da sua personagem principal, Luís Bernardo. 

Identifiquei-me com o seu sentido de justiça (aqui relativamente à questão da escravatura), sendo que em algumas circunstâncias identifiquei-me também  muito com o tipo de sentimentos e emoções experimentados por ele durante a sua vivência em São Tomé e Principe, embora nunca lá tenha estado e tenha muita curiosidade em conhecer este país. É verdade que a paisagem nos desperta para determinados estados de espírito, mas é igualmente verdade que estes só se manifestam de determinada forma porque já cá estão connosco (têm em nós a sua semente)...! 

Talvez tenha sido isso mesmo o explica a trajectória de vida desta personagem e o seu desfecho. Essa fuga desenfreada da paixão cega e louca porque, na verdade, estamos apenas diante de um boémio, mulherengo, que escapa de algo que sabe poder fazê-lo perder o tino e o norte.

E concordo com Eduardo Lourenço e com o comentário crítico que faz em relação à obra e que acompanha a mesma... "Equador" tem qualquer coisa de queirosiano. Sendo obras e escritores de épocas diferentes, lembrei-me muito de "Os Maias"no decorrer da leitura de "O Equador". E não foi só por causa da forma como o adultério se proporciona... É a descrição da própria sociedade, todo o cinismo e intriga social, muito bem retratados na minha perspectiva.

https://www.goodreads.com/review/show/1994203415

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Não te deixarei morrer, David Crockett, de Miguel Sousa Tavares


"Não te deixarei morrer, David Crockett" de Miguel Sousa Tavares
Clube do Autor, 2016
218 Páginas


Para quem aprecia tanto como eu o som do mar, do rio e do vento, os momentos solitários de introspecção, as pequenas-grandes coisas desta vida e tem em Sophia de Mello Breyner Andresen (sua mãe) uma das suas escritoras favoritas vinda das memórias de infância, é impossível não gostar do estilo de escrita adoptado por Miguel Sousa Tavares quando decide escrever um livro de crónicas e contos. 

Este é o segundo que leio do estilo, quarto que leio do autor e posso dizer que adorei. Valeu a pena ter desejado tanto que fosse feita uma nova edição do "Não te Deixarei Morrer, David Crockett" e cruzar-me físicamente com ela há dias. Valeu mesmo muito. 

Na verdade, acho que tudo o que eu escrever sobre a obra ficará aquém da imensa paz de espírito e sensação de plenitude com que fiquei quando a li...! Recomendo, recomendo e recomendo. 
*
"E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter. 
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos. (...)"
[Miguel Sousa Tavares, "Não te Deixarei Morrer, David Crockett", pp.32 e 33]

https://www.goodreads.com/review/show/1718815877?book_show_action=false