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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"Milena und die Briefe der Liebe" de Stephanie Schuster



"Milena und die Briefe der Liebe" de Stephanie Schuster
ATB, 2020
368 Páginas

Quando parti para a leitura de "Milena und die Briefe der Liebe" estava à espera de algo ligeiramente diferente do que acabei depois por encontrar e passo a explicar. Duas foram as razões principais que me levaram a querer ler este livro: a relação de Milena com Franz Kafka, autor de um dos meus livros preferidos, "O Processo"; e a paixão de Milena pela escrita, algo que temos em comum. 

A verdade, porém, é que boa parte do livro foca-se essencialmente em Milena antes de Kafka. Só muito depois de lida mais de metade do livro é que assistimos à construção da relação entre ambos, iniciada com a troca de correspondência de Milena, que muito anseia traduzir os trabalhos do autor de alemão para checo. Isto aborreceu-me. Ainda que eu compreenda a lógica de enquadrar todo o percurso de Milena anterior a Kafka, considero que a autora se perde demasiado em detalhes de aspectos menores e o estilo de escrita usado para apresentar Milena no início soa-me um pouco ao piroso romantismo de cordel. 

Quando começa a escrever ao escritor checo, Milena Jesenská, flha de um médico e na altura a viver em Viena, está casada com Ernst Pollak vivendo um casamento de fachada. Ela ama-o, ele parece totalmente desinteressado, o que a deixa frustrada e a dado momento a leva a procurar investir num trabalho que realmente aprecie... É, deste modo, que se inicia a sua carreira como jornalista. Também é através de Pollak que Milena conhece Kafka vários anos antes em Praga, mas tanto quanto se percebe esse primeiro contacto é mais um contacto de "vista" do que um contacto de facto. A frustração amorosa leva-a a procurar viver a sua paixão pela escrita... e, para além do jornalismo, procura encontrar satisfação na tradução. Lembra-se, então, de Kafka. 

É a partir da entrada em cena de Kafka que, na minha perspectiva, "Milena und die Briefe der Liebe" adquire um novo interesse. Schuster apresenta-nos um romance de cartas, platónico, que não leva a lado nenhum, mas que dá a Milena uma nova perspectiva da vida amorosa e profissional. Como se Kafka acabasse por ser a "peça-chave" da sua vida... E, pelos vistos, foi de facto. 

Mas... Eu não consegui adorar a forma de escrita de Schuster nem a figura de Milena (mistura de infantil com caprichosa com ingénua/sonhadora). Aliás, até a figura de Kafka me conseguiu, por vezes, irritar da forma como foi apresentada. 

Por isso, dou-lhe apenas três estrelas. Acho que estava à espera de outra coisa, sendo que aquilo de que gostei sobretudo foi de conhecer todo o enquadramento histórico que rodeou a relação entre estas pessoas na realidade. 


https://www.goodreads.com/book/show/56054844-milena-und-die-briefe-der-liebe

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O Processo, de Franz Kafka


"O Processo" de Franz Kafka
Relógio D'Água, 2015
293 Páginas

Publicado já depois da morte de Franz Kafka, "O Processo" é uma obra que não ficou completa. No entanto, a ideia que o autor pretende passar percebe-se bem, muito bem, sem qualquer margem para dúvidas. A sua escrita é clara.

A obra versa sobre a culpa (ser culpado a todo o custo, ser culpado sem conhecer o motivo, ser culpado porque se tentou defender ou até porque se envolveu com que não devia), a justiça (que aqui parece um mito, algo impossível e inatingivel, porque os advogados de defesa não têm ordem de assistir à sessão em que o seu cliente é acusado, nem ter sequer acesso aos documentos relacionados com o processo) e os tribunais  (que abrem a um Domingo e que dividem a sala onde a sessão se verifica com um casal de trabalhadores do tribunal, só para dar alguns exemplos). E continua a estar actual porque o bom desfecho do processo depende em muito dos bons contactos que se tem...! 

Nesta edição, e já depois de se conhecer o "fim", encontram-se vários capítulos fragmentados, que o autor, tendo morrido jovem e com tuberculose (deixou de se conseguir alimentar), deixou por terminar e que, ainda assim, não impedem, como já referi anteriormente, que se compreenda a ideia que este queria transmitir sobre o mundo das leis e a sociedade da época (?). 

Gostei muito e recomendo! Tinha lido "A Metamorfose" e, apesar de não ter desgostado, não fiquei muito fã. É um livro que nos comprime, que nos esmaga e, em certa medida, triste. "O Processo" é diferente, pois mantendo o estilo kafkiano de descrição da realidade por via da expressão de sentimentos e emoções, é uma obra soberba e faz-nos pensar no quão subjectiva pode ser a justiça!

*
"Ora, decerto que K. já se havia apercebido por esta altura, e por experiência própria, de que os funcionários subalternos da grande organização que era aquele tribunal não eram propriamente irrepreensíveis, mas sim incumpridores e até corruptos, pelo que se abriam, por assim dizer, brechas no sistema judicial, por natureza, rigoroso e hermético." (p. 114)

https://www.goodreads.com/review/show/1837130526