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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os Filhos da Droga, de Christiane F.

"Os Filhos da Droga" de Christiane F. 
Bizâncio, 2016
299 Páginas

Quis muito ler este livro enquanto adolescente (na altura, o livro tinha uma capa preta e vermelha e não tinha a imagem de uma jovem), mas não consegui. Durante muito tempo encontrei-o esgotado e pensei: não tem de ser. Não tinha, não. Naquela altura não tinha de ser e li-o agora, porventura, num momento mais oportuno... Quando estava a terminar o livro, vi na televisão, no programa Alta Definição, o testemunho do cantor Nuno Norte e constatei que muito do que estava a ler se encaixava na experiência que ele relatou. Arrepiante! Arrepiante! 

A droga aqui referida é não só a heroina e o haxixe, só para dar alguns exemplos, como também o medicamento Valium e outros do género. Nuns momentos pretende-se excitação, noutros tranquilidade. E esses estados são conseguidos recorrendo à droga, da qual se ganha dependência porque o prazer inicial se esvai e dá origem à necessidade destas substâncias para superar a crise de abstinência, bem como a dor e o sofrimento por esta gerados. 

Infelizmente, este foi o padrão dos anos setenta. Muitos foram os jovens que se perderam por causa da droga, pois a sociedade não estava preparada para lidar com esta situação. A droga leva(va) à prostituição e ao roubo, à venda de bens da familia e próprios sem qualquer controlo... Porque se precisa(va) de dinheiro. (E escrevo no presente e no imperfeito porque o drama que é a droga não desapareceu... Vai-se reinventando. Vai-se recriando. Muita gente ainda vai perecer por causa dela...)

E a história de Christiane F., uma jovem alemã nascida nos anos sessenta, constitui-se como um testemunho verídico fundamental para compreender este "outro mundo", sendo que a obra dispõe igualmente do contributo da sua mãe, assim como de alguns especialistas nesta área. O livro continua actual e a sua leitura é, sem dúvida, muito enriquecedora. 


https://www.goodreads.com/review/show/2051173788

sábado, 23 de abril de 2016

Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin


"Berlim Alexanderplatz" de Alfred Döblin
Edições Dom Quixote, 2010
591 Páginas


Publicado em 1929, "Berlim Alexanderplatz" de Alfred Döblin não é um livro de fácil leitura. Alfred Döblin escreveu um livro interessante, mas, por vezes, caótico. A sensação transmitida é muito semelhante àquela que Edvard Munch, pintor norueguês, provoca com o quadro "Skrik" [O grito]: angústia. Tanto o livro como o quadro inserem-no no Expressionismo, movimento artistico e cultural surgido no início do século XX na Alemanha. Este movimento deformava com frequência a realidade com o intuito de evidenciar os sentimentos (subjectivos) do ser humano.

Aqui a cidade de Berlim está nitidamente em convulsão, verificando-se a demolição de prédios, a realização de obras para a construção do metropolitano, vários cafés e tascas, muito pequeno crime e prostituição quase por toda a parte. Nota-se nesta Alemanha dos anos vinte, saída da Guerra, com uma República de Weimar instável e muitas reparações para pagar, uma certa loucura, caracteristica de um período de transformação da sociedade e dos seus valores. Quer-se experimentar tudo ao máximo, até ao limite e, nesse sentido, estamos diante de uma certa alienação, de um certo descontrolo. 


É nesta atmosfera que surge Franz Biberkopf, que, após ter saído da prisão, se sente como que desprotegido e cheio de medos ao confrontar-se com a pobreza, o crime e os primeiros passos do Nacional-Socialismo. Quer levar uma vida honesta, resistente ao ambiente que o rodeia e não consegue... Até certo ponto. 


Apesar da obra estar dividida em nove livros (que podemos entender como sendo capítulos) e do livro ter cerca de quatro páginas de sumário do que se passa em linha gerais em cada um dos livros, destinados a guiar o leitor, são vários os momentos em que, à semelhança de Berlim e de Biberkopf, nos sentemos perdidos. De um momento para o outro Döblin apresenta-nos um diálogo entre uma ou duas personagens que aparecem sem mais nem menos, numa tasca ou num café, e Biberkopf quase que fica invisivel. Depois, surgem as reflexões de Biberkopf e Döblin passa novamente de repente para o que acontece na cidade e com a Alemanha. Döblin traz novamente à cena Biberkopf com mulheres (quem são as prostitutas, quem são as namoradas) e depois com judeus e depois com bândidos e o leitor vê-se novamente confuso, como que angustiado, tentando procurar o norte da história...


Ainda assim, considero-o um livro interessante, sobretudo pelo esforço do autor tentar demonstrar como se encontrava a Alemanha saída da Primeira Guerra Mundial e nas vésperas da chegada do Nacional-Socialismo ao poder e, consequentemente, procurar articular isso com a vida de Biberkopf e tentar demonstrar em que medida o homem e a sua obra é influenciado pelo meio e deste pode facilmente tornar-se um produto... Se se deixar levar pela apatia e pelo medo!


*

P.S: Há igualmente um filme do livro, de 1931, que poderá ser visto aqui:https://www.youtube.com/watch?v=m26zs... (Falado em alemão e sem legendas).

https://www.goodreads.com/review/show/1598001700?book_show_action=false