terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Adeus Berlim, de Wolfgang Herrndorf


"Adeus, Berlim" de Wolfgang Herrndorf
Editorial Presença, 2013
236 Páginas


Herrndorf escreveu em "Adeus, Berlim" uma história sobre dois adolescentes para adolescentes (é notório na forma como o livro está escrito e no tipo de linguagem utilizada), sendo que embora já não me insira nesta categoria e, admito, tenha demorado um pouco a reavivar a memória e a colocar-me nesse papel, gostei do livro. 

É bonita a amizade que se desenvolve entre o jovem alemão-russo, pobre e com um passado de roubos, e o alemão abastado, com uma mãe alcóolica e um pai abastado, mas ausente. É também interessante a forma como os dois jovens interagem com quem se vão cruzado durante o seu trajecto (como é caso de Isa, a menina do lixo, e da Terapeuta da fala só para dar alguns exemplos), em direcção à Valáquia (na Roménia e a Norte do Danúbio) a bordo de um jipe Lada roubado, nas férias de Verão. 

Para mim, a graça deste livro está a partir do momento em que os dois partem no jipe, começando a aventura. Até chegar a essa parte, admito que estava um pouco ansiosa (o facto dos dois jovens não serem populares na turma e a dificil relação com os outros colegas não me disse grande coisa, talvez porque se trata, infelizmente, de algo demasiado frequente nos nossos dias - nos meus igualmente -) ... Parecia que a verdadeira história do livro nunca mais começava. Depois começou e valeu a pena!

A obra venceu, em 2011, o Prémio Nacional de Literatura Juvenil Alemã, tendo sido escolhida pela Alemanha (através do Goethe-Institut) para ser apresentada na Noite de Literatura Europeia em 2013, em Lisboa, a bordo do eléctrico 28. 

https://www.goodreads.com/review/show/1865947449

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A Pomba, de Patrick Süskind

"A Pomba" de Patrick Süskind
Editorial Presença, 2014
93 Páginas


Gostei muito de "O Perfume", mas "A Pomba" desiludiu-me. "A Pomba" parece-me uma amostra de qualquer coisa que ficou por concretizar... E eu diria que detestei o livro quase desde o início, apesar de estar muito bem escrito, convém notar. 

Não gosto da sua essência. É um livro deprimente. Cinzento. Por vezes, até mal cheiroso. Daqueles que chegamos a pensar enquanto o lemos: como é que eu fui achar que podia ser boa ideia ler-te, meu bom amigo?! Pois...

Eu li-o todo até ao fim na esperança de que a minha opinião pudesse mudar, mas isso não aconteceu. O porteiro Jonathan não me causou qualquer empatia. Não só porque fica horrorizado desde o início com o aparecimento de uma pomba (um animal aparentemente indefeso, porque ainda para mais surge ferido) na casa onde vive, com as críticas que faz às porteiras sendo ele também um porteiro (um contra-senso), como também com a constante referência ao acto de defecar da pomba, do mendigo com que se cruza na rua... 
*
"Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar. O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respirtatório, a ligeira estimulação do pulso, as actividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são acções que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresístivel, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda." [p.81]

https://www.goodreads.com/review/show/1864496962


Viciado no Pecado, de Monica James



"Viciado no Pecado" de Monica James
Planeta, 2016
342 Páginas


Dentro do género, este livro foge um pouco à regra...

Não temos um ricaço do meio imobiliário com um passado díficil, muitas vezes com incursão no crime e mal tratado pela familia. Temos um psiquiatra no centro da história, especialista no vício, encurralado entre um puro prazer carnal sem emoção e um prazer mais completo, que não deixando de ser carnal, não se orienta primeiramente por isso. É mais emocional, mais sensível, digamos assim. 

Não temos uma jovem à procura de trabalho, acabada de se licenciar, que se cruza com um ricaço, se interessa por ele e ele por ela. Temos duas mulheres com quem a personagem central desta história se relacionará, muito diferentes uma da outra e que se encaixam, cada uma delas num tipo de prazer diferente. Uma é ninfomaníaca e a outra sofreu abusos quando mais nova. 

O estilo de escrita é envolvente, a história também. Gostei desde o primeiro momento da abordagem que é feita ao tema vício e da presença de um psiquiatra que se auto-analisa, analisa os pacientes e aqueles que, não sendo seus pacientes, com ele se relacionam, sobretudo as mulheres. Esta componente psicológica agradou-me bastante. Aguardarei ansiosa pela continuação da história, devo admitir...!

*
"Mas eu sei que o vício tem a sua origem num único conceito, primitivo e simples. 
O desejo.
Quer o desejo seja de êxito, de beleza, de comida, de álcool, de drogas, de nicotina ou de sexo pornográfico, o resultado final é sempre o mesmo: todos queremos experimentar a euforia que decorre desses factores, e é nisso que nos viciamos. O que desencadeia o vício varia de pessoa para pessoa, mas, no fim, todos queremos ser... felizes. E, na maioria dos casos, a satisfação do desejo conduz à felicidade." (p.13)

https://www.goodreads.com/review/show/1859315577

sábado, 31 de dezembro de 2016

Fausto, de Johann W. Goethe

"Fausto" de Johann W. Goethe
Relógio D' Água, 2013
470 Páginas

Agradável surpresa antes de tudo, o "Fausto" de Johann Wolfgang von Goethe não é propriamente um livro de leitura fácil. Não é prosa, é poesia e também não é poesia poesia. É uma tragédia. Num certo sentido, e para que se possa perceber o estilo, parece que estamos diante de uma espécie de "Os Lusíadas" de Camões.

A obra está dividida em duas partes, sendo que a segunda é composta por cinco actos. Destas duas partes, gostei muito mais de ler a primeira do que a segunda, quando Fausto decide vender a alma ao diabo e, cansado de levar uma vida de estudo longe dos prazeres da vida, decide envolver-se com Margarida, uma jovem inocente e ingénua. A segunda parte tem, a meu ver, muitas personagens (talvez demasiadas) e isso fez-me perder um pouco na história, deixando-me, por vezes, algo confusa. 

Consta que o Doutor Fausto foi um homem que viveu na Alemanha entre 1480 e 1540, mas esta informação é apenas uma das várias que existem acerca deste homem. Algumas são até conflituantes entre si. É, ao que parece, através de Goethe que a figura de Fausto se torna mais conhecida. A obra demorou quase sessenta anos a ser escrita, sendo que Goethe escreveu primeiro a primeira parte e alguns anos depois a segunda.

Gostei. Goethe, figura impar do Romantismo europeu, demonstra que se adapta bem a vários estilos literários, escrevendo com talento e mestria. E é fácil perceber porque é que "Fausto" é considerada a sua obra prima. "Fausto" reune em si como que um pedaço de cada uma das suas outras obras, como "Werther", "Viagem a Itália" e "O Jogo das Nuvens", só para dar alguns exemplos. Há algo comum entre estas quatro obras que vai muito para além do facto de terem sido escritas todas pela mesma pessoa... !

*
"A vergonha quando nasce vem/Ao Mundo no meio de segredos, / E o véu da noite lhe põem/ A cobrir cabeça e ouvidos;/ Bem gostaríamos de a matar, /Mas quando cresce e fica grande, /Nada impede que à luz do Sol ande, /Sem, porém, mais bela ficar./ Quanto mais é feia e impura, /Mais a claridade procura." (p.174)

https://www.goodreads.com/review/show/1853704366

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Descoberta Alfa Ómega, de Mark Victor Hansen & Bill Froehlich


"A Descoberta Alfa Ómega" de Mark Victor Hansen & Bill Froehlich
Estrela Polar, 2011
295 Páginas


Este livro não me seduziu à primeira. Depois, achei que lhe devia dar uma oportunidade. Trouxe-o para casa e ficou praticamente um ano na estante à espera que eu voltasse a pegar nele. Nunca senti verdadeiramente aquele impulso que sente quando queremos muito ler algo, quase como um desejo de possuir (sim, estou mesmo a falar de possuir nesse sentido) esse mesmo livro.

Agora, no fim do ano, achei, ainda que não muito convicta, que tinha chegado a hora de voltar a pegar nele e lê-lo de uma vez por todas. Sentei-me, comecei a ler as primeiras páginas e senti que o acto de ler me estava a causar um enorme desconforto, uma espécie de stress. Julguei que tal se pudesse atribuir à enorme dor de cabeça que senti nesse dia, mas não. Porque no dia a seguir retomei a leitura e voltei a sentir o mesmo. E de todas as vezes que peguei no livro para o ler, senti sempre o mesmo. Este livro não é mesmo para mim. 

Por outro lado, acho que a ideia dos autores de apresentar uma fábula e misturar com principios de auto-ajuda, apesar de ser extremamente interessante,  não funcionou bem. Não está bem conseguida no meu entender. O livro acaba por ser uma mixórdia. Nem é peixe, nem é carne. Nem estou diante de uma história, nem diante de um livro espiritual/de auto-ajuda. É meio caótico. Vai buscar exemplos que não lembram a ninguém e mistura-os com outros completamente normais do dia-a-dia. Recorre também à inclusão de personagens meio bizarras, que eu nem sei bem de onde vieram, nem consegui perceber bem a justificação de ali aparecerem e qual a sua motivação.

Tomei, contudo, nota de uma série de frases que achei dignas de guardar, porque é efectivamente importante tê-las em mente no correr dos dias. Para não esmorecer perante as várias montanhas, ingremes e de dificil acesso, que parecem suceder umas às outras na vida... 

*
"-Acreditar não é só desejar que alguma coisa aconteça, (...) - Acreditar é acção. " [p.62]

https://www.goodreads.com/review/show/1852137779

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Às 9 no Meu Livro, de Sofia Castro Fernandes


"Às 9 no Meu Livro" de Sofia Castro Fernandes
Marcador, 2016
186 Páginas



"Às 9 no meu livro" é um livro que segue a mesma linha do blogue de Sofia Castro Fernandes, "Às 9 no meu blog" (http://www.asnovenomeublog.com/), blogue que sigo praticamente desde o início e que recomendo: optimismo, muito optimismo, mesmo que perante as maiores adversidades. 

Não o consegui ler aos poucos... Estilo uma mensagem cada dia (como acho que será mais proveitoso, porque dá para saborear melhor)! Mas isso não me impediu naturalmente de ler uma mensagem de cada vez, tomando-lhe a essência. Quando é para ler, é para ler, é para sorver as palavras com alguma sofreguidão, se houver necessidade disso. E eu estava com sede, sede de optimismo. Portanto, nada melhor, ainda para mais numa altura de balanço própria do fim do ano, do que agarrar num livro destes para ler...!

Os textos são curtos. Meia página, duas meias páginas no máximo. Simples e directos. Bem escritos. E plenos de optimismo, incentivos à resiliência, ao gosto pelas coisas simples e pequenas da Vida e ao cultivo do agradecimento. 

*
"E mesmo que, ao longo do caminho, tropeces umas quantas vezes, e vais tropeçar, e vais cair, é na queda que percebes a consistência da tua força, os limites da tua resistência, os batimentos do teu coração, a capacidade de aceitar, agradecer, perdoar, e aquela doçura que conquistas quando deixas que a vida te surpreenda. 
É preciso estar atento para agarrar a oportunidade, sentir o clique, recuar para tomar balanço. E dar o salto." [p.22].

https://www.goodreads.com/review/show/1847562797

Caminhar no Gelo, de Werner Herzog


"Caminhar no Gelo" de Werner Herzog
Tinta-da-China, 2011
124 Páginas

Werner Herzog decide fazer uma caminhada, entre o final de Novembro e o início de Dezembro de 1974 (demorou três semanas), de Munique a Paris, quando fica a saber que a sua mentora no mundo do cinema, Lotte Eisner (alemã que viveu o período do Terceiro Reich e que por ser judia teve de fugir para França), se encontra muito doente e, muito provavelmente, à beira da morte. 

Pelo caminho, Herzog vai dormindo aqui e ali, onde calha, descrevendo sem se perder em detalhes excessivos o que vai vendo, ao mesmo tempo que num momento ou noutro vai tomando mais sentido à solidão que o acompanha. 

Gostei do que li, mas fiquei a achar que a caminhada para "prolongar" a vida de Eisner foi apenas um pretexto para o autor (com um valente espirito aventureiro) fazer esta viagem em pleno Inverno e, mais tarde, escrever este livro. Até porque ele só fala de Eisner no início e praticamente no fim...!

*
"À volta das árvores, no chão enlameado, estão caídas maçãs podres que ninguém apanhou. Misteriosamente, uma das árvores, que de longe parecia ser a única com folhas ainda estava carregada de maçãs. Apanhei uma, era bastante amarga, mas boa para a sede. Atirei o caroço contra a árvore e as maçãs caíram como chuva. Quando pararam de rolar, transmitindo uma imagem de sossego assim caídas, pensei para mim: ninguém pode imaginar esta ausência total de pessoas. Este é o dia mais desolado, mais solitário de todos os dias. Aproximei-me então e sacudi a árvore até ela ficar nua. As maçãs caíram ao chão, engolidas pelo silêncio. Quando tudo chegou ao fim, abateu-se sobre mim um silêncio imenso, e olhei à volta, e não havia ninguém. Ali estava eu sozinho."
[p.91]

https://www.goodreads.com/review/show/1847562325?book_show_action=false&from_review_page=1